Pecado original? Todo processo vital é Logos mais Caos. Artigo de Vito Mancuso

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28 Outubro 2013

Logos + Caos: essa é a fórmula que sabe dar conta da contradição inerente ao processo vital, incluindo o homem, sem culpabilizar ninguém. Bem longe do brotar de um pecado, a desordem do mundo é intrínseca ao ser que procede do ato criativo original, e o pecado do homem não produz o caos, mas, ao contrário, o manifesta.

A opinião é do teólogo italiano Vito Mancuso, ex-professor da Università Vita-Salute San Raffaele, de Milão, em artigo publicado no jornal Avvenire, 27-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Caro diretor, agradeço-lhe muito pela oportunidade de esclarecer o meu pensamento sobre o pecado original depois das críticas que me foram movidas por Gianni Gennari após a minha participação no programa de TV Che tempo che fa.

Deixo de lado o sarcasmo de que fui objeto e também a acusação de liquidar com leveza um dogma tão importante como o do pecado original pelo simples motivo de que eu escrevi muito e dei aulas sobre o assunto, e, ao invés, me concentro na substância do dogma e das minhas críticas.

Para favorecer a clareza, eu lembro, remetendo-me ao renomado manual dos jesuítas Flick e Alszeghy, o que defende o dogma: "Pecando, Adão transmitiu a todo o gênero humano o pecado que é a morte da alma", de modo que "todos os filhos de Adão são concebidos em um estado de verdadeira inimizade com Deus, um estado de morte espiritual". Esse é o núcleo do dogma católico na sua articulação de pecado original originante e pecado original originado, expressado pelo Decretum de peccato originali do Concílio de Trento de 1546, que retoma as decisões do Sínodo de Cartago de 418 e do de Orange de 529.

Portanto, não se trata simplesmente do fato de que a humanidade é "um pau torto" (o que que muitos enfatizaram em todos os tempos), mas muito mais radicalmente do fato de que tal "tortura" se deve a um pecado do primeiro homem e de que tal pecado se transmite nas suas consequências a todos os seres humanos, que, assim, nascem pecadores pelo simples fato de nascerem, como afirma o Tridentino, com o dito de que o pecado é "propagatione, non imitatione, transfusum", isto é, não depende da liberdade, mas sim da natureza, reconhecendo o pensamento do tardo Agostinho para o qual toda a humanidade era uma massa condenada.

Contra tal dogma, eu defendo que o centro do cristianismo nos impõe a considerar que não existe nenhuma inimizade entre Deus e o bebê que nasce, e que, portanto, o dogma do pecado original deve ser reescrito em termos de "caos" original, entendendo com isso a condição humana necessitada de disciplina por causa da obscura força destrutiva que ela pode ter.

Eu defendo, em outras palavras, que o centro do cristianismo consiste em tal laço entre Deus Pai e a humanidade a ponto de tornar insustentável a ideia de que os homens são pecadores aos olhos de Deus pelo simples fato de serem homens, ideia que eu considero uma ofensa à criação e à paternidade divina. E, com isso, eu considero que não se torna vão de modo algum o drama do mal e do pecado, mas apenas se evita uma falsa solução para ele.

A obscura força destrutiva que pode aparecer na natureza humana, de fato, não depende de um pecado original inexistente (a exegese ensina há muito tempo que Adão é um personagem mítico, símbolo da humanidade), mas sim da natureza em parte caótica do ser criado, como difusamente eu argumento no meu último livro, Il principio passione [O princípio paixão], apresentado na noite de domingo passado na TV, respondendo às perguntas nada complacentes de Fabio Fazio.

Isto é, eu penso que seja necessário se livrar do insustentável mito da perfeição inicial (que necessariamente leva a marcar a imperfeição atual do ser e do homem como fruto do pecado) e conceber a criação, ao invés, na perspectiva da criação contínua como um processo de plasmação da energia caótica inicial por parte da divina harmonia relacional.

Logos + Caos: essa é a fórmula que sabe dar conta da contradição inerente ao processo vital, incluindo o homem, sem culpabilizar ninguém. Bem longe do brotar de um pecado, a desordem do mundo é intrínseca ao ser que procede do ato criativo original, e o pecado do homem não produz o caos, mas, ao contrário, o manifesta.

Para que, de fato, o pecado se dê é preciso haver liberdade consciente ("plena advertência, consentimento deliberado"), mas a liberdade, por sua vez, é tal somente se há possibilidade de escolha, isto é, se não somos determinados, mas sim indeterminados, e essa indeterminação original se chama caos. O caos, portanto, vem antes do pecado, é a condição ontológica para o dar-se do pecado como ato negativo da liberdade.

Gennari cita contra mim "Agostinho, Tomás, Lutero, Pascal, Spinoza, Kant, Hegel". Eu diria que se trata de uma sequência bastante embaraçosa. De fato, embora não haja dúvidas de que os quatro primeiros defenderam o dogma do pecado original, a situação é exatamente oposta para Spinoza, que punha a essência do homem no desejo (Ética, IV, 18); para Hegel que, comentando Gênesis 3, escreve que "o surgimento da naturalidade é a elevação que o próprio Deus aqui expressa" (Lições sobre a filosofia da religião, II, 2); e para Kant, segundo o qual "embora ele possa ser a origem do mal moral no homem, é certo que, entre todas as formas de representar a difusão do mal e a sua propagação em meio a todos os membros da nossa raça e a todas as gerações, a mais inconveniente é a de representar o mal como uma coisa que nos vem por herança dos nossos primeiros pais" (A religião nos limites da simples razão, I, 4).

Kant, que acreditava em Deus e na vida eterna, tinha bem clara a potência e o drama do mal, mas também sabia que o dogma do pecado original, bem longe de ser uma solução para a origem do mal, na realidade agrava o problema criando aquele "mal-estar da inteligência" denunciado por Simone Weil no cristianismo.

Hoje são muitos os teólogos e os fiéis que experimentam tal mal-estar com relação ao dogma do pecado original, seja como pecado original originante, seja como pecado original originado, acima de tudo por causa do inexistente fundamento bíblico demonstrado pelo fato de que o judaísmo (do qual provém Gênesis 3) não conhece nenhum pecado original.

Mas, prescindindo das muitas outras aporias que eu elenco nos meus escritos e que aqui não me é possível relembrar, pergunto quem de nós acredita ainda que os bebês nascem em um estado de inimizade com Deus, mortos para a vida espiritual; pergunto quem de nós acredita que o não batizados estão mortos para a vida espiritual e que, portanto, as virtudes de Gandhi, Martin Buber, Etty Hillesum e de muitíssimos outros justos são apenas, como argumentava Agostinho, splendida vitia.

Essa é a pergunta que aqueles que ainda defendem o dogma do pecado original devem poder responder. Joseph Ratzinger afirmou que o cristianismo é "a opção pela prioridade da razão e do racional". Se isso for verdade, então nele deve ser lícita a crítica racional e argumentada de uma proposição de fé, porque senão se deveria corrigir a afirmação de Ratzinger, dizendo que o cristianismo é opção pela prioridade da submissão. Mas o fato de que o cristianismo não é isso é demonstrado pela história de Jesus e do seu confronto com as autoridades constituídas.

É, portanto, em fidelidade à essência do cristianismo, além de em fidelidade ao nosso tempo com a sua exigência de diálogo com a laicidade e as outras religiões, que eu considero necessário reescrever o dogma do pecado original em termos de caos original.

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