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24 Março 2012

Francisco tentou o impossível: o retorno pleno aos ensinamentos de Cristo e do Evangelho combinado ao vínculo indissolúvel com uma instituição eclesiástica que dele se afastou. Fugindo de qualquer tentação herética, Francisco acabou, assim, imprimindo à sua vida o carimbo de um ardente martírio, que agora pede apenas para ser contado. Como fizeram Dante e Giotto.

A opinião é do poeta italiano Franco Marcoaldi, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 17-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A ação tem o seu epicentro na Basílica de Assis dedicada a São Francisco de Assis e se consume em um período histórico que vê a Igreja dramaticamente envolvida em um fronte duplo, interno e externo: de um lado, a proliferação de forças religiosas centrífugas que colocam em discussão a sua autoridade teológico-política; de outro, a força crescente do poder estatal.

Por sua parte, Francisco tentou o impossível: o retorno pleno aos ensinamentos de Cristo e do Evangelho combinado ao vínculo indissolúvel com uma instituição eclesiástica que dele se afastou. Fugindo de qualquer tentação herética, Francisco acabou, assim, imprimindo à sua vida o carimbo de um ardente martírio, que agora pede apenas para ser contado.

É o que irá acontecer no canteiro poético da Comédia dantesca e, antes ainda, no canteiro pictórico de Assis, segundo as diversas sensibilidades dos dois "mestres de obras": Dante e Giotto (embora, nesse segundo caso, os artistas envolvidos são múltiplos, e as suas obras, objetos de controversas atribuições).

Esse, porém, é o fascinante confronto proposto por Doppio ritratto [Duplo retrato], um breve e muito denso livro de Massimo Cacciari (publicado pela Adelphi), que, partindo de longe, acaba interrogando com extrema eficácia o nosso presente.

Giotto é um pintor querido pelos poderosos em geral e pela corte pontifícia em particular. Dante está em constante batalha contra todos os "falsos deuses" do seu tempo. Ambos reconhecem a excepcionalidade da santidade encarnada de Francisco. Mas Dante insiste na necessidade de combinar a doutrina militante dos dominicanos e a caritas franciscana, a dura pregação dos primeiros e a misericordiosa pobreza dos segundo: "Francisco deve se unir com o outro 'príncipe' para salvar a Igreja que desmorona"; uma Igreja que repetidamente entrará em conflito com a proposta de Francisco, enquanto, no ciclo de Assis, é a própria corte pontifícia que acompanhará harmoniosamente esse processo, acabando assim por normalizar um episódio, ao contrário, escandaloso. Portanto, nada de pregos nem de corpo nu e chagado, nem luta "contra e com a Igreja, e a sua própria Ordem, e o mundo".

Muito espaço, ao invés, na basílica da Úmbria, é dedicado ao Francisco poeta (que o poeta Dante, de algum modo, ignora). Espaço ao novo discurso sobre a natureza e sobre uma criaturalidade intrinsecamente divina, como indica o sermão aos pássaros, que, anota Cacciari, na realidade sobe até Deus graças a um canto comum de ser humano e animal.

A ideia e a experiência de vida franciscana – na realidade – se cruzam e se anulam continuamente nesse "duplo retrato". Com mais uma demonstração da inefável radicalidade de Francisco, tão evidente naquela imagem extrema da "Senhora Pobreza" que caracteriza o seu destino.

Pobre é quem se liberta não apenas das posses, mas de si mesmo, da própria pessoa. E, graças a isso, ele será ainda mais poderoso (porque terá atingido o essencial) e ainda mais feliz (porque viverá só do amor e no amor pelo outro).

É a última passagem a mais ousada de todas. Nem Dante (atraído pela ideia "real" de Francisco), nem Giotto (que insiste principalmente na obediência e na humildade) conseguirão representar até o fim o paradoxo de uma "vitória" que surge do próprio cume da miséria, que se anuncia alegremente na derrota".

Mas essa "incompreensão", essa "traição", questiona-se Cacciari, não são talvez as mesmas que Cristo sofreu, a quem Francisco olha insistentemente como único e inalcançável modelo?

Irrepetível, exemplar, a vida de Francisco – sobre a qual se centraram os repetidos e admiráveis estudos de Chiara Frugoni – continua fascinando pela sua radicalidade. Por aquele seu modo ao mesmo tempo simples e paradoxal de estar no mundo, que esse vibrante ensaio de Cacciari investiga dobra por dobra em toda a sua santa loucura. No impulso absoluto pelo próximo, que chega a desfazer e a recriar a própria ideia de pessoa. Na escolha da pobreza como sinônimo de suprema leveza e alegria. De uma verdadeira, completa liberdade.

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