Os lefebvrianos e uma criminosa guerra nazista

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21 Outubro 2013

Pode-se debater o que a eleição de Francisco significa em outras frentes, mas não há nenhuma dúvida de que ela anunciou o fechamento da janela que se abriu com Bento XVI para a reconciliação com a tradicionalista Fraternidade São Pio X, popularmente conhecida como os lefebvrianos.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 18-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Francisco não sente o mesmo afeto pela missa em latim pré-Vaticano II, nem o mesmo impulso para reintegrar os seus devotos. Ele já deu passos que desencadearam ondas de choque nos círculos tradicionalistas, incluindo a proibição da celebração da missa antiga pelos Freis Franciscanos da Imaculada e a substituição de cinco consultores do Ofício de Celebrações Litúrgicas, conhecidos pelos seus altos gostos eclesiais.

O comentarista italiano Sandro Magister afirmou recentemente que Francisco parece "amigável para todos, exceto os tradicionalistas". O sentimento é aparentemente mútuo. Durante uma parada em Kansas City, Missouri, o chefe da Fraternidade, o bispo Bernard Fellay, teria descrito Francisco como "um verdadeiro modernista", entendido em seus círculos como o máximo em termos pejorativos.

Se esse quadro já estava claro, ele provavelmente foi cimentado esta semana com a rixa em Roma em torno de um esforço por parte da Fraternidade São Pio X para celebrar uma missa fúnebre para um criminoso de guerra nazista condenado, Erich Priebke, que morreu no dia 11 de outubro aos 100 anos de idade.

Priebke foi condenado à prisão perpétua (a última parte sob prisão domiciliar) na Itália pelo massacre da caverna de Ardeatine em 1944, no qual 335 italianos, incluindo 57 judeus, foram executados em represália a um ataque contra as tropas alemãs. Por sua própria admissão, Priebke pessoalmente atirou contra dois dos presos e supervisionou as mortes dos outros.

Priebke nunca expressou remorso, insistindo que ele estava seguindo ordens, e depois de sua morte o seu advogado divulgou um testamento em que Priebke essencialmente negou o Holocausto, alegando que os supostos crematórios nos campos de concentração nazistas eram, na verdade, grandes cozinhas para alimentar os internos. (Isso provocou uma boa frase de Renzo Gattegna, presidente da União das Comunidades Judaicas Italianas, falando na quarta-feira em uma cerimônia que recordava o 70º aniversário da deportação dos judeus romanos: "Ontem, os nazistas assassinaram seres humanos", disse Gattegna. "Hoje, eles assassinam a história")

O Vicariato de Roma, que dirige a diocese para o papa, anunciou no dia 12 de outubro que não iria permitir um funeral na igreja para Priebke, que se considerava católico. A Fraternidade São Pio X, então, se ofereceu para sediar o funeral na terça-feira em uma de suas capelas em Albano, a área montanhosa fora de Roma, perto da residência de verão do papa em Castel Gandolfo.

Isso definiu um cenário de caos. Uma pequena delegação de neonazistas foi até Albano, onde foram recebidos por uma grande multidão de moradores contrários à realização do funeral, assim como uma falange da polícia. Seguiu-se uma briga, e a polícia chegou até a jogar bombas de gás lacrimogêneo contra a multidão.No fim, o carro que transportava os restos mortais de Priebke foi forçado a dar marcha à ré, sem a realização do funeral. Dois neonazistas foram presos após o episódio.

Pode-se supor que Francisco esteja tendo um interesse pessoal em tudo isso, em parte porque Priebke fugiu para a Argentina depois da guerra e viveu confortavelmente em um subúrbio de Buenos Aires por 50 anos antes da sua extradição em 1996.

O fato é que a decisão de celebrar o funeral de Priebke veio do ramo italiano da Fraternidade São Pio X, e não de sua sede em Ecône, na Suíça. Outro fato também é que o padre Pierpaolo Petrucci, o superior da Fraternidade na Itália, disse que "não tinha nada a ver com política ou mesmo com Priebke", mas sim com o dever cristão de enviar "um homem morto que, durante a sua vida, se confessou e comungou".

Dito isto, para um papa que foi coautor de um livro com um rabino, que recentemente disse que é impossível para um cristão ser antissemita e que pode sentir um pouco de vergonha nacional pelo fato de que ex-nazistas puderam viver tanto tempo imperturbáveis em seu próprio quintal, a associação da Fraternidade São Pio X com a memória de Priebke pode solidificar o seu instinto de que é melhor deixar essa janela fechada.

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