Especialistas se reúnem para falar sobre o ''fator Francisco'' na Georgetown University

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10 Outubro 2013

Foi um grande desafio para um centro de estudos iniciante: como causar uma boa primeira impressão em uma cidade onde os centros de estudos são tão comuns quanto as cafeterias.

O novo papa mostrou-se à altura da tarefa, chamando muita atenção para a Iniciativa sobre o Pensamento Social Católico e a Vida Pública da Georgetown University. O seu evento inaugural da última terça-feira, uma discussão sobre "O fator Francisco: Implicações do Papa Francisco e do pensamento social católico para a vida pública norte-americana", teve que ser transferido do seu local original que acomodava algumas centenas de pessoas para o célebre Gaston Hall, um espaço há muito tempo associado com dignitários e detentores de poder, que comporta mais de 700 pessoas. Ele ficou lotado, e a multidão incluía uma representação significativa de pessoas e de estudantes mais jovens.

A reportagem é de Tom Roberts, publicada no sítio National Catholic Reporter, 03-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Embora a noite tenha sido suave quanto a detalhes sobre como esse papado de seis meses de idade pode afetar a vida pública em um país que recém-chegou a um impasse sobre o orçamento e uma lei da saúde, não houve escassez de fatores-Francisco que mantiveram a conversa animada entre o painel de analistas e especialistas católicos.

John Carr, diretor da iniciativa e moderador da noite, abriu o encontro se perguntando o que um editor, antes de Francisco, diria sobre o esboço de um livro que começasse com a primeira renúncia de um papa em 600 anos e que se seguia com a eleição de um velho jesuíta que andava de ônibus para trabalhar como o arcebispo de Buenos Aires, Argentina; que anuncia uma Igreja para e dos pobres; que vive em uma casa de hóspedes em vez do palácio papal; e que passa a Quinta-feira Santa lavando os pés de jovens na prisão.

"Ele diria: não desperdice o seu tempo nem o meu", disse Carr. "Bem, eu não posso deixar de esperar pelo próximo capítulo".

Francisco também pareceu ajudar a ambição da iniciativa de "promover o diálogo civil e a colaboração pelo bem comum". Kim Daniels, fundadora da Catholic Voices USA, um grupo militante conservador, e porta-voz do presidente da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos, disse que Francisco está convocando os membros da Igreja "a ir além da cansativa divisão liberais-conservadores que muitas vezes tem nos colocado uns contra os outros" e "tem nos impedido de trabalhar juntos pelo bem comum".

Embora grande parte da discussão tenha sido sobre as diferenças e as correções que Francisco tem operado no papado e na cultura vaticana nos últimos seis meses, Daniels descreveu um continuum ininterrupto do "papado heroico de João Paulo II" ao "pontificado de ensino de Bento XVI" ao "pontificado pastoral de Francisco".

O colunista do New York Times e analista político da TV pública dos EUA David Brooks, apresentado como o não católico que traria o ponto de vista "forasteiro" ao processo, expressou algumas das ideias mais eruditas dos especialistas e levantou a sugestão solitária de um ponto negativo em Francisco. Vindo de fora, Brooks disse: "Tem a ver menos com o aborto, menos com o casamento gay, e mais com uma contracultura, uma contracultura abrangente".

Ele considerou o fato de Francisco ter assumido que "eu sou um pecador" como a frase mais importante da sua recente entrevista às publicações jesuítas. "É isso que o cristianismo representa".

Brooks disse que, nos últimos anos, a Igreja "tem adotado algumas das munições do mundo" para lutar contra as forças do mundo. Ao se engajar nessas mesmas forças, Francisco "adotou os poderes de Cristo. E se trata de uma série de poderes inversos, irônicos e paradoxais. Você enfrenta o orgulho com a humildade, você enfrenta a agressão com a renúncia, você enfrenta alguém que é materialista com a graça. Há um poder irônico em todas essas forças. Então, para mim, a sua presença está realmente introduzindo uma contracultura espiritual que transcende a Igreja Católica e transcende o cristianismo".

Brooks previu que Francisco será uma "figura carismática" no nível de João Paulo II. Mas ele também levantou a possibilidade de que a "modéstia epistemológica" do papa, a sua vontade de admitir o que não sabe, e o fato de que "o núcleo da mensagem de Francisco é a pessoa de Francisco" pode deslizar em "sentimentalismo".

A Igreja é mais do que "uma instituição do sentir-se bem", disse Brooks. "É uma doutrina e um credo". Se a Igreja perder o contato com a doutrina que "às vezes deixa as pessoas do lado de fora desta sala desconfortáveis" e se centrar, ao invés, em "um homem charmoso que lava os pés das pessoas, então você estará perdendo algo elementar para a Igreja".

Carr respondeu que "a palavra mais importante na vida católica é 'e', neste caso o fato de combinar esse personalismo que lava os pés e se encontra com o migrante com um conjunto de ideias". Francisco, disse, "está desafiando a Igreja para compreender tanto as ações quanto as palavras".

Alexia Kelley, presidente e CEO da Fadica, uma rede de fundações e filantropos católicos, disse que Francisco "fala do coração ao nossos corações" e oferece uma alternativa à crise na liderança evidente na cultura política de hoje. Kelley, diretor-fundador dos católicos liberais da Aliança para o Bem Comum e coeditor da revista Living the Catholic Social Tradition, disse que a crise tem a ver com o próprio sentido da liderança e se ela deve estar voltada ao serviço ou ao poder. "Eu acho que o papa Francisco está realmente iluminando o sentido de uma liderança servidora".

Mark Shields, antigo analista, junto com Brooks, do programa PBS NewsHour, disse que ele não conseguia pensar em outra figura pública que tivesse elevado o nível do discurso público tão rapidamente.

"É surpreendente", disse, especialmente para alguém que não gosta de dar entrevistas.

Ele disse que acha que os amigos que são católicos "voluntariamente retirados" estão "mais animados por este papa, penso eu, do que por qualquer outro desenvolvimento único na história recente".

Shields disse que está impressionado com a humildade de Francisco e a capacidade do papa de fazê-lo sorrir.

"Eu não experimentava isso desde João XXIII", que foi eleito em 1958 e convocou o Concílio Vaticano II (1962-1965).

"Acima de tudo", disse Shields, "ele faz as perguntas que todos nós temos que responder. Não: 'Você está melhor?', mas sim: 'Nós estamos melhores? Os mais fortes entre nós são os mais justos? Eles são mais humanos? Eles estão mais engajados? Os mais fracos entre nós são mais seguros, mais confortados e mais valorizados?' Para mim, esse é um valor que nós precisamos desesperadamente neste país e neste mundo".

Como diretor do Departamento de Justiça, Paz e Desenvolvimento Humano dos bispos dos Estados Unidos por mais de 20 anos, Carr foi muitas vezes o rosto da doutrina social católica na cena pública. Ele foi apresentado pelo cardeal de Washington, Donald Wuerl, que endossou fortemente a iniciativa.

Carr disse que o novo projeto tentará atravessar fronteiras políticas, confessionais e de fé ao relacionar o ensino social católico às questões do dia. Ele disse que o instituto "poderia fazer conexões claras: defender a vida e a dignidade humanas, promover os direitos e as responsabilidades humanos, praticar a solidariedade e a subsidiariedade, proteger o nascituro e os pobres".

Um interesse particular, disse, é encorajar a próxima geração de lideranças católicas para ver a fé "como um dom, não como um fardo; um modo de vida, não apenas um conjunto de regras; e um chamado à participação na vida pública, não uma desculpa para o cinismo".

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