''É um erro contrapor Igreja e gays. Também há homossexualidade dentro da Igreja''

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08 Março 2012

Fala Vito Mancuso (foto), teólogo e amigo pessoal de Lucio Dalla. "Depois do funeral, prevaleceu a lógica do confronto. Assim, não se vai a lugar algum".

A reportagem é de Valerio Varesi, publicada no jornal La Repubblica, 07-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em vez do silêncio respeitoso pela morte, como consequência do funeral de Lucio Dalla, chega a balbúrdia da polêmica. De um lado, os gays, lembrando as procissões marianas desviadas para não passar em frente da sua sede em Porta Zaragoza, que acusam a Igreja bolonhesa de hipocrisia. De outro, o padre Bernardo Boschi, o confessor do artista, que rebate clamando vingança. No meio, a memória do cantor e compositor na qual muitos querem colocar um rótulo.

Vito Mancuso, teólogo e amigo de Dalla, que o hospedou no outono europeu em sua casa da Via D'Azeglio, foge das contraposições e dos jogos de facção: "Se não sairmos da lógica dos alinhamentos em grupos, nunca vamos conseguir. É um vício tipicamente italiano o de sempre tentar a contraposição, colocando-se de um lado, contra um outro, sem considerar a humanidade individual. É preciso rejeitar esse jogo", explica.

Eis a entrevista.

A seu ver, é justificada a acusação de hipocrisia lançada contra a Igreja?


Antes, interroguemo-nos sobre o que é a Igreja. Eu acho que são muitas coisas. É o arcebispo Carlo Caffarra que não se apresenta, mas também Enzo Bianchi, que parte do profundo Piemonte e desce até Bolonha para saudar seu amigo. A Igreja também é os franciscanos que estiveram presentes com uma mensagem do seu máximo representante e com dois padre vindos de Assis.

Estamos falando da Igreja bolonhesa. Do Pe. Boschi que autoriza implicitamente a pensar em alinhamentos quando se fala de vingança do mundo gay...

E, a meu ver, fez mal. Eu jamais teria dito essas palavras, porque, desse modo, se comete o mesmo erro de quem busca a contraposição. E, além disso, o mundo gay se diz de muitos modos. Uma coisa são as acusações contra Dalla de Aldo Busi, outra coisa é a proximidade de Benedetto Zacchiroli. Rejeito toda instrumentalização dos casos humanos para levar adiante a própria batalha. Considero tudo isso um modo violento de estar no mundo. Seguindo essa linha, jamais encontraremos os outros.

Portanto, houve uma instrumentalização até nesse caso?

Dalla, na sua singularidade, subverteu todos os alinhamentos, porque nunca aceitou se apresentar ao mundo reduzindo-se totalmente à sexualidade. Por isso, fez explodir a lógica daqueles que não pensam no indivíduo, mas sim na facção ou no lobby.

Como você considera a ausência de Caffarra?


Estou em Bolonha há pouco e encontrei o cardeal em uma ocasião, tendo ficado impressionado com a sua humanidade. Mas, justamente por causa dessa humanidade, esperava a sua presença em San Petronio para saudar um grande filho de Bolonha e um fiel como Dalla. Mas não conheço a sua agenda, e a sua ausência certamente será justificada. Digo apenas que teria sido bonito se estivesse estado presente o sumo pastor da Igreja bolonhesa.

O desdobramento da celebração também criou alguma polêmica. Em particular, aquela advertência ao correto comportamento antes da Eucaristia. O que você pensa a respeito?


Isso me irritou muito, porque eu considero uma traição doutrinal. Não é verdade que não se pode comungar na presença de pecado. Se a sua consciência sente sinceramente que você pode fazê-lo, jurando a si mesma que irá se confessar em um segundo tempo, a participação na Eucaristia é possível. Até porque a proibição fecha o sopro da graça. Além do mais, não se entenderia por que Jesus estigmatizava os fariseus que se consideravam motu proprio dignos da Comunhão. Somos todos indignos diante da pureza de Deus, e quem se considera digno é, ele mesmo, indigno. Com relação ao resto, o rito foi positivo em geral.

Você não acha que, em geral, há uma ambiguidade na atitude da Igreja com relação à homossexualidade?


Uma certa incoerência sempre está presente, dependendo se prevalece o aspecto ético-doutrinário ou a consideração humana. No fim, são as decisões dos indivíduos que determinam. A Mario Cal, suicida, ou a Versace, homossexual, não foram negadas as exéquias.

A Piero Welby sim...

Essa foi uma decisão do cardeal Camillo Ruini de sabor político. O cardeal Martini jamais faria tal ato. Mas voltemos ao início: são os indivíduos que decidem, dependendo se olharmos para a doutrina ou para o  humano. O pluralismo é a característica e a beleza do Cristianismo, e, não por acaso, a Bíblia é um corpus de 73 livros. Os Evangelhos também são quatro e às vezes em contradição.

Um gay declarado, sem a fama de Dalla, teria sido aceito na Igreja?

Eu acredito que sim. A Igreja não condena a homossexualidade como tal, mas sim os comportamentos ativos nesse sentido. Além disso, a homossexualidade também é interna à Igreja, visto que há párocos e bispos que têm essa orientação.

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