''As formas históricas do catolicismo evoluem''. Entrevista com Gilles Routhier

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Papa Francisco nomeia novo secretário: um padre que trabalha com crianças de rua e viciados em drogas

    LER MAIS
  • O crime da Vale em Brumadinho: metáfora de um sistema minerário predatório

    LER MAIS
  • O papa aprova como vice Decano o argentino Sandri que se calou sobre os crimes do padre Maciel, estuprador de 60 crianças

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

29 Outubro 2012

Para o teólogo do Quebec Gilles Routhier, o debate imposto pelos integralistas esconde o que está verdadeiramente em jogo na recepção do Concílio, perfeitamente percebido por Bento XVI: pensar a reforma no quadro do catolicismo.

A reportagem é de Philippe Clanché, publicada na revista Témoignage Chrétien, 13-10-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O padre Gilles Routhier é um dos melhores especialistas francófonos na recepção e na hermenêutica do Vaticano II. Estudou em Paris (no Institut Catholique e na Sorbonne), é professor na Faculdade de Teologia e de Ciências Religiosas da Universidade de Laval, no Quebec, onde ensina eclesiologia, missiologia e catequese. Publicou, dentre outros, em 2007, 40 ans après Vatican II: Espérer (Montreal, Novalis); em 2008, Penser l'avenir de l'Église (Montréal, Fides); e coeditou em 2010, com Guy Jobin, L'Autorité et les autorités. L'herméneutique théologique de Vatican II (Cerf).

Eis a entrevista.

A partir do discurso de Bento XVI em dezembro de 2005, a leitura do Concílio – a sua "hermenêutica" – tornou-se um tema importante do debate teológico. Por que hoje?


Todos os papas tiveram que interpretar o Concílio para implementá-lo. Mas é a primeira vez que isso é feito de maneira tão precisa e formal. Esse debate está ligado à polêmica com os lefebvrianos. Estes mudaram de linha com relação ao evento conciliar. Em um primeiro momento, defendiam uma leitura de descontinuidade com o Magistério da Igreja, uma ruptura com relação à tradição. Para eles, com o Vaticano II, nascera outra Igreja, "modernista", "reformada". Depois de 1978, Lefebvre diz estar pronto para aceitar o Concílio, contanto que ele seja interpretado à luz da Tradição anterior. O que significava que cabia ao ensino dos papas do século XIX interpretar o ensino do Concílio, e não o inverso.

O que significa o conceito de "reforma na continuidade" defendido pelo papa?

É bastante sutil e muitas vezes uma primeira leitura não é suficiente. O papa coloca em primeiro plano a continuidade do sujeito-Igreja, embora admitindo a renovação das formas históricas que o ensino da Igreja pode ter. Ele pede que os integralistas não vejam acima de tudo a descontinuidade do ensino, mas sim a continuidade do princípio que fundamenta ensinamentos aparentemente diferentes. O mesmo sujeito-Igreja subsiste antes e depois do Concílio, mas as formas históricas do catolicismo, ligadas a contextos históricos determinados, evoluem e se modificam.

Para Bento XVI, o Concílio propõe ensinamentos novos?

É o objeto da segunda parte do seu texto. Para ele, o Concílio, que tinha como tarefa central redefinir uma nova relação entre a Igreja Católica e o mundo moderno, permitirá um desenvolvimento do ensino da Igreja em três âmbitos: o diálogo com as outras religiões (Nostra Aetate), a relação da Igreja com o mundo (Gaudium et Spes) e o problema da liberdade religiosa (Dignitatis Humanae). Trata-se precisamente dos temas mais delicados para os integralistas. O papa quer ajudá-los a compreender que esses ensinamentos, que aparentemente apresentam uma descontinuidade com o dos papas do século XIX, mantêm a continuidade do princípio, apresentado sob formas diferentes. Quando o contexto histórico muda, o ensinamento que dele dependia deve se renovar, conservando a pedra angular sobre a qual se baseava.

O senhor fala de novos ensinamentos do Concílio. Por que, então, continua o debate sobre o seu caráter pastoral ou teológico?

Devemos distinguir dogmas, doutrina e teologia. O Vaticano II não definiu novos dogmas (1). Dito isso, ele realmente apresenta um corpus doutrinal importante, pois a doutrina não é composta apenas de dogmas. Em sentido amplo, o Vaticano II desenvolveu uma obra doutrinal que permite um aprofundamento e um desenvolvimento da doutrina da Igreja Católica. João XXIII não opõe doutrina e pastoral. Ao invés, ele defende que a tarefa do Concílio não é repetir a doutrina de maneira mais ampla, mas sim apresentá-la de uma forma mais adequada à nossa época e dar-lhe uma apresentação pastoral.

Se não é possível pôr em causa o Concílio, como se pode explicar que o cardeal Brandmüller (2) possa afirmar que a Nostra Aetate não tem caráter doutrinal?

Essa declaração, sem dúvida, é apenas o reflexo de uma opinião pessoal. Dito isso, essa linha não é frequente por parte de um cardeal e é absolutamente surpreendente. Além disso, o tiro foi corrigido pelo cardeal Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.

O discurso de 2005 pôde permitir diferenças de posição dessa natureza?

Alguns se aproveitaram dele para ousar mais na denúncia do Concílio e prosseguir uma obra de sabotagem. Trata-se de uma instrumentalização do discurso de Bento XVI em certos ambientes, mas não se pode basear nas expressões exatas do papa. Esse desejo já existia na alma de muitos e não somente em Écône, entre os discípulos de Dom Lefebvre. Se não é possível discutir o Concílio, no entanto, é aceita uma livre pesquisa sobre certas coisas. Pode-se deplorar o fato de que todo o debate atual sobre a interpretação do Concílio é de algum modo dependente das negociações com a Fraternidade São Pio X. Dá-se muita importância a esse grupo. Ele pesa muito hoje sobre a evolução da Igreja Católica.

Bento XVI usa o termo reforma. O que é uma reforma hoje no mundo católico e o que ela permitiria?

Em "Verdadeiras e falsas reformas na Igreja" (1950), o padre Congar escrevia que certas reformas não são orgânicas porque não representam um verdadeiro desenvolvimento do princípio católico. Na sua opinião, e naquele momento (porque depois ele expressou diferentemente os seus pensamentos sobre isso), a reforma luterana não tivera pleno sucesso porque havia levado a uma ruptura, ao invés de um desenvolvimento orgânico do princípio católico. Ao contrário, o Vaticano II seria uma reforma na continuidade. Hoje, deparamo-nos com uma continuidade e descontinuidade que são apenas características da reforma, enquanto o termo reforma, que é o termo mais importante, praticamente desapareceu. E, ao contrário, é a reforma que é preciso ser abordada, não a repetição, a estagnação, a inércia. E devemos concebê-la na continuidade.

Há teólogos que trabalham sobre essa temática?

Muito poucos, e eu não gosto disso. Mas é um dos desafios lançados pelo discurso de Bento XVI: definir e pensar a hermenêutica da reforma. No Peter and Paul Seminar (3), tentamos fazer esse trabalho. Confrontamo-nos com grupos que não querem nem ouvir falar disso e pensam a continuidade como repetição. Para eles, nada deve se mover.

"Os frutos do Vaticano II ainda estão por vir", "o tempo da Igreja é um tempo longo", "a recepção leva tempo". Essas afirmações são sustentáveis na nossa época de circulação das informações em tempo real?

Não devemos nos servir dessas frases para justificar a ausência de reforma e exortar à paciência. Apesar da aceleração da história, esses argumentos, porém, trazem consigo uma parte de verdade. As mentalidades não mudam por decreto, mas precisam de tempo, de duração e de gerações. Devemos distinguir as mudanças de instituições, de prática, e as de mentalidades. Cinquenta anos depois do Concílio, não podemos esperar que as mentalidades sejam mudadas radicalmente.

Sem os anos 1960, marcados pela contestação de todas as instituições, a dinâmica conciliar poderia ter continuado e ido além nas reformas?

Retomemos a cronologia da aventura integralista. Saindo do Concílio, Lefebvre tentou prosseguir a sua oposição, lançando duas revistas que não tiveram sucesso. Os seus grupos foram marginalizados. A partir de 1969 e após a publicação do novo Ordo Missae, a oposição ao Concílio começou a se espalhar. Essa resistência, em parte, é filha do medo, da perda. Em 1968, foi promulgado o novo missal, e foi publicada a encíclica Humanae Vitae [que reafirma a proibição da contracepção "artificial"]. A desobediência se manifesta em várias partes. Alguns cardeais, incluindo Ottaviani (4), assinam uma carta aberta a Paulo VI sobre a nova missa. Sabemos que esse texto havia sido preparado pelos lefebvrianos. Teólogos importantes como De Lubac, Balthasar e Ratzinger, todos fundamentalmente conciliares, começam a mudar de tom, sobretudo a partir de 1970. Assim, Lefebvre não estará mais isolado e instrumentalizará as reservas de teólogos não integralistas para levar água ao seu moinho. A partir do momento em que padres conciliares críveis e preocupados expressam críticas, cresce uma atenção à contestação lefebvriana.

É possível um novo Concílio a curto prazo, e para fazer o quê?

Nunca se sabe quando é convocado um Concílio. Depende, em particular, da personalidade do papa e da sua confiança, e se ignora qual direção irá tomar. Pergunto-me se atualmente seria a melhor solução. Eu me inclino, ao invés, por algo intermediário: uma maior sinodalidade em nível continental. Hoje, precisamos levar mais em conta a dimensão realmente mundial da Igreja Católica e pensar no seu governo assumindo esse novo aspecto.

Essas consultas poderiam levar a decisões sobre temas importantes?

Sim, sobre diversos problemas que não podem ser resolvidos do mesmo modo em todo o mundo. Outras Igrejas, como a Comunhão Anglicana, encurralada entre a África e o Ocidente, vivem a mesma dificuldade. Devemos aprender a viver na unidade tendo, em certos pontos, uma disciplina diferente. Como as Igrejas orientais. Infelizmente, essa ideia não é suficientemente discutida. As assembleias continentais dos bispos, propugnadas por João Paulo II no fim do seu pontificado podem trazer as sementes de frutos que ainda estão por vir. Assim, iríamos além do modelo do Sínodo dos Bispos, cada vez mais marginalizado na vida da Igreja e que não afeta mais muito os cristãos.

Notas:

1. O Vaticano I havia estabelecido o dogma da infalibilidade papal.

2. Brandmüller: padre bávaro nascido em 1929, presidiu o Pontifício Conselho das Ciências Históricas de 1998 a 2009. Foi nomeado cardeal por Bento XVI em 2010.

3. Em resposta ao documento do Grupo Ecumênico de Dombes "Pela conversão das Igrejas", teólogos, incluindo o francês Laurent Villemin, trabalham sobre a questão: "Quais instituições da Igreja Católica Romana podem ser modificadas, e como, para favorecer a unidade da Igreja de Cristo, mesmo continuando a refletir a fé da Igreja Católica?" (http://www.uni-erfurt.de/en/canon-law/peter-and-paul-seminar).

4. Prefeito do Santo Ofício (órgão depois transformado na Congregação para a Doutrina da Fé), foi líder da oposição conservadora dentro da Cúria durante o Concílio.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

''As formas históricas do catolicismo evoluem''. Entrevista com Gilles Routhier - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV