A Igreja de Francisco não é neutra. Artigo de Raniero La Valle

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09 Setembro 2013

O papado mudou, e a Igreja entendeu que "o seu caminho não é a neutralidade, mas sim a profecia".

A opinião é de Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano. O artigo foi publicado no jornal Il Manifesto, 07-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Da outra vez foi diferente. Os Estados Unidos bombardearam o Vietnã, Nixon ia a Roma para se vangloriar do apoio do papa, Paulo VI havia escolhido a neutralidade e, por isso, não condenava a guerra norte-americana. Foi então que um grande número de cristãos das comunidades de base, recém-saídos do Concílio, puseram-se a caminho rumo à Praça de São Pedro para pedir que a Igreja se opusesse à guerra e tirasse qualquer álibi aos bombardeios punitivos sobre o Vietnã do Norte. Mas, tendo chegado à colunata, encontraram a polícia italiana que lhes impediu o acesso à praça e os repeliu.

Desta vez, ao contrário, sobre a Síria, o papa envia aos grandes do mundo uma mensagem inequívoca: "Abandonem toda vã pretensão de ação militar, comprometam-se, ao invés, com uma solução pacífica". E, para isso, convoca, na noite de sábado, 7 de setembro, na Praça de São Pedro, cristãos de base e de cúpula, crentes de outras fés e de nenhuma fé para parar a ofensiva aérea que os Estados Unidos e a França convocaram contra a Síria, mais uma vez sem oferecer ao mundo árabe outra coisa a não ser a guerra.

Portanto, o papado mudou, e a Igreja entendeu, assim havia sido convidada a fazer pelo cardeal Lercaro (o que não lhe foi perdoado), que "o seu caminho não é a neutralidade, mas sim a profecia": ainda com João Paulo II, além disso, a Igreja Católica tinha encontrado a coragem de romper o fronte ocidental, opondo-se à agressão à Iugoslávia e aos dois conflitos do Golfo.

O que não mudou, ao invés, é a cultura laica e profana sobre a guerra, o seu refrão político: há um limiar – uma "linha vermelha" – além da qual "é preciso fazer alguma coisa", e essa alguma coisa é a guerra, que, além disso, não serve para conquistar, mas para punir, é um freio para os malvados e é um exorcismo contra as armas "más" voltado a atacar as próprias vítimas com armas igualmente más.

Também é verdade, porém, que os motivos da guerra tornaram-se cada vez menos persuasivos, de modo que os guerreiros relutantes sentiram a necessidade de pedir o aval dos parlamentos. O Parlamento inglês disse não, o Congresso norte-americano empaca e pede que, em todo o caso, se fala uma guerra com prazo, sem mortos norte-americanos e sem soldados terrestres, para não acabar como no Afeganistão e no Iraque, o Parlamento italiano está enfeitiçado e só pensa na exit strategy de Berlusconi, mas, em todo o caso, o ministro da Defesa também jejua pela paz, e as bases italianas só são prometidas em caso de uma autorização da ONU, que por sorte não chega, porque a ONU, que em termos de estatuto não tem nenhum direito de guerra, não deu nenhum mandato para ninguém bombardear a Síria.

Obama, que devia ser um presidente pacífico, corre o risco de ficar com o fósforo nas mãos, prisioneiro como é da cultura norte-americana, que o colocou novamente dentro das lógicas do passado e o fez cair em erros tipicamente norte-americanos.

O primeiro erro é aquele pelo qual ele foi criticado pelo patriarca de Antioquia dos melquitas, Gregorios III, por ter fomentado por dois anos o conflito na Síria, "alimentando o ódio e a violência", o que levou um notável fluxo de guerrilheiros estrangeiros para a Síria, uma maciça entrada de armas, um incremento de grupos islamitas e fundamentalistas, e uma grande confusão sobre o próprio atentado com armas químicas do dia 21 de agosto, pelo qual os próprios Estados Unidos, diz o patriarca, "um dia acusam as forças legalistas e, no dia seguinte, a oposição".

O segundo erro foi o de colocar sobre os serviços secretos e sobre as suas verdades a decisão sobre a guerra, quando os serviços de inteligência não têm a inteligência para decidir e nem mesmo dizem a verdade, ao contrário, são feitos justamente para dizer mentiras, como fizeram com a famosa ampola que o secretário de Estado norte-americano expôs na ONU para justificar o ataque contra Saddam Hussein.

O terceiro erro foi o de estabelecer um evento externo como "linha vermelha" para além da qual é preciso acionar a punição. E esse é o erro mais grave. É a velha ideia, herdada do West, da punição como catarse salvífica, como mítica restauração da ordem, é a ideia do justiceiro como ministro do bem, como diácono de Deus. Uma ideia que não tem nenhuma consistência política e nenhuma comprovação na realidade: as guerras não são um juízo, quem é "punido" não são os culpados, mas sim os mais indefesos, que pune não é um juiz e quem sofre a punição nunca são os autores das ações que são imputadas, mas sim povos inocentes, vítimas dos seus líderes, não menos do que dos seus inimigos.

Se o Ocidente deixasse de pensar nesses termos arcaicos, tudo poderia mudar. Ele deveria deixar de fazer ações que não poderão escapar do julgamento de Deus e da história, como disse o papa no Ângelus, sugerindo corajosamente que o juízo de Deus e da história será o mesmo. Se o Ocidente começasse a pensar em termos de relações equitativas entre Israel e povos árabes, se esforçasse para um retorno do Estado judeu no direito comum e buscasse instaurar novas relações de compreensão e de confiança entre os povos da comunidade euro-atlântica e o Islã, não haveria apenas guerras a se fazer, mas finalmente haveria uma paz a se construir.

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