''Diante da mudança da Igreja, a nova liturgia é realmente 'tanto faz'''

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07 Janeiro 2012

Estivemos visitando a família durante as festas e participamos da missa em uma paróquia onde não havia evidências da atual disputa em torno da nova liturgia [em inglês]. Em um momento, durante uma tentativa de seguir à risca aquela construção desnecessariamente complicada de "Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada" [na versão anterior, os fiéis respondiam: "Senhor, eu não sou digno de vos receber"], alguém próximo a mim ficou com a língua presa e terminou com um "tanto faz". Eu dei uma risada. Foi bom rir disso.

A reportagem é de Tom Roberts, publicada no sítio National Catholic Reporter, 28-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Aqueles de nós que, por força das circunstâncias (escritores de religião, por exemplo, ou liturgistas profissionais), conhecem a história de fundo das mudanças são mais propensos a não se arrepiar com a apresentação melosa das razões para as mudanças. A realidade, claro, é que as mudanças tiveram muito a ver com o poder e a manutenção do controle, revertendo a linguagem que veio para refletir as mudanças na teologia e a disposição da comunidade que ocorreu como resultado do Concílio Vaticano dos anos 1960. Sim, sim, foi para restaurar algo da majestade e da reverência, algo da precisão do latim sobre o qual as orações estão baseadas, para restaurar novamente o sentido de mistério e para restabelecer a distância entre sacerdote e povo.

Mas quem conhece a história em seus plenos detalhes sabe que a "nova" tradução, uma reforma da reforma, foi na verdade comandada por um grupo de homens que se reuniram secretamente e, em questão de dias, desfizeram um processo que ocorreu sob dois papas e com a ampla participação de bispos e de profissionais do mundo de fala inglesa.

Mesmo depois da emboscada inicial da tradução e da reconstrução das agências responsáveis pela tradução, as manipulações secretas continuaram. É por isso que até mesmo alguns que estavam a bordo da reforma da reforma se distanciaram, se irritaram com o processo – ou, melhor, com a falta dele. Alguns de nós têm muito mais informações do que a maioria que está nos bancos da igreja, que não dedicam o mesmo tempo ou inclinação. E, eu digo, que bom para eles.

Assim, eu sou um daqueles que simplesmente tem que superar isso por enquanto. No primeiro domingo em que eu participei de uma missa em que a nova linguagem foi usada, eu decidi adotar uma estratégia gandhiana perante as armadilhas eclesiásticas. Decidi que eu poderia absorver a tolice, sabendo que ela realmente não alterava muito. "Tanto faz" retrata bem isso.

Na manhã de Natal, outro ponto relacionado veio à tona, um ponto que me fascinou e que sustentava grande parte do que eu aprendi ao escrever o livro The Emerging Catholic Church: A Community's Search for Itself. A simples realidade é que a Igreja mudou dramaticamente no último meio século e não mostra nenhum sinal de desaceleração na curva de mudança. A comunidade católica está vivendo um estado de vicissitudes. Você pode aplicar toda a velha linguagem que você quiser, você pode colocar barreiras no altar, e se opor a meninas coroinhas e insistir que novas linhas devem ser desenhadas entre o povo e os sacerdotes, com a sua distinção ontológica. Mas tudo isso não vai mudar os fatos no campo em que, apesar de todas as linhas desenhadas e da determinação de quem está dentro e quem está fora, continuamos correndo na intersecção em que a necessidade se encontra com a teologia. E, tudo somado, estamos chocados com como as coisas ficaram diferentes.

Antes da missa começar na manhã de Natal, o padre, neste momento completamente vestido, foi para a frente da igreja, pegou o microfone e anunciou que, sem nenhuma explicação, nenhum dos ministros da Eucaristia que deveriam estar presentes apareceu.

Então, ele precisava de voluntários. Seis deles. Sim, ele apontou, você, você e você, e assim por diante. E rapidamente conseguiu os seis. "E nós vamos resolver a questão do vinho e do pão", disse ele.

Quando cheguei em casa, busquei a antiga "oração para uma digna comunhão" no meu meu antigo Missal Diário São José que está na minha estante, um remanescente, com as suas fitas gastas, tão inutilizado quanto uma antiquada máquina de escrever Remington que um amigo deu anos atrás. Lá, eu encontrei a frase como eu a havia conhecido quando criança: Lord, I am not worthy that Thou shouldst come under my roof [versão ainda mais rebuscada da resposta "Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada"].

E isso me trouxe de volta vívidas memórias desse tempo de certeza e clareza. Quando a casa paroquial estava cheia de padres e o convento estava cheio de freiras com quem eu me encontraria ocasionalmente no meu caminho para a missa das 6h30. Elas cruzavam a rua com véus na frente de seus rostos, duas a duas, fantasmas em movimento como aquelas dançarinas russas de vestidos longos que parecem voar sobre sobre uma almofada de ar.

Havia, na verdade, mistério, separação entre o ordenado e todos os outros mortais, regras para tudo, respostas para tudo. Aprendemos desde então que havia uma corrupção considerável também e aprendemos que a fé baseada na certeza não é fé, afinal de contas. Nem eu nem qualquer um dos padres que eu conhecia na época poderiam imaginar que, um dia, um celebrante se levantaria perante a congregação na manhã de Natal e buscaria voluntários para ajudar a distribuir a Comunhão.

Estamos vivendo nessa tensão entre o anseio pelas velhas certezas – as velhas orações que "funcionavam" em um tempo menos complicado, as linhas claras que todos entendiam – e a realidade de que os padres hoje precisam fazer algo tão informal e sem decoro nem majestade como pedir voluntários para ajudar em um dos momentos mais sagrados da nossa liturgia.

A admissão tácita (e eu devo notar aqui que o padre, neste caso, parecia não ter nenhum problema em lidar com a informalidade. De fato, ele parecia gostar dela) é que os padres não podem mais fazer isso sozinhos. O momento para mim foi simbólico do caos às vezes sagrado evidente na vida católica contemporânea e da abordagem – "Você pode me ajudar?" – que funciona melhor onde há um sentido de propriedade, de genuína comunidade, de um povo educado para essas tarefas.

Com relação a essa linguagem, isso sugeriria algo diferente? Tanto faz.

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