''Não há hipocrisia no adeus a um gay''

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07 Março 2012

Quem ampliou a generosidade das "exéquias" nas igrejas foi, em julho de 1997, o funeral de Gianni Versace, na catedral de Milão, e, em setembro de 2007, o de Luciano Pavarotti, na catedral de Modena. Mas acredito que a missa de adeus do domingo para Lucio Dalla em San Petronio (foto), em Bolonha, foi um fato de maior peso e não só uma outra exceção reconhecida a um personagem muito amado por todos para poder saudar com discrição.

A reportagem é de Luigi Accattoli, publicada no jornal Liberal, 06-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Dalla era um homossexual como Versace e era um católico praticante – e transgressivo – como Luciano Pavarotti, que não era homossexual, mas sim divorciado e novamente casado. A grande fama popular e a condição de cristãos marginalizados une os três casos. Mas em Dalla há mais.

São duas as novidades vindas de San Petronio: a missa de despedida não foi apenas um "ato devido", de caráter civil mais do que eclesial, como – mais ou menos – nos dois casos anteriores, mas foi realizada como um explícito reconhecimento comunitário do "fiel e praticante" Lucio Dalla. Nela, estava presente e falou no seu encerramento – comovendo todos – aquele Marco Alemanno que, há oito anos, era o "companheiro" inseparável de Lucio, que era bem conhecido como homossexual, mesmo que não ostentasse nem reivindicasse, ou, melhor, vivia com perguntas e com algum desconforto essa sua condição.

Para entender o que aconteceu em San Petronio, é preciso alguma referência mínima ao cristão Dalla. Vimos o teólogo Vito Mancuso ler a primeira leitura, o padre dominicano Bernardo Boschi fazer a homilia, Enzo Bianchi formular as intenções da "oração dos fiéis", o franciscano Enzo Fortunato dar voz a uma saudação vinda do Sagrado Convento de Assis: são as pessoas e os ambientes com os quais Lucio conduzia a sua combativa busca de Deus. E seria preciso acrescentar os beneditinos do mosteiro de Santo Estevão, de Bolonha, além do padre da paróquia perto da sua casa, na Piazza dei Celestine, onde Lucio fora batizado e onde ia à missa aos domingos e às vezes também lia no ambão.

Encantado desde os tempo de Gesù bambino (título original da canção 4 marzo 1943, do festival de Sanremo de 1971) pela doçura criativa do seu canto, dos seus textos, dos gorjeios, das "clownerias", dos histrionismos leves que o caracterizavam, eu sempre considerei Lucio Dalla como um menestrel cristão que conseguia dizer, do seu modo, a fé evangélica à humanidade de hoje.

No dia 9 de julho de 1999, ele tinha recebido a láurea ad honorem em Letras e Filosofia (disciplina de arte, música e espetáculo) da Universidade de Bolonha. Para mim, aquela missa de despedida é o equivalente para a Igreja do que aquela láurea foi para a universidade. A Universidade de Bolonha o tinha reconhecido como um mestre da comunicação; a Igreja de Bolonha o reconheceu como um filho seu.

Ele tinha musicado os Salmos, tinha composto o texto da canção Caro amico ti scrivo em conversa com o padre Michele Casali, em um dos claustros do histórico convento dominicano de Bolonha. "A fé cristã é o meu único ponto firme, a única certeza que tenho", disse ele ao L'Osservatore Romano em setembro de 1997: "Sou um fiel. Acredito em Deus porque ele é o meu Deus. Eu o reconheço nos homens, nos pobres sobretudo, em todos aqueles que precisam de ajuda. Sempre me chamou a atenção a decisão de Cristo de nascer pobre. Ele, pobre, é o futuro. Jesus entendia as pessoas, os seus amigos eram pescadores, prostitutas, pessoas simples e pobres".

"Eu acredito que a morte é só o fim do primeiro tempo (...). Sempre acreditei nisso. Foi um desenvolvimento contínuo e sempre permaneceu intacto esse estupor diante do mistério. Eu acredito mais em coisas que não se veem do que naquelas que se veem. O que não vemos existe mais" (entrevista à revista Io Donna do dia 5 de novembro de 2011).

Podemos saudar com benevolência o que aconteceu em San Petronio. É árduo para nós, mas precisamos perceber que há entre nós muitos homossexuais cristãos, embora a cristandade não os saiba reconhecer. Todo cristão e toda cristã sabem que o irmão ou a irmã, o filho ou a filha, o amigo ou a amiga homossexual é capaz de amar e de receber amor. E sabem que é isso que conta diante de Deus. O conjunto dos cristãos – isto é, a Igreja – sabe que os homossexuais não são estranhos à ação da Graça e, se forem fiéis, sentem a necessidade, a ânsia de ouvirem que a sua vida diante de Deus não é inútil, mas, ao invés, é valiosa.

O cristão e a Igreja sabem tudo isso, mas ainda não têm as palavras para dizê-lo. Temos às costas uma história muito longa de perseguição aos homossexuais motivadas com as Escrituras para que seja possível proclamar as Escrituras em seu favor. Foi possível – e isso aconteceu de forma credível – no caso de Lucio Dalla, seja pela intensidade da sua busca na fé, seja por motivo da discrição e da reserva com que ele tinha vivido a sua condição.

Para aqueles que protestam que, na igreja, chamaram Marco Alemanno de "amigo e colaborador", em vez de "companheiro" de Lucio, eu digo que essa reticência era um preço aceitável para que ele pudesse falar. Para aqueles que acusam a Igreja de hipocrisia porque concede ao Dalla discreto o que não concederia ao Dala declarado, eu digo que deve ser respeitada a fadiga dos homens da Igreja para conciliar as condenações da homossexualidade que estão nas cartas do apóstolo Paulo e a "compreensão" para a situação das pessoas homossexuais que é a única palavra da qual dispõem no momento e há apenas meio século.

Para todos aqueles que se interessaram pelos fatos de San Petronio, dedico as palavras da canção de Lucio Amore disperato, que diz tudo sobre a condição em que ele viveu e sobre a pergunta que ele se fazia:

"O que tu queres saber, é melhor não saber / O amor que me pedes não pode acabar bem / Não pode acabar bem / O céu não o quer (...) Amor desesperado / Amor jamais amado / Amor posto na cruz / Amor que resiste / E se Deus existe / Vocês, vocês / o reencontrarão lá, lá".

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