Síria: carta de Natal do Mosteiro de Mar Musa

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12 Dezembro 2013

A comunidade monástica de Deir Mar Musa, na Síria, divulgou a costumeira Carta de Natal aos amigos. A carta é assinada pela Ir. Houda Fadoul, que guia a comunidade depois da expulsão da Síria do fundador, o jesuíta Paolo Dall'Oglio, em junho de 2012. Dall'Oglio, depois, foi sequestrado no norte do país no fim de julho. Publicamos algumas passagens da longa carta, densa em reflexões espirituais, assim como em relatos sobre a dramática cotidianidade de um país em guerra.

A reportagem é da revista Popoli, dos jesuítas italianos, de dezembro de 2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A íntegra da carta, em inglês, está disponível aqui.

Eis a carta.

Todas as vezes em que eu tento escrever estas linhas para vocês, queridos amigos nossos, me sinto confusa, porque as palavras me traem e não me ajudam a transmitir a amargura que se encontra no meu coração, a confusão que ocupa a minha mente, por causa da dor e da tristeza por aquilo que experimentamos no nosso querido país, a Síria. O amor pela terra natal em mim é grande e profundo, o que abre uma ferida no meu coração, e eu não encontro melhor remédio para isso do que a oração, como fazem muitos sírios nestes dias.

Alguns definem a oração como uma arte que exercitamos perante Deus, em que nós escolhemos as palavras e as expressões que Ele gosta, tentando satisfazê-Lo e estar perto d'Ele. Como um encontro íntimo que experimentamos com a pessoa amada, como uma verdadeira relação que toma posse dos nossos corações. Outros a experimentam como uma forma de permanecer diante de Deus para louvá-Lo e agradecê-Lo pelos seus dons... e assim por diante.

Tudo isso poderia ser verdade. Pessoalmente, no entanto, eu percebo a oração como um diálogo entre nós e Deus, em que abundam as nossas demandas, as nossas questões e as nossas esperanças. Gostaríamos que fossem respondidas rapidamente e realizadas de uma forma que vá ao encontro das nossas necessidades e nos deem a paz, a reconciliação e o perdão a todas as crianças do nosso país e do mundo. Nessa posição, unimo-nos ao sucessor de Pedro, o Papa Francisco, esse humilde papa, amigo íntimo dos pobres e dos aflitos, em solidariedade com o sofrimento do nosso povo (...).

Sempre volta à nossa oração a mesma pergunta, que vem da profundidade da nossa tristeza: onde está Deus em tudo o que acontece conosco? Ele está realmente ausente? Ou talvez Ele decidiu se retirar para as Suas alturas e ficar lá nos observando? Muitas vezes esquecemos que Deus é o único que tomou a iniciativa, nos amou e entrou em relação conosco. Portanto, é impossível que Ele nos abandone, Ele que disse: "Não temais, pequeno rebanho" (Lucas 12, 32). Ele quer que sejamos responsáveis e conscientes do nosso papel e vocação. Estamos confiantes de que Deus age e fornece as coisas conforme Ele vê que é possível e conveniente, de uma forma que não nega a responsabilidade do ser humano, mas, ao invés, a respeita e a torna mais eficaz para o bem comum.

Redescobrimos nestes tempos difíceis a eficácia da oração como a única forma de sair dos nossos sentimentos negativos, do medo e da ansiedade com relação à nossa existência e ao nosso futuro. Confiamos em Deus, nosso apoio e nossa ajuda, para superar as tribulações. Como discípulos de Jesus, filho de Maria, somos chamados a viver na esperança e a ser um sinal de esperança para aqueles que estão ao nosso redor. (…)

Estamos muito tristes e angustiados com o destino do nosso fundador, o Padre Paolo. Não temos nenhuma notícia certa depois do seu desaparecimento. Não sabemos a quem perguntar ou a quem recorrer por ajuda. Sabemos, no entanto, como confiar em Deus, o Misericordioso, o Compassivo, e nas orações de tantas pessoas de boa vontade do mundo, de diferentes religiões e nações, pelo nosso amado irmão e mestre. Estamos em constante oração pela sua segurança e serenidade. Esperemos que a tragédia de todos os sequestrados, desaparecidos ou detidos, chegue ao fim. Rezamos sem cessar pelos dois bispos e pelos outros padres que estão sequestrados e por todos os prisioneiros e reféns, por todos aqueles que estão faltando e, especialmente, por aqueles de quem nada se sabe.

A atmosfera em Mar Musa é semelhante à do ano passado: não há peregrinos ou visitantes por causa da situação geral, e, por isso, há muitos momentos de silêncio profundo, que convidam ainda mais à oração e à meditação. Estamos tentando, o máximo possível, aproveitar estes dias para o nosso crescimento espiritual. Gostaríamos que todos os nossos amigos e todos aqueles que gostam da meditação e do silêncio participassem disso. É claro que, quando o mosteiro estava lotado com pessoas, tínhamos apenas a hora de meditação vespertina para gozar do silêncio do deserto.

Comprometemo-nos, contudo, no futuro esperançosamente próximo, quando a "abençoada multidão" voltar, a criar mais espaço para um silêncio vivo, se Deus quiser. É verdade que, nesse período, não praticamos a hospitalidade nem organizamos seminários ou qualquer outro tipo de atividade religiosa ou sociocultural, mas permanecemos aqui com a ajuda de Deus, pelo Seu amor e em solidariedade com as crianças das nossas Igrejas e com os nossos irmãos e irmãs muçulmanos nesse nosso querido Oriente Médio. Lemos a continuidade da nossa "estadia" à luz da esperança em um futuro em que a justiça e a verdade se abraçam.

O Padre Jacques dedica todo o seu tempo em Qaryatayn para acomodar famílias de refugiados que vieram para o mosteiro de Mar Elian [outro mosteiro da Comunidade] em busca de ajuda e proteção. O número de refugiados que chegaram ao mosteiro e na própria cidade de Qaryatayn nos últimos meses ultrapassa 5 mil, com uma maioria de refugiados muçulmanos (mulheres, crianças, assim como idosos e adultos). Eles dormiam como escoteiros em acampamento, em toda a parte, na igreja, nas salas e até mesmo sobre os telhados, apesar do frio. Agradecemos ao Senhor que a fuga deles foi na primavera, e não no inverno.

Hoje, enquanto eu escrevo esta carta, Jacques acolhe mais de 400 refugiados dos vilarejos vizinhos. São todos muçulmanos (57 famílias com 97 crianças menores de 10 anos), que escaparam da morte e dos tiros. Por alguns meses, a situação de segurança em Qaryatayn foi boa. A cidade está tranquila e praticamente estável, enquanto os vilarejos vizinhos ainda sofrem. Tem sido possível ajudar essas pessoas graças às doações e graças à solidariedade de muitas pessoas que se sentiram responsáveis por aqueles que sofrem. No entanto, ainda precisamos de ajuda, já que essas pessoas deslocadas ficaram sem nada, suas casas foram saqueadas e incendiadas, suas aldeias destruídas. Essa infraestrutura tem que ser refeita, já que eles não têm eletricidade, nem um lugar para onde voltar. "Apenas em contato com eles, brincando com os seus filhos – diz o padre Jacques –, é que eu entendi o meu voto de pobreza. Eu compreendi o que isso significa que o Filho de Deus deixou tudo e se encarnou por meio de uma pobre menina a fim de se tornar o filho do homem".

Como monges e freiras, nós todos tentamos não deixar Jacques sozinho. É por isso que nos alternamos para visitá-lo um após o outro e acompanhá-lo por cerca de uma semana, quando as circunstâncias permitem. Ele também vem visitar Mar Musa quando pode. No entanto, o fardo se tornou um pouco mais leve para Jacques, já que ele não precisa mais vir celebrar a missa em Mar Musa todas as semanas, o que ele fazia com muita paciência e amor. De fato, o Padre Jihad, que terminou a sua licenciatura em Sagrada Escritura no Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, está agora presente entre nós, o que é uma verdadeira graça. Por isso, agora gozamos da celebração da Eucaristia todos os dias, especialmente o domingo solene, que é o centro das nossas vidas.

A Ir. Houda, no entanto, não esconde de vocês, queridos amigos, que o seu mandato como superiora da comunidade monástica não é fácil, como vocês podem imaginar. Geralmente ela diz: "Eu fui confrontada com a minha fraqueza e senti um grande peso dentro de mim. No entanto, Deus, o Amigo, me ajudou. Ele me conhece e sempre vem no momento certo para me apoiar". Os outros irmãos também ajudam muito com a sua caridade e solidariedade. Também é preciso dizer que alguns amigos continuamente expressam a sua solidariedade e caridade de várias maneiras. A sua amizade e oração nos dá força para continuar. (…)

Muitos perguntam a Jacques: "Padre, por que você ainda constrói e para quem? Os cristãos estão emigrando e não são apreciados por muitos nos países islâmicos". Ele responde dizendo: "Nós acreditamos na Providência divina que nos protegeu ao longo dos séculos em nossa terra. Nós construímos para servir aos pobres, para ensinar as crianças, muçulmanas e cristãs, para que essa esperança não morra. Queremos continuar sendo um sinal de esperança para o resto da paróquia e para todos os outros. Temos orgulho de acolher os muçulmanos na casa de Deus. Esse é o seu direito e é o nosso dever".

Os esforços coordenados do irmão Jacques, juntamente com o Mufti e com algumas personalidades muçulmanas da cidade, pouparam a própria cidade e salvaram-na da iminente destruição por causa da batalha que estava prestes a entrar em erupção no local. De fato, fez-se uma trégua, assim como uma solução local entre os dois lados que garantiu a paz na cidade, abrindo um caminho – esperamos – rumo a uma futura e profunda reconciliação! Essa iniciativa conjunta, juntamente com a atividade humanitária do mosteiro de Mar Elian, ajudou a fortalecer a amizade e o respeito mútuo entre muçulmanos e cristãos em Qaryatayn. Entre os frutos concretos dessa proximidade, um acampamento foi realizado em Mar Elian para as crianças da cidade, muçulmanas e cristãs, com a ajuda de alguns amigos de Damasco durante os dois dias do feriado muçulmano de al-Adha (Festa do Sacrifício). As crianças chegavam ao mosteiro de manhã para brincar e participar de várias atividades e comer juntas. Depois, voltavam para as suas casas à noite. Desejamos que todas as crianças sírias e as do mundo inteiro, de todas as partes, possam brincar juntas em vez de lutar entre si como os adultos muitas vezes fazem. (…)

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