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07 Janeiro 2012

Uma das teses de Freud é que cada um viva a realidade através dos óculos especiais do seu fantasia inconsciente que a colore "surrealisticamente".

A análise é do psicanalista lacaniano italiano Massimo Recalcati, diretor científico do Instituto de Pesquisa de Psicanálise Aplicada da Itália, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 04-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Quando os psicanalistas discutem acaloradamente entre si tendem a fazer isso a golpes de diagnóstico. O adversário não é apenas contestado teoricamente, mas é sobretudo psiquiatrizado como se fosse um paciente. Nos debates filosóficos, discute-se a golpes de "teses". O último caso é o da crítica do "novo realismo" contra o "pensamento fraco". A culpa do pensamento fraco como subproduto da hermenêutica seria a de remover o peso objetivo da realidade externa, de introduzir no lugar desse peso o caráter aleatório das interpretações que acaba fazendo evaporar a própria noção de realidade. Até identificar nessa perda da referência estável à Realidade a justificação ontológica dos sofismas interpretativos de todos os tipos.

Em um brilhante livro intitulado Inattualità del pensiero debole (Ed. Forum, Udine) Pier Aldo Rovatti, que compartilha com Gianni Vattimo a paternidade do pensamento fraco além da organização do livro que, em 1983, marcou o seu nascimento, toma posição decidida em defesa da sua criação. Duas são os seus argumentos principais. O primeiro: ninguém jamais sonhou em contestar que, se chove, chove – esse era um dos argumentos "fortes" contra os fraquistas [ou debolistas] –, mas ninguém pode negar que a) não existe um fato em si que não seja tomado em uma rede estratificada de significações ( a chuva pode ser bem-vinda ou maldita, pode resultar em avaliações meteorológicas ou a poesias etc.) e, sobretudo, que b) o fato em si da chuva abre inevitavelmente à "vivência" singular de quem a vive, e essa vivência, que também é um fato, jamais é tão simples quanto um fato! Contudo, a referência de Rovatti a essa dimensão não anima um irracionalismo, mas atua como contrapeso crítico contra aqueles saberes fortes que gostaria de prescindir da dimensão afetiva e interpretativa do sujeito e que invocam a Verdade, a Vida, a Realidade, a História e o próprio Sujeito como absolutos dogmáticos.

Pergunto-me, de passagem, quanto a psicanálise poderia contribuir com esse debate sobre a existência nua e crua da realidade oposta à natureza artificial das interpretações. Um sapato é um sapato, é um fato, mas para alguns – por exemplo, para um fetichista – jamais é apenas um sapato, mas se torna um ídolo, um talismã, a própria condição que torna possível o desejo erótico. E não se trata, de fato, como seria tolo acreditar, de situações patológicas. Ao contrário, a psicanálise não nos obriga, talvez, a conjugar o tema da existência da realidade externa com o tema, muito rico, de implicações éticas, da chamada Normalidade?

Uma das maiores teses de Freud é que cada um vive a chamada realidade através dos óculos especiais do seu fantasma inconsciente que a colore "surrealisticamente", ou seja, sem nenhuma preocupação realista. Mas quando Rovatti evoca a complexidade estratificada da vivência, ele não tem em mente principalmente a psicanálise, mas sim uma noção de "experiência" que ele herda de Husserl através da mediação do seu mestre Enzo Paci.

O segundo argumento em defesa do pensamento fraco proposto por Rovatti diz respeito à importância que, desde a sua origem, os fraquistas têm dado ao cruzamento entre realidade e dispositivos de poder. "O apelo à Verdade e à Realidade" – escreve Rovatti – "é um apelo abstrato" se não se leva em conta a incidência dos dispositivos de poder. O desafio filosófico do pensamento fraco é com relação ao dogmatismo conceitual que acompanha todo pensamento do absoluto.

Por isso, Enzo Paci identificava a luta contra a barbárie na luta da razão filosófica contra todo pensamento que excluía a singularidade crítica. Até em nome da realidade – uma certa psicanálise nada mais fez do que celebrar o culto do "princípio de realidade" e gerou monstros muitas vezes – podem ser invocados os fantasmas do conformismo e os do sacrifício e do terror. A referência a Foucault é crucial, nesse ponto, porque leva a questão ontológica da verdade à do poder, pensando a própria história – como nos lembra Rovatti – como um "jogo da verdade", através dos dispositivos organizados pelo poder.

Todo o interesse que, na última década, Rovatti manifestou pela obra de Franco Basaglia e a dimensão da multidão também se movem justamente nessa direção: a loucura não é um fato nu e cru, nunca é uma evidência objetiva – não é uma doença do cérebro –, mas é o resultado de práticas violentas de exclusão, de uma estigmatização que é sobretudo histórica e social.

Esse livro testemunha como o pensamento fraco, longe de ser um capítulo menor da história mais recente da hermenêutica ou do pós-modernismo, é acima de tudo uma lição de método: a luta contra a barbárie é sobretudo luta contra a violência intrínseca às fixações objetivistas da Verdade (e da Normalidade).

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