Reforma litúrgica, uma história para ser reescrita

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Por: André | 12 Dezembro 2013

Meio século depois da publicação da Sacrosanctum Concilium, todos os textos preparatórios são postos, pela primeira vez, à disposição do grande público. Para comparar novamente as modalidades com que esses documentos foram colocados em prática.

 
Fonte: http://bit.ly/1kzRajX  

A reportagem é de Sandro Magister e publicada no sítio Chiesa.it, 09-12-2013. A tradução é de André Langer.

Passou-se exatamente meio século desde que o Concílio Vaticano II promulgou o primeiro dos 16 documentos, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia – Sacrosanctum Concilium.

E 50 anos depois desse dezembro de 1963, foi criado um sítio que disponibiliza para o grande público a documentação de todo o trabalho que esse texto capital produziu, tanto na fase preparatória anterior ao Vaticano II como durante o próprio Concílio.

Que o Concílio iniciasse seus próprios trabalhos exatamente pelo esquema “De liturgia” deveu-se ao fato de que pareceu aos padres conciliares que este era o esquema mais maduro e o que menos objeções oferecia. Mas posteriormente muitas vozes notáveis reconheceram isto como um fato providencial: “Começando pelo tema da liturgia – escreveu Joseph Ratzinger – colocou-se inequivocamente à luz o primado de Deus, sua prioridade absoluta” em relação a todos os outros temas que o Vaticano II teve que enfrentar posteriormente.

Na votação final, a Constituição Sacrosanctum Concilium obteve 2.158 votos a favor e somente 19 contra. Mas as oposições cresceram posteriormente, principalmente pelo modo como foram colocadas em prática as indicações por meio do “Consilium ad exsequendam Constitutionem de sacra liturgia”, instituído por Paulo VI em janeiro de 1964, tendo como primeiro presidente o cardeal Giacomo Lercaro e como secretário e “factotum” o liturgista Annibale Bugnini.

Na sequência, temos uma apresentação mais detalhada do novo sítio, escrita por um especialista na matéria, Nicola Bux, sacerdote da diocese de Bari, professor de liturgia, autor de ensaios e consultor da Congregação para a Doutrina da Fé, da Congregação para a Causa dos Santos e, de 2008 a 2013, da oficina para as celebrações pontifícias.

Para uma “reforma da reforma”, por Nicola Bux

50 anos depois do 04 de dezembro de 1963, quando foi promulgada a Constituição litúrgica do Vaticano II, retorna à mente a afirmação de um estudioso desse Concílio: “Os padres não queriam uma ‘revolução’ litúrgica”.

Como provar esta afirmação? Vem ao nosso encontro um sítio muito novo, com as fontes documentais sobre a preparação, a redação e a composição da Sacrosanctum Concilium.

O objetivo é dar a conhecer os documentos para uma história equânime da reforma litúrgica e, em consequência, também para uma compreensão autêntica do Vaticano II, na continuação de outros concílios da Igreja, na linha de navegação traçada por Agostino Marchetto:

“Nas últimas décadas, a questão da correta celebração da liturgia converteu-se cada vez mais em um dos pontos centrais da controvérsia em torno do Concílio Vaticano II, quanto à forma como deveria ser valorado e acolhido na vida da Igreja”.

O novo sítio, gratuito e de fácil acesso, torna, finalmente, viável a todos um material muito precioso.

Basta saber orientar-se um pouco ao consultá-lo. Está escrito no frontispício do sítio, que ainda está em fase de construção: “Nas próximas semanas será inserida a transcrição da documentação necessária para compreender como antes do Concílio a comissão litúrgica reuniu-se para redigir o esquema da Constituição sobre a Liturgia proposta ao Concílio Ecumênico Vaticano II e como, durante as duas sessões conciliares, este esquema foi modificado segundo os desejos expressos dos padres”.

A comissão litúrgica preparatória realizou três encontros nos quais foram organizados, apresentados e discutidos os trabalhos realizados nas subcomissões. Para apresentar o material, manteve-se no sítio a seguinte divisão: I Conventus; II Conventus: III Conventus.

Depois de iniciado o Concílio, o trabalho passou à Comissio Centralis. A comissão litúrgica conciliar reuniu-se durante a primeira e a segunda sessão do período de reuniões, em 1962 e em 1963, assim como também no período intermediário. Também neste caso manteve-se a divisão original: Sessio I; Sessio II.

A quase totalidade do material documental está armazenada agora no Archivo Secreto vaticano e dali foi retomada e tornada público no sítio. Ao passo que aquilo que se refere a outros documentos dos quais se conhece sua existência, mas que não se encontram no Archivo, está em curso a busca, com a finalidade de oferecer ao grande público uma documentação finalmente completa.

Os textos estão publicados em seu idioma original, a maioria deles em latim.

A Sacrosanctum Concilium apresenta a liturgia como a continuação da obra da salvação de Cristo em todo lugar e em todo tempo. O mistério de Cristo está presente nela, na liturgia, convertida em cume e em fonte da vida eclesial.

Pamela E. J. Jackson identificou, acertadamente, a chave de leitura no parágrafo 7, que termina desta maneira: “Toda a celebração litúrgica, como obra de Cristo sacerdote, e de seu Corpo que é a Igreja, é uma ação sagrada por excelência, cuja eficácia, no mesmo título e grau, não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja”.

Assim também fez notar que as fontes da teologia da liturgia, na Constituição, são a Sagrada Escritura e a tradição litúrgica, patrística e teológica, interpretada pelo magistério, em especial com as encíclicas Mystici Corporis e Mediator Dei, a ponto de que se pode dizer que no campo litúrgico o Concílio Vaticano II “completou a obra iniciada por Pio XII”.

Isto corresponde com o que Bento XVI afirmou na audiência de 10 de outubro de 2012: “A Sacrosanctum Concilium recorda a centralidade do mistério da presença de Cristo”, assim como também no discurso de 18 de fevereiro de 2013 ao clero romano e no prólogo aos seus escritos sobre liturgia:

“A primeira, inicial e simples – aparentemente simples – intenção do Concílio era a reforma da liturgia, que já havia começado com Pio XII, que já havia reformado a [celebração da] Semana Santa. [...] Olhando retrospectivamente, me dou conta agora de que foi muito bom começar com a liturgia. Deste modo aparece o primado de Deus, o primado da adoração. ‘Operi Dei nihil praeponatur’: não se anteponha nada à obra de Deus. Esta frase da Regra de São Bento aparece assim como a regra suprema do Concílio”.

Se não se quiser fazer caso a Bento XVI, pode-se tomar Henri de Lubac. Também para este grande teólogo a Constituição sobre a Sagrada Liturgia foi “muitas vezes mal entendida e às vezes deformada de forma sacrílega”. É que depois do Concílio impôs-se a convicção de que a Constituição litúrgica havia postulado uma reforma no sentido de uma ruptura com a tradição da liturgia católica, em ao menos quatro campos: a Eucaristia como ceia em vez de sacrifício; a assembleia como sujeito da liturgia em vez do sacerdote; a participação como alternativa à adoração, e a importância central da comunidade no lugar do alcance cósmico do sacrifício eucarístico. Também para isto é importante voltar às fontes. Os documentos preparatórios permitem olhar a Sacrosanctum Concilium com mais objetividade e avaliar sua execução pós-conciliar.

Também à luz das intervenções dos padres conciliares na aula, aparece também que eles queriam que a Constituição fosse uma lei-marco, mas isso não implicava uma transformação fundamental da liturgia católica. Nesta última – escreveu Joseph Ratzinger – deve-se “determinar quais foram os pontos nos quais supressões muito drásticas foram efetuadas, para restabelecer de modo claro e orgânico as conexões com a história passada. Eu mesmo falei neste sentido de ‘reforma da reforma’. Mas, na minha opinião, tudo isto deve ser precedido por um processo educativo para que seja suspensa a tendência de degradar a liturgia com invenções pessoais”.

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