Funeral de Mandela. A festa do século

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Por: Jonas | 14 Dezembro 2013

Nunca, nunca, nunca. Jamais a África do Sul receberá em apenas um dia o número de líderes mundiais que estiveram presentes, nessa semana, no funeral de Nelson Mandela, no estádio FNB. Nunca mais – talvez em outro Mundial de Futebol – o país receberá tanta atenção dos meios de comunicação. Foi uma oportunidade para honrar Mandela e montar um espetáculo para exibir a África do Sul, da forma como a ocasião merecia, com o melhor brilho possível. Contudo, rapazes, fizeram besteiras.

A reportagem é de John Carlin, publicada por Página/12, 13-12-2013. A tradução é do Cepat.

Não as pessoas que se apresentaram, mas os organizadores, ou seja, o governo. É uma pena que Barack Obama, os presidentes e os primeiros-ministros das Bahamas, Burundi, Brasil, Grã-Bretanha, o príncipe herdeiro do Japão e todo o exército de convidados estrangeiros honoráveis não foram animados a se unir conosco nas grandes arquibancadas do estádio, durante as felizes cinco horas que estive pulando e me movimentando entre a multidão previamente ao começo das atuações.

Foi uma grande festa. A festa do ano - do século -. Uma celebração, uma ação de graças orgulhosa e feliz, cantando e bailando de maneira tão hábil, tão sincronizada que qualquer um que não soubesse do assombroso dom natural dos sul-africanos para a harmonia de canto, teria imaginado que o evento foi ensaiado rigorosamente durante seis meses. Se o homem estivesse olhando lá do alto (alguém ao meu lado perguntou-me, de maneira não totalmente ridícula: “você acredita que Mandela iniciará uma religião?”), ficaria aprazido, sorridente e se movimentando junto aos melhores.

Contudo, assim que os dignitários começaram a entrar no estádio e começaram os discursos, teria que lutar para não dormir, como poderia ter ocorrido, contido somente pelas suas requintadas boas maneiras, para não se unir ao coro de vaias ao presidente Zuma, toda vez que aparecia nas grandes telas do estádio.

Foi pouco político por parte da multidão zombar de Zuma, é verdade. Se era preciso alguma evidência que Mandela permanecerá na consciência moral da África do Sul, agora e pelo resto dos tempos, aqui estava. Era possível honrar o legado de Mandela, como Zuma incentivava a fazer e, ao mesmo tempo, saudar a ele próprio também? Os dois conceitos eram compatíveis? A multidão, certamente, pensava que não. No entanto, Zuma não se importa. Assim como o mau tempo, nada se podia fazer para evitar que viesse. O que a ocasião pedia era uma produção brilhante, que foi planejada, do princípio ao fim, e – sim – ensaiada meticulosamente, não excluindo ao intérprete da linguagem de sinais, para permitir que o espírito de Mandela brilhasse em sua morte, como fez durante sua vida.

À luz do todo o resto, graças a Deus por Obama, que mostrou como as coisas deveriam ter sido feitas, com um discurso inteligente, original e de forte emoção, embora a “foto” com a primeira-ministra dinamarquesa tenha desfeito parte de seu bom trabalho e contribuiu para minar ainda mais a gravidade da ocasião. Em relação ao restante dos oradores estrangeiros, não é de assombrar que a multidão começou a se mexer nas cadeiras, a bailar e cantar e ainda tocar os tambores enquanto eles continuavam falando. Pronunciando soníferos, discurso após discurso (a única vez em minha vida que lamentei entender o espanhol foi quando Raúl Castro se levantou para falar), mereciam maiores demonstrações de descortesia do que as que receberam. Foi precisamente uma falta de respeito a que demonstraram a Mandela ao não se sobressaírem das formas pomposas com as quais esfriaram o já frio ar da tarde. Por Deus! Não é o caso de haver faltado tempo para que os organizadores do evento o tivessem preparado!

Sendo assim, além de cortar dois terços de todos os discursos e perder a metade dos indivíduos que os deram, o que poderiam ter feito? Bom, para começar, que tal se tivessem dado um pouco de atenção ao que Mandela poderia ter desfrutado? Que tal, como sugeriu um amigo no estádio, trazer muitas crianças ao cenário para cantar e dançar? Que tal Johnny Clegg e o Coral Gospel de Soweto fazendo a casa ferver com “Asimbonanga”? Que tal um curto, mas emotivo vídeo nas telas mostrando alguns dos grandes momentos de Mandela?

Que tal o arcebispo Desmond Tutu fazendo o grande discurso sul-africano do dia? Depois de Mandela e não tão depois assim, é o maior talento que o país produziu nos últimos tempos. Teria cativado a multidão e o público de todo o mundo. Porém, o governo – rancoroso, mesquinho, tão diferente de Mandela – deixou-lhe de lado porque, pode-se supor, disse várias coisas, recentemente, que Zuma não gostou.

A lição é clara, assim como foi durante toda a semana, desde que Mandela morreu a imagem nacional está melhor, brilha com mais força, quando o governo não está nela. A oportunidade foi desperdiçada e não haverá outra. Porém, por sorte para nós, entre alguns poucos felizes, Mandela esteve conosco, comovedoramente, entre a multidão.

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