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14 Outubro 2013

"Alceu Amoroso LimaTristão de Ataíde seu pseudônimo de crítico literário –, escreveu por muitos anos cartas diárias a sua filha Lia (Tuca), já então Madre Maria Teresa, monja beneditina em São Paulo, logo abadessa do Mosteiro. O Instituto Moreira Salles publicou um alentado volume, Cartas do Pai, com missivas que vão de 1958 a 1968 (IMS, 2003)", informa Luiz Alberto Gómez de Souza.

E comenta: "Fico pensando como nosso querido dr. Alceu acompanharia com expectativa feliz os primeiros meses de Francisco como anúncio, lembrando João XXIII, de uma “flor de inesperada primavera”.

Luiz Alberto Gómez de Souza é doutor em sociologia, ex-dirigente nacional e internacional da Ação Católica estudantil, esteve próximo de D. Hélder, fundador da Ação Popular, funcionário das Nações Unidas (CEPAL e FAO) e agora é Diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Candido Mendes.

Eis o artigo.

Alceu Amoroso LimaTristão de Ataíde seu pseudônimo de crítico literário –, escreveu por muitos anos cartas diárias a sua filha Lia (Tuca), já então Madre Maria Teresa, monja beneditina em São Paulo, logo abadessa do Mosteiro. O Instituto Moreira Salles publicou um alentado volume, Cartas do Pai, com missivas que vão de 1958 a 1968 (IMS, 2003). Sua filha conseguia decifrar sua letra quase ilegível, e preparou com carinho essa edição. Mais adiante, com a doença e depois a morte de Madre Maria Teresa, esse trabalho foi continuado por Alceu Amoroso Lima Filho e Frei Betto, num novo livro menor, que vai de janeiro de 1959 a fevereiro de 1970, anos terríveis no Brasil, que explicam o título escolhido pelos organizadores, Diário de um Ano de Trevas (Instituto Moreira Salles, 2013). Trabalharam todo um ano e Frei Betto colocou, à margem, 738 notas com indicações dos nomes citados. Nos dois livros, é possível acompanhar a presença fecunda do dr. Alceu (como o conhecíamos), na realidade brasileira e naquela de sua Igreja, numa obra epistolar de coração aberto.  

Em longa carta que me escreveu, dia 8 de março de 1964, dias antes do golpe, ele dizia, pensando em sua idade (70 anos): “Eu, porém, já estou numa idade de ... aposentadoria... Mas você é um militante, um engajado e diz muito bem, que está no grupo dos que já ‘estão preparando o Vaticano III’, com toda razão”. O concílio da Igreja Católica Vaticano II estava na metade (1962-1965) e muitos, como D. Hélder com quem eu trabalhei nesse tempo, pressentiam que esse concílio teria seus limites e que era hora de pensar numa continuação. Num certo sentido, a reunião dos bispos em Medellín, 1968, teve esse papel na América Latina. Em 1999, o cardeal Martini sonhava com um novo concílio. D. Hélder pensou num Jerusalém II no ano 2.000 (L. A. Gómez de Souza, Do Vaticano II a um novo concílio? Olhar de um cristão leigo sobre a Igreja, Loyola, 2004, pp. 239, 258). Francisco não está trazendo vento renovador e repensando agora a ideia de sínodos, com participação do povo de Deus e das Igrejas locais?

Mas voltando, dr. Alceu continuava na mesma carta: “Do meu canto, do meu observatório de aposentado, em todos os sentidos, de livre atirador, de peregrino e mais nada, sinto perfeitamente que o impulso dado por João XXIII ainda não será neste século que se incorporará  à Igreja. Talvez se João XXIII tivesse acompanhado o Vaticano II até o fim, talvez. ... Nós, eu pelo menos, não verei o III. Você talvez [eu tinha 28 anos, tempo de todas as ousadias, porém hoje, com 77, ainda não o vi ser anunciado]. Mas de qualquer modo, eu do meu canto de velho reformado, você na linha de frente, estamos realmente preparando os caminhos para o Cristo do século XXI, como o fizeram os 72 discípulos, que ele mandou ‘dois a dois’ prepararem os caminhos do Senhor”. Essa última menção me tocou profundamente, e eu me sentia a seu lado, uns bons passos atrás, companheiro de caminhada (ver L. A. Gómez de Souza, Uma fé exigente, uma política realista, EDUCAM, 2008, pp. 157-161).

Mal sabia ele que, dois meses depois, seria o menos aposentado dos escritores e cristãos brasileiros, como uma voz desassombrada e valente, luz em tempos de trevas. Em 7 de maio, escreveu um artigo, Terrorismo Cultural, sobre demissões de Anísio Teixeira, Josué de Castro e Celso Furtado e prisões do jovem filósofo Ubaldo Puppi e a minha própria, em Juiz de Fora. Três dias depois, seu ex-amigo, Gustavo Corção, escreveu irônico: “Terrorismo cultural?” (Diário de Notícias, 10 de maio, O Globo, 12 de maio). Alceu comentou em carta à filha: ”Como não leio O Globo que ontem transcreveu, disseram-me, um artigo em que a jaguatirica de Laranjeiras [bairro onde residia Corção e resido agora] respondera a Terrorismo cultural ... como bom Torquemadinha... Não li.” (Cartas do Pai, p. 407).

Recebeu, com surpresa, um telefonema do próprio presidente Castello Branco, que lhe dizia estar ele mal informado quando escrevera o artigo e usava a seu respeito o mesmo termo de “livre-atirador”, num sentido negativo (Cartas, pp.400-401). Logo depois, meu querido mestre de Porto Alegre, Ernani Maria Fiori, foi demitido de sua Universidade e depois da outra de Brasília. Relatei-lhe imediatamente por telefone o fato e, no dia seguinte, escreveu outro artigo, Terrorismo Universitário, elogiando a personalidade de Fiori e chamando-o de, “o maior filósofo do Rio Grande do Sul”, para fúria do catolicão Armando Câmara, que se julgava o primeiro (eu, conhecedor de nossos provincianismos, maliciosamente havia insinuado essa menção).

E foram seguindo artigos veementes, alguns que podem ser lidos na parte final da coletânea Revolução, Reação ou Reforma? (Tempo Brasileiro, 1964), que prefaciei em nova edição, na coleção Presença de Alceu, Vozes/EDUCAM, 1999.  

Neste novo volume das cartas podemos acompanhar suas reflexões livres a sua filha, logo depois do AI-5. Ali era implacável com os militares e se queixava de que vários artigos que enviava a jornais não eram publicados. Corção o atacava sem parar (“a serpente de Laranjeiras”, como se expressava livremente à filha).

Há no livro dois pontos a destacar, um sobre sua conversão e outro sobre a Igreja de seus dias.

Depois de quase dez anos de correspondência intensa, com o fogoso Jackson de Figueiredo, inflamado católico convertido, em agosto de 1928, o até então cético Alceu, escreveu um artigo de grande repercussão, Adeus à Disponibilidade, em que declarava sua conversão ao catolicismo (ver de Jackson e Alceu, Correspondência: harmonia dos contrastes (1919-1928), Academia Brasileira de Letras, 1991, dois tomos).

“Perdemos um crítico literário”, lamentaria Mario de Andrade, para quem desaparecia o sutil e independente Tristão de Ataíde, agora preso a dogmas. Nas décadas seguintes, Tristão seguia lúcido como sempre em suas análises literárias. Mas Alceu teria uma inflexão. Em outubro desse ano, morria afogado no Joá, Jackson e, já na volta do enterro, o cardeal D. Sebastião Leme entregava a Alceu o legado daquele, o Centro D. Vital, a revista A Ordem e logo depois o faria presidente nacional da Ação Católica e da Liga Eleitoral Católica, por ocasião da eleição de 1934. Alceu passaria a ser praticamente uma voz quase oficial da Igreja.

É interessante notar a presença de um leigo em posição de porta-voz da instituição. Hoje, quando os jornalistas querem uma opinião da Igreja, chamam algum bispo da CNBB, ou outro de uma posição oposta. Naqueles anos trinta, procuravam Alceu, Hamilton Nogueira, Sobral Pinto ou Edgar da Mata Machado em Minas. Num certo sentido, era uma Igreja com visibilidade menos episcopal ou clerical. Claro, por trás estava o poder do Cardeal Leme, não nos enganemos. Mas o até então livre-atirador Alceu, agora tinha de vestir a estreita vestimenta, para expressar a posição católica. Assim, foi fortemente crítico diante da “escola nova” educativa de Anísio Teixeira e Lourenço Filho. Nesta correspondência, se pode ver como isso foi tenso e mesmo contraditório, para alguém que sempre pensara livremente. Na carta que me escreveu disse: “Foi essa minha primeira e dolorosa e difícil experiência”.

Nessas cartas à filha, se pode ver que a conversão não foi algo fulminante e instantâneo, mas um processo lento. E no princípio, segundo ele dirá depois, há um Alceu “reacionário” (termo que para Jackson era positivo, reação ao mundo moderno).  Assim se refere, em 1969, a um artigo que escrevera: “Você não imagina a bruta decepção que tive relendo Adeus à Bahia” (escrito durante um Congresso Eucarístico). “Foi uma decepção medonha. Em 1933 eu era um integrista total! E o próprio estilo é ilegível hoje! ... Como se muda!...  Hoje me parece que não era eu quem escrevia aquilo. Houve realmente, em 1928, uma mudança de casca, mas a mudança de polpa só muito lentamente... era o estilo do Alceu recém-convertido (cinco anos antes) e se sentia da obrigação, ou antes, sinceramente, se revestia de um uniforme de católico que se tornou, naquele momento, perfeitamente sincero? E só muito lentamente fui voltando ao natural, à medida que o sobrenatural se naturalizava em mim”.  (Diário, pp. 51-52, carta de 7 de fevereiro do 1969, sublinhados do autor). Que reflexão admirável, sobre um sobrenatural que deixa de ser algo que vem de cima e separado e que se encarnou no próprio eu reencontrado.

Em carta de 25 de junho de 1969 dizia: “Eis aí como tudo mudou de tal ordem nesses 40 anos, de 28 a 68, de tal modo, que me sinto hoje, mais próximo do Tristão de 1919 do que do Alceu de 1928. Não que a fé tenha diminuído. Mas que a liberdade voltou a arejar o ambiente e a reconciliar o Alceu com o Tristão, para colocar o problema na personalidade bicéfala que acabei tendo, como nota irreversível em minha vida, e que, agora, com o cinquentenário, se tornou como que irremediável”. Comemoravam-se nesse ano os cinquenta anos de Tristão, que nasceu em 1919, na primeira crítica literária em O Jornal. Um fato, paradoxalmente, ajudaria. Ao morrer D. Leme, em 1942, que exercia forte influência em Alceu (e mesmo uma certa imposição), o novo cardeal do Rio, D. Jayme de Barros Câmara, de horizontes limitados, tinha grande antipatia (ou insegurança) em relação a Alceu e o tirou da Ação Católica nacional.  Isso o liberou do fardo oficial e ele redescobriu uma outra disponibilidade, dentro de uma fé livre e crítica.

Mais adiante vai expressar, porém, uma enorme melancolia. Tomou distância de seu mestre Maritain, que naqueles anos vivia um processo de regressão a uma posição defensiva e negativa diante do mundo. ”Sinto mesmo que hoje não tenho mais ninguém em quem confiar, como nele (Maritain) confiava em matérias de filosofia... Também partiu o único em quem eu me apoiava – desde o momento em que perdi o meu apoio... e que você sabe que era Thomas Merton. A morte deste me deixou, em tais terrenos, absolutamente só. Bem sei que ‘homem algum é uma ilha’, e que a leitura de um Suenens ou um Congar, de um Rahner ou de um Küng,... sempre iluminam a noite escura e os caminhos escorregadios do caos contemporâneo, mas um guia seguro, como outrora Chesterton ou Maritain, e até há pouco Merton, isso lá se foi para sempre, e tenho mesmo é de continuar a viagem, o pouco que me resta dela, sozinho, e na única companhia que nunca falta, e para mim é uma só: Deus no alto e Mamãe e vocês cá embaixo.” ( carta de 3 de agosto de 1969, pp. 208-209, sublinhados do autor).

E aqui vem o segundo elemento muito importante de sua trajetória. Por ser profundamente fiel à sua Igreja, será muito exigente. A princípio poderia causar surpresa, sua severidade em relação a Paulo VI. Mas este era o papa hamletiano, inseguro, autor da encíclica Humanae Vitae, em 1968, um ano antes das cartas, que acolheu a proposta da pequena minoria de dois membros da comissão que estudou o caso da reprodução e da contracepção, temas que ficaram congeladas, com grandes danos para a Igreja até hoje. Aproxima-o não de Pio XII, com quem Montini trabalhou, mas bem atrás, do Pio IX do Syllabus, que condenou as liberdades modernas: “uma referência ao caso Paulo VI, repetindo Pio IX, como estamos vendo claramente, aliás João XXIII só será continuado em 2000 e tantos por algum futuro João ou mesmo Paulo VII ou VIII, mas no momento, a volta ao silabismo é que domina e poderá agravar-se. Como também poderá atenuar-se” (carta de 1º de janeiro de 1969, p. 13). Estamos já nos anos 2000 passados e chegou Francisco.

Em outra carta continua a reflexão: “que está provocando uma ‘contestação’ maior nos católicos mais catolicões ou simplórios, ou conservadores ou reaças, do que todas as ‘subversões’ dos fiéis, contra as quais nosso papa disciplinador ergue, cada semana, o seu dedinho em riste (sic!), antes que seu sucessor pegue no chicote, interpretando, literalmente e inquisitorialmente, como querem os reaças e catolicões, o ‘azorrague’ de Nosso Senhor contra os ‘mercadores do templo’” (carta de 13 de maio, p.138). Que incrível premonição! Nove anos adiante chegaria João Paulo II que, com seu auxiliar Ratzinger, ergueria o chicote contra tantos teólogos e contra a teologia da libertação.

Mas, por outro lado, Alceu celebra o discurso do papa na Uganda, “que me encheu as medidas. Penso que foi o melhor que até hoje pronunciou. Do princípio ao fim não me decepcionou, coisa que há muito não acontecia. Estava realmente em estado de graça ... em Jerusalém, em Bombaim e, agora, em Kinshasa, é outro homem e passa realmente a ser um novo João XXIII, unindo o coração e a intuição deste com a sua própria inteligência e cultura. Agora, voltando aos seus aposentos vaticanos [que Francisco rejeitou], e a flor se terá fechado de novo. E a partir de amanhã, o contato com a Cúria ou ex-Santo Ofício, e os ‘monsignori’ e ‘cardinali’, o pânico, a dúvida, a necessidade de ser duro, o medo de concorrer para desagradar os ‘juntas de coice’, tudo isso e o peso da responsabilidade, e a sombra de Pio IX e a tentação do Syllabus, tudo isso vai de novo aprisioná-lo, e ele voltará a advertir, a condenar, a lamentar, a predizer catástrofes e a ver em cada canto o espectro dos cismas e heresias de que lhe falam os redatores de L’Osservatore Romano, ou mesmo os ‘ermitões’ e os cassandras”. Lembrar que ele chamara Maritain de ermitão. E segue: “Ah! Se Paulo VI pudesse sair de Roma uma vez por mês e viesse conversar com os pobres, os presos, os revoltados, os insatisfeitos, em suma, ‘nous autres gens des rues’” (carta de 3 de agosto, p. 209). Em nossos dias, tudo leva a crer que Francisco percebeu as ciladas e se mistura com as gentes.

Vem outro texto de incrível premonição, desta vez ousada e esperançosa: “Há muita coisa que devia ter sido feita há muito tempo, como se dirá no século XXI, quando houver mulheres sacerdotes, padres seculares casados, a Igreja aceitando o comunismo [era antes da queda do muro de Berlim], como hoje aceita – e até promove – o capitalismo etc. e tal pontinhos. O os Dom Herder’s cardeais, se então ainda houver cardeais! Por que não foi feito há mais tempo?, dirão os fiéis do ano 2069, quando suprimirem os cardeais e colocarem os operários no lugar dos milionários como sustentáculos do culto”.  E a gente sente que, nos pontinhos do texto, há uma pausa, Alceu talvez surpreso da própria audácia e termina a carta: “Bem, mas não extrapolemos...” Já tinha extrapolado. Eu nunca tinha visto a lucidez, a valentia e a profecia de Alceu/Tristão tão claras. Fico pensando como nosso querido dr. Alceu acompanharia com expectativa feliz os primeiros meses de Francisco como anúncio, lembrando João XXIII, de uma “flor de inesperada primavera”.

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