Operação Noé: apelo para salvar o clima

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28 Fevereiro 2012

Na Quarta-Feira de Cinzas, no Reino Unido, representantes das religiões se unem no compromisso para a proteção da criação.

A reportagem é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada no sítio Vatican Insider, 22-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Chamaram-na de Operação Noé (Operation Noah, www.operationnoah.org), um nome auspicioso, que faz alusão a uma possibilidade de salvação, como aconteceu com a Arca do Velho Testamento, mas, apesar do nome, a declaração conjunta dos principais líderes das Igrejas da Grã-Bretanha, divulgada por ocasião da Quarta-Feira de Cinzas, não deixa muitas margens ao otimismo, a menos que se decida rapidamente.

As mudanças climáticas são uma realidade palpável diante dos olhos de todos: nunca antes tivemos nas mãos a possibilidade de destruir toda possibilidade de vida sobre o planeta, mesmo que a opinião pública e cultura em geral prefiram postergar, dando de ombros: bem outros são os problemas sobre a mesa. Mas não é verdade, dizem os signatários.

A crise em curso está destinada a se agravar se nada for feito em nível ambiental: a probabilidade de um aquecimento global em um futuro próximo diminuirá os estoques alimentares, provocará a extinção de um grande número de espécies e impossibilitará a própria vida humana em diversas regiões do mundo de onde partirão caravanas de migrantes de dimensões bíblicos em busca de melhores terras para viver.

Tudo isso não pode deixar de levantar graves interrogações em todos aqueles que se declaram cristãos: como nos colocamos diante de Deus, princípio e fim de todas as coisas? Como conciliar a nossa sociedade consumista e as necessidades das populações mais pobres do planeta e o risco de extinção da biodiversidade, obra do Criador? E como nos apresentamos diante das gerações futuras? Somos capazes, de uma vez por todas, de promover novos estilos de vida mais sustentáveis para o ambiente?

Trata-se de questões fundamentais, um autêntico desafio que as Igrejas declaram acolher com o compromisso de contribuir com a busca de soluções compartilhadas – como sempre se diz – com todas as pessoas de boa vontade.

Assim, Rowan Williams, arcebispo de Canterbury, Richard Chartres, bispo de Londres, Barry Morgan, arcebispo de Gales, o cardeal Keith O'Brien, da Escócia, arcebispo de St. Andrews e Edimburgo,, e as lideranças das Igrejas Metodista, Batista e URC [Igreja Reformada Unida] estão entre aqueles que assinaram a Operation Noah lançada no início da Quaresma.

A razão da escolha dessa data é explicada assim: "Tradicionalmente, por ocasião da Quarta-Feira de Cinzas, os cristãos se comprometem ao arrependimento e a uma fé renovada em Jesus Cristo", disse David Atkinson, bispo auxiliar de Southwark. "Vivemos a nossa vida de fé no contexto de uma economia consumista prejudicial, caracterizada por uma excessiva dependência dos combustíveis fósseis, com um alto risco de extinção das espécies: estamos infligindo tudo isso ao mundo que é dom de Deus. Consideramos, portanto, que um cuidado responsável pela criação de Deus é fundamental para que possamos nos dizer fiéis ao Evangelho, assim como uma ação central para a missão da Igreja hoje".

Que melhor momento para um mea culpa em coro de cristãos por não terem ouvido as advertências que há alguns anos veem não só dos especialistas do clima? Em maio passado, a Pontifícia Academia das Ciências publicou um relatório sobre o estado das geleiras, na era atual, definida como Antropoceno pelo prêmio Nobel Crutzen. Em outubro, os bispos credenciados junto à União Europeia (Comece), em um documento sobre a crise económica europeia, destacavam que, sem uma atenção ao ambiente, todo projeto de desenvolvimento está fadado ao fracasso, aqui e em todas as partes do mundo.

É um apelo para todos, incluindo as Igrejas, escrevem os promotores, e não há tempo a perder: exatamente como havia escrito no apelo final o grupo de especialistas que redigiram o documento da Academia das Ciências, que ficou muito desconhecido dentro das nossas comunidades eclesiais.

Mas, no Reino Unido, a intenção – nesse caso, fortalecida por uma corresponsabilidade ecumênica – é ainda mais popular: um folheto colorido com algumas afirmações-chave e alguns convites à reflexão está sendo amplamente distribuído para convidar a uma maior conscientização do que aconteceu até agora. Dentre outras coisas, também é possível assinar o abaixo-assinado individualmente ou como comunidades inteiras.

Alegre-se pela criação, ouça a Palavra de Deus, busque a justiça, assuma as suas responsabilidades: esses são apenas alguns dos slogans que ajudam a uma reflexão que deve continuar em encontros, conferências, momentos de oração propostos e orientados para todas as idades.

Tudo isso pode contribuir para uma conversão com relação ao uso que fazemos do ambiente que nos foi dado como dom, e a Quaresma também se presta bem a isso. É uma questão de estabelecer prioridades e escolhas, é questão de justiça, é um apelo moral, declaram os promotores, como Bento XVI já disse na Caritas in veritate ou na Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010: "Podemos ficar indiferentes perante as problemáticas que derivam de fenômenos como as alterações climáticas, a desertificação, o deterioramento e a perda de produtividade de vastas áreas agrícolas, a poluição dos rios e dos lençóis d'água, a perda da biodiversidade, o aumento de calamidades naturais, o desflorestamento das áreas equatoriais e tropicais?".

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