Lidando com a nova tradução da Missa

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04 Janeiro 2012

Na verdade, os defensores da "reforma da reforma" venceram apenas uma vitória parcial com essa nova tradução. Mas a missa ainda está na língua vernácula; o altar ainda está virado; a grande maioria das pessoas recebem a Comunhão na mão; e possivelmente há mais meninas coroinhas no santuário do que meninos.

A opinião é de Richard McBrien, sacerdote norte-americano e professor da cátedra Crowley-O'Brien de Teologia da Universidade de Notre Dame. O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 26-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Costumava haver uma piada antilitúrgica circulando que dizia que a única diferença entre um terrorista e um liturgista é que você pode negociar com o primeiro.

Da mesma forma, há uma impressão seriamente equivocada por aí afora de que a nova tradução do missal foi inspirada e promovida por liturgistas. Nada poderia estar mais longe da verdade.

A grande maioria dos estudiosos litúrgicos se opuseram às novas e literais traduções. Aqueles que favoreceram as mudanças eram adeptos da chamada "reforma da reforma".

Em outras palavras, as mudanças foram inspiradas e promovidas não por liturgistas, mas por tradicionalistas da hierarquia e por uma minoria de ultraconservadores dentro da Igreja Católica em geral.

Tais católicos nunca foram favoráveis às reformas litúrgicas iniciadas pelo Concílio Vaticano II: virar o altar de modo que o padre se volte para a congregação durante a missa, receber a Sagrada Comunhão na mão, celebrar a missa em língua vernácula, ter meninas coroinhas assim como meninos coroinhas, e assim por diante.

No máximo, eles assistiam missas em latim onde quer que elas estivessem disponíveis. Seus celebrantes continuaram usando as chamadas casulas e barretes romanos. Um Rip Van Winkle [1] católico, despertando de um longo sono que começou em algum momento da década de 1950, perceberia que nada havia mudado nesse meio tempo.

Na verdade, os defensores da "reforma da reforma" venceram apenas uma vitória parcial com essa nova tradução (por exemplo, "I believe..." ["Eu creio"] em vez do mais comunitário "We believe..." ["Nós cremos"] no Credo). Mas a missa ainda está na língua vernácula; o altar ainda está virado; a grande maioria das pessoas recebem a Comunhão na mão; e possivelmente há mais meninas coroinhas no santuário do que meninos.

Tais mudanças como essas são um anátema aos católicos tradicionalistas, que continuam recebendo a Comunhão sobre a língua (como é seu direito), rangendo os dentes quando veem meninas servindo a missa e assistindo a uma missa em latim de tempos em tempos.

Mas eles estão felizes, apesar de ver muitos de seus companheiros católicos incomodados por causa da nova tradução da missa. Eles sabem que isso irrita católicos para os quais o Papa João XXIII é um herói e o Vaticano II foi um grande evento.

Eu ouvi católicos dizerem que seus párocos, embora não conservadores, elogiaram as novas traduções. Ou os seus párocos não estão sendo honestos porque não querem ser denunciados ao seu bispo ou, bem no fundo, são de direita em seu modo de pensar.

Um pároco aposentado disse que preparou a sua congregação na semana antes que as mudanças ficassem efetivas fazendo com que as pessoas praticassem a simples resposta: "And with your spirit" ["E com o teu espírito". A versão antiga dizia: "And also with you" – "E contigo também". A versão brasileira diz: "Ele está no meio de nós"]. Mas ele disse à guisa de introdução que o "quê" das mudanças eles poderiam aguentar; mas o "porquê" ele deixaria para o Espírito Santo.

Eu suspeito que muitos padres mais velhos tiveram a mesma reação. Apenas alguns dos padres conservadores mais jovens (ou nem tão jovens), ordenados durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI, seriam mais provavelmente a favor das mudanças do que opostos a elas.

Mas que bem viria da oposição aberta? Um padre muito respeitado de Seattle liderou um movimento recentemente para fazer com que os bispos dos EUA desacelerassem o processo até que todos os nós pudessem ser trabalhados, mas esse movimento, embora tenha conquistado milhares de adeptos, malogrou e no fim morreu.

O Vaticano já estava decidido, e a hierarquia amplamente conservadora dos EUA não se oporia ao Vaticano, mesmo se estivesse disposta a fazê-lo.

Alguns católicos podem continuar dizendo "And also with you" em vez de "And with your spirit", ou "We believe..." em vez de "I believe..." no Credo, ou "One in being with the Father" [um em ser com o Pai] em vez do altamente técnico e indecifrável "consubstancial", também no Credo.

Os presidentes das missas terão um tempo mais difícil, porque houve muitas mudanças trava-línguas nos textos das Orações Eucarísticas.

Aqueles padres que recitam essas orações há muitos anos inevitavelmente irão tropeçar na nova redação, e aqueles padres cuja visão lhes abandonou e que memorizaram partes imutáveis da missa continuarão recitando as palavras com as quais se familiarizaram há muito tempo. Pelo menos, seria isso o que eu lhes aconselharia se fossem tolos o suficiente para perguntar.

Esta coluna voltará a esse assunto inúmeras vezes no futuro, porque ele afeta a todos nós. Enquanto isso, eu gostaria de dissipar alguns dos mal-entendidos mais comuns sobre as novas traduções e a sua origem.

Notas:

1 - Rip van Winkle
é o nome de uma narrativa curta de um personagem homônimo, escrita por Washington Irving e publicada em 1819. Um homem, fugindo de sua esposa má, corre para a floresta. Depois de muitas aventuras, ele se põe a descansar embaixo de uma árvore e ali adormece. Vinte anos depois, ele acorda e decide regressar à sua vila. Ao chegar lá, ovaciona o rei, não sabendo, no entanto, que havia ocorrido uma revolução e que já não era preciso saudar a monarquia. Por isso, Rip van Winkle também é associado às pessoas que não percebem que certas coisas mudaram com o passar do tempo.

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