Quando Saramago convocou Caim para o acerto de contas com Deus

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09 Março 2012

Iniciou no dia 5 de março, em Turim Riscritture, um ciclo de encontros organizado pela Torino Spiritualità e pelo Circolo dei Lettori: quatro personagens do Antigo Testamento, recontados por escritores do século XX e reinterpretados por quatro vozes do nosso tempo.

Além de Caim, de José Saramgo, os próximos encontros serão: no dia 19 de março com o biblista Piero Stefani sobre , de Joseph Roth, no dia 2 de abril com a teóloga Lilia Sebastiani sobre Judite, de Mario Brelich, e no dia 16 de abril com o crítico literário Piero Boitani sobre José e seus irmãos, de Thomas Mann.

Publicamos aqui a reflexão do escritor italiano Antonio Scurati, professor da Libera Università di Lingue e Comunicazione (IULM), de Milão, sobre Caim, o fratricida bíblico que se faz presente na releitura do prêmio Nobel Saramago, ateu obstinado, em seu último romance, publicado em 2009.

O artigo foi publicado no jornal La Stampa, 05-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele". Provavelmente, porém, há um desentendimento também na origem de Caim, o livro com que, há três anos, José Saramago quis reescrever a mais terrível e menos literária de todas as grandes figuras bíblicas, acertando, pouco antes de sua morte, do seu modo, as contas com a religião do seu país e dos seus pais.

O Nobel português se lançava, de fato, com fúria iconoclasta, contra o Deus do Antigo Testamento – definido como "vingativo, rancoroso, mau e indigno de confiança" – como se quisesse arrancar do solo da Europa a raiz antes da erva daninha a partir da qual cresceu a sua distorcida civilização. Ao contrário do que deixa entender esse ímpeto de reparador dos erros, a civilização ocidental da Europa não tem, porém, em sua origem textos sagrados guardados por uma casta de sacerdotes, mas sim dois textos profanos, duas obras que hoje definimos como "literários", compostos de homens para homens, cantados e recantados, variando livremente, geração após geração.

A cultura ocidental inicia com dois poemas épicos escritos em língua grega. No primeiro, narra-se a história de uma longa guerra; no segunda, uma aventura por mar e por terra. O primeiro é o poema da força; o segundo, da astúcia. O primeiro conta sobre homens em armas tencionados à destruição do mundo; o segundo, sobre um homem que veleja para a descoberta do mundo. A história do primeiro é sem retorno; a do segundo dobra a linha reta do relato até soldá-lo no anel do retorno. Aquiles e Ulisses, não Caim, são os primeiros homens da cultura literária do Ocidente. Ela começa com as palavras de Homero, não com a de um deus.

Não é por acaso, portanto, que, segundo o que Ugo Dettori nos lembra, "nenhum personagem foi, mais do que Caim, evitado por todas as literaturas: se poderia dizer que a terrível universalidade do primeiro homicida sempre deixou perplexos os escritores e os poetas, incapazes de acrescentar novos valores e de considerar sob novos aspectos a sua antiga realidade bíblica" (Caim começa a nascer como personagem literário apenas no século XVIII, para depois se desenvolver no século XIX como figura eminente da insubordinação cósmica romântica graças a Byron, que lhe dedicou o drama homônimo, embora a sua figura derive mais da tradição grega de Ajax e Capaneu do que da bíblica, e a Victor Hugo que lhe consagrou uma célebre poesia).

Saramago, ao contrário, parece querer a todo custo – até mesmo ao custo do equívoco total, da polêmica feroz e, às vezes, do escárnio ofensivo, até à blasfêmia fortemente desejada – contestar ao Deus dos judeus e dos cristãos o primado da palavra criadora. É com a palavra de deus (que ele escreve obstinadamente com a inicial minúscula), não com a de Homero, que o escritor português, já na sua velhice, se engaja em um antagonismo pertinaz. Naquela que permanecerá como a sua última obra de narrativa publicada em vida, ele se joga de cabeça, então, na reescritura justamente de Caim.

E talvez aí se delineia um possível critério para distinguir duas grandes famílias de escritores: aqueles que escrevem sob a influência da autoridade suprema da Bíblia (prevalentes no âmbito de língua inglesa) e aqueles que, ao invés, estão sob a égide da Ilíada e da Odisseia (prevalecentes nas literaturas do continente europeu). Em ambos os casos, não pode ser estranha a essa descendência de uma matriz insuperável uma certa dose de angústia da influência, de rivalidade talvez mimética. Quando, porém, o rival é Deus, nada mais há do que a danação.

É nessa ótica – a partir dessa contenda pela autoridade que pronuncia uma palavra primogenitora – que devem ser avaliados não apenas o ateísmo professo e militante da escrita de Saramago, mas também os indubitáveis traços de anticlericalismo e até de antissemitismo nela presentes. No caso de Saramago e das sua reescrituras do Antigo e do Novo Testamento (lembremos O Evangelho segundo Jesus Cristo de 1991), a rivalidade se modula, de fato, nos tons abatidos e ardentes de uma verdadeira inimizade ideológica.

Saramago toma quase de pretexto a figura do fratricida, do portador de uma culpa inemendável, para uma viagem fantástica (os saltos de espaço e tempo são frequentes, dada a brevidade do livro, e permitidos por um elementar artifício narrativo) que passa em revista muitas das cenas fundamentais do Antigo Testamento, escolhendo-as preferencialmente entre aquelas em que Deus se manifesta diretamente aos homens.

O resultado é uma galeria de horrores e erros cuja representação literária é reiterada e interrogada com acribia neoiluminista teimoso obstinada e desesperada, uma coleção de graves imperfeições nas quais o imperfeito sempre é um Deus colérico, injusto e, principalmente, ilógico, do qual, porém, mesmo que fosse apenas para poder desmascarar, contradizer ou desaprovar, o velho escritor José Saramago, tendo chegado ao passo extremo nos seus quase 90 anos, deve sempre pressupor não apenas a presença e, talvez, a existência, mas também e especialmente a palavra, o verbo. Uma palavra que, mesmo na versão caricatural e hostil fornecida pelo seu exegeta tardio e involuntário, soa como desde sempre já pronunciada. Uma palavra cujo insondável segredo até mesmo o ávido ateu José Saramago não cessa, voluntária ou involuntariamente, de interrogar.

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