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15 Fevereiro 2012

Não devemos reduzir o comportamento moral humano em programas emotivos naturais. A natureza é negligente, pouco escrupulosa e moralmente indiferente. Imitar a natureza não é o modo para criar a moralidade.

A opinião é do neurologista português Antônio Damásio, professor de neurociência na University of Southern California, nos Estados Unidos. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 26-01-2012.

Eis o texto.

Qual é a origem da moralidade humana? As regras e as convenções morais são construídas a partir de um modo de raciocínio consciente ou nascem de processos inconscientes? Cada vez mais há provas de que os comportamentos morais têm origem em processos inconscientes, presentes nos seres humanos e em outras espécies, como os mamíferos cujo cérebro tem muito em comum com o cérebro humano. Mas isso não é tudo. Para a moralidade humana, há algo mais do que as diretrizes biológicas inconscientes.

Para explicar o que quero dizer, começo com o exemplo das ratazanas do prado, uma espécie de roedor em que o acoplamento provoca a liberação da oxitocina neuropeptídia nas partes do cérebro ligadas às emoções. Isso ocorre tanto no cérebro dos machos quanto no das fêmeas. A liberação de oxitocina tem como resultado uma união monogâmica entre macho e fêmea, um vínculo estreito e um apego da mãe aos seus filhotes, e um envolvimento do macho no cuidado da prole. A supressão do gene responsável pela produção de oxitocina evita totalmente esses comportamentos.

O apego e a preocupação pelos outros, evidenciados por esses animais, não são exatamente como ações morais que os seres humanos realizam em circunstâncias semelhantes, mas a semelhança é significativa. O fato de que tais comportamentos perfeitamente visados existam nos animais indica que os comportamentos humanos que intervêm em circunstâncias comparáveis não foram inventadas pela razão humana. Os comportamentos humanos comparáveis são variações de precedentes biológicos que surgiram na evolução biológica, sem o auxílio da razão.

Inúmeras emoções humanas, especialmente aquelas que comumente são definidas como sociais, tais como a compaixão, a admiração, a vergonha, a culpa, o desprezo, o orgulho e a gratidão, incorporam valores morais. A admiração, por exemplo, consiste em comportamentos específicos voltados para os outros, que dão uma recompensa para ações que outros fizeram. Isso implica um juízo moral positivo. O fato de mostrar vergonha ou culpa implica juízos relativos a si mesmos, juntamente com ações e pensamentos autopunitivos.

Mas muito frequentemente as emoções intervêm antes que tenha sido formulado um juízo consciente. A neurociência demonstra que os mecanismos para a execução e a prática dessas emoções utilizam estruturas do cérebro envolvidas no modo de regular a vida. Juntamente com o fato de que, nos animais, há precursores dessas emoções, isso sugere uma origem evolutiva anterior para esses processos cerebrais. Essas emoções foram selecionadas na evolução porque contribuíam para melhorar a gestão da vida, resolvendo os problemas sociais. Essas emoções prevaleceram porque aumentavam as possibilidades de sobrevivência antes que o raciocínio consciente aparecesse pela primeira vez. Em síntese, as ações com "conteúdo moral" não foram inventadas pela razão.

Por outro lado, as regras e convenções propriamente ditas são criações humanas. Elas têm origem no fato de aceitar como vantajosas intuições e crenças anteriores derivadas de emoções sociais e de transformar tal aceitação em regras explícitas. Ou no fato de rejeitar como erradas algumas dessas intuições e crenças e transformar essa rejeição em uma regra explícita. Em outras palavras, não devemos reduzir o comportamento moral humano em programas emotivos naturais. A natureza é negligente, pouco escrupulosa e moralmente indiferente. Imitar a natureza não é o modo para criar a moralidade.

Porém, os comportamentos emotivos que favoreceram a nos em organismos mais simples durante a evolução geraram alguns comportamentos válidos que foram incorporados com grande vantagem no comportamento moral humano. O altruísmo é um bom exemplo.

A criatividade e a razão estenderam as "descobertas" da natureza e o porte das regras biológicas à  esfera social humana. Ao longo do percurso, inventaram a homeostase sociocultural. A homeostase de base do corpo humano (isto é, a tendência a se chegar a uma relativa estabilidade interna das propriedades de um organismo vivo) é automática e inconsciente, para garantir a nossa sobrevivência. A homeostase sociocultural, no entanto, é deliberada e consciente. A moralidade é a principal consequência da homeostase sociocultural.

A ironia, naturalmente, é que um comportamento moral deliberado e consciente pode ser aperfeiçoado ao ponto de se tornar uma "habilidade automática" para os problemas morais que se encontram mais frequentemente. Com a prática, se alcança a perfeição, e, nas situações cotidianas, a realização de ações morais se torna, mais uma vez, menos dependente de um raciocínio consciente, semelhante às boas emoções sociais que, no início, guiaram o comportamento humano. Mas, quando os seres humanos se confrontam com problemas novos, então, mais uma vez, a razão consciente e a criatividade lhe ajudarão a tratar a situação de um modo verdadeiramente moral.

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