''Não acredito que sobrevivamos mil anos sem deixar o planeta''. O discurso de Hawking

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17 Janeiro 2012

A Universidade de Cambridge (Reino Unido) realizou um simpósio em honra do físico do tempo e do espaço, que completa 70 anos, mas a doença o impediu de estar presente na homenagem. Hawking gravou um discurso em que repassa o seu fascínio pela ciência.

O discurso foi publicado no jornal El País, 15-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Agora que cumpri três vintenas mais 10, espero que me perdoem por pensar em minha vida passada e no modo como a nossa compreensão do estado do Universo mudou. Também tentarei olhar para o futuro, para além do horizonte atual. (...)

Em 1950, o local de trabalho do meu pai passou a estar no extremo norte de Londres, por isso minha família se mudou para perto dali, na cidade catedralesca de St. Albans. Meus pais compraram uma grande casa vitoriana com algo de caráter, mas St. Albans mostrou ser um lugar bastante chato e conservador comparado com Highgate.

Em Highgate, a nossa família parecia bastante normal, mas em St. Albans acredito que certamente nos consideravam como excêntricos. Meu pai pensava que não podíamos nos permitir comprar um carro novo, de modo que comprou um táxi de Londres de antes da guerra e, entre nós dois, construímos um galpão que servia de garagem. Os vizinhos ficaram indignados, mas não podiam nos deter. Assim como a maioria das crianças, eu me sentia envergonhado pelos meus pais. Mas eles nunca se preocuparam. Penso que aprendi alguma coisa com eles, porque, nestas épocas posteriores da minha vida, muitas vezes propus ideias que indignaram meus companheiros.

Quando inicialmente nos mudamos para St. Albans, enviaram-me para a Escola Superior Feminina, que, apesar de seu nome, aceitava meninos até os 10 anos de idade, mas mais tarde fui para a Escola St. Albans. Eu nunca estive muito acima da média da classe (era uma classe muito inteligente). Minha caligrafia era o desespero dos meus professores. Mas meus colegas me deram o apelido de Einstein, então eu suponho que viram indícios de algo melhor. Quando eu tinha 12 anos, um de meus amigos apostou com outro um saco de balas de que eu nunca chegaria a nada. Não sei se essa aposta chegou a ser paga e, nesse caso, em que sentido se decidiu. (...)

Em outubro de 1962, quando cheguei a Cambridge, o DAMTP, o departamento de matemática aplicada e física teórica, eu tinha 20 anos. Tinha solicitado para trabalhar com Fred Hoyle, o astrônomo britânico mais famoso da época. Digo astrônomo porque a apenas cosmologia era reconhecida então como uma disciplina legítima. No entanto, Hoyle já tinha alunos suficientes, por isso, tive uma grande decepção quando me designaram para Dennis Sciama, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Mas menos mal que não estudei com Hoyle, porque teria sido arrastado para defender a sua teoria do estado estacionário, uma tarefa que teria sido mais difícil do que salvar o euro. (...)

Não muito tempo atrás, escrevi um novo livro, The Grand Design, com Leonard Mlodninov, para tentar abordar alguns problemas que ficaram sem solução em Breve História do Tempo. Vemos que as leis da ciência descrevem como o Universo se comporta, mas, para compreender o Universo do modo mais profundo, também temos que compreender o porquê.

Por que existe algo em vez de nada?

Por que existimos?

Por que este conjunto concreto de leis e não algum outro?

Acredito que a resposta a todas essas perguntas é a Teoria das Cordas. A Teoria das Cordas é a única teoria unificada que tem todas as propriedades que pensamos que a teoria final deveria ter. Não é uma teoria no sentido habitual da expressão, mas sim toda uma família de teorias diferentes, cada uma das quais é uma boa descrição das observações só em certo grau das situações físicas.

A Teoria das Cordas prevê que uma grande quantidade de universos se criaram a partir do nada. Esses universos múltiplos podem surgir naturalmente das leis físicas. Cada universo tem muitas histórias possíveis e muitos estados possíveis em épocas posteriores, isto é, em tempos como a atual, muito depois da sua criação. A maioria desses estados será muito diferente do Universo que observamos e muito pouco idôneos para a existência de qualquer forma vida. Só alguns poucos permitiriam que existissem criaturas como nós. Portanto, a nossa presença seleciona, desse imenso conjunto, unicamente aqueles universos que sejam compatíveis com a nossa existência. Embora sejamos raquíticos e insignificantes na escala do cosmos, isso nos converte, em certo sentido, em senhores da criação.

Continua havendo esperanças de que vejamos a primeira prova da Teoria das Cordas no LHC, o acelerador de partículas situado em Genebra. Do ponto de vista da Teoria das Cordas, ele só estuda as energias baixas, mas poderíamos ter sorte e ver um sinal mais fraco da teoria fundamentais, como a supersimetria. Penso que a descoberta de companheiras supersimétricas das partículas conhecidas revolucionaria a nossa compreensão do Universo. Não sinto o mesmo com relação ao bóson de Higgs, razão pela qual aposto 100 dólares que não o encontrarão no LHC. A física seria muito mais interessante se não o encontrassem, mas agora dá a impressão de que eu poderia perder outra aposta. (...)

Os avanços mais recentes na cosmologia foram obtidos a partir do espaço, onde há visões ininterruptas do nosso imenso e belo Universo. Mas também devemos continuar indo ao espaço pelo futuro da humanidade. Não acredito que sobreviveremos outros mil anos sem escapar do nosso frágil planeta. Portanto, quero fomentar o interesse público pelo espaço, e eu mesmo estive treinado com antecedência.

Por isso, permitam-me terminar com uma reflexão sobre o estado do Universo. Foi uma época gloriosa para se viver e se pesquisar em física teórica. A nossa imagem do Universo mudou muito nos últimos 40 anos, e me sinto feliz se contribuí com meu grãozinho de areia. O fato de que nós, humanos, tenhamos sido capazes de nos aproximar tanto da compreensão das leis que governam a nós mesmos e ao nosso Universo é um grande triunfo. Quero compartilhar a minha emoção e entusiasmo por essa busca. Por isso, lembrem-se de olhar para as estrelas e não para os seus pés. Tentem encontrar um sentido para o que veem e perguntem-se por aquilo que faz com que o Universo exista. Sejam curiosos. E, por mais difícil que a vida possa lhes parecer, sempre há algo que vocês podem fazer e em que podem ter êxito. O importante é que vocês não se rendam.

Obrigado por me escutar.

* * *

Hawking, um dos físicos mais conhecidos do público atual

Com a possível exceção de Einstein, Stephen Hawking (Oxford, Reino Unido, 1942) provavelmente é o físico mais conhecido do público moderno e, portanto, da não muito longa da ciência. Sua fama se deve em parte à esclerose lateral amiotrófica (ELA) que envolveu o seu corpo em uma prisão de imobilidade há 45 anos, um período incomum que assombra os médicos.

Mas também é verdade que Hawking, uma das melhores mentes da física teórica do século XX, explorou a fundo essa popularidade para servir de orador à comunidade científica, embora seja através de um sintetizador de voz que ele maneja penosamente com o último fio de movimento que sobrevive em um dedo de sua mão direita.

A grande conquista de Hawking foi a descoberta de formas de combinar a cosmologia, baseada na teoria da relatividade de Einstein, com a mecânica quântica que governa o mundo subatômico. Essas duas teorias são a base de toda a física atual, e cada uma delas superou até agora as provas experimentais mais exigentes. Elas também são o fundamento da tecnologia contemporânea, dos computadores ao GPS. E, no entanto, são incompatíveis entre si.

As elegantes equações que descrevem o tempo, o espaço, a gravidade e a forma do cosmos desmoronam quando se tenta aplicá-las à escala dos átomos, onde o espaço e o tempo deixam de ser contínuos e começa a imperar o entorno discreto e probabilístico do mundo quântico.

Hawking percebeu que os buracos negros podiam constituir um laboratório mental para combinar essas duas grandes teorias: sua enorme massa os força a obedecer as leis da cosmologia, mas seu ínfimo tamanho os converte, por sua vez, em objetos quânticos. Um mundo de paradoxos em que sua mente aprendeu a se mover como um peixe na água: a se mover como não pode fazer com seus músculos no mundo real.

Além disso, Hawking é um cientista muito normal, que supervisiona um grupo de estudantes de doutorado, participa de seminários em seu departamento na Universidade de Cambridge e dedica boa parte do seu tempo para ler os últimos papers, ou artigos científicos.

O físico é um dos raros cientistas que acredita na necessidade de transmitir ao público a ciência do seu tempo. Ele recebeu o Prêmio Príncipe de Astúrias em 1989 e discursa muitas vezes em reuniões e atos públicos. Seu livro de 1988, Uma Breve História do Tempo foi comprado por um em cada 750 habitantes do planeta, segundo seus próprios cálculos, e foi apenas o primeiro de uma longa lista de sucessos editoriais. Ele continua na ativa, ainda aspirando a entender tudo.

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