A tempestuosidade de Edgar Morin. A vida é um oceano à deriva

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Por: Jonas | 10 Junho 2013

Pensar a vida, esse enorme desafio que o sujeito contemporâneo muitas vezes tem relegado ao segundo plano, é questão crucial, já que ela envolve todos os tons, cores, movimentos, ações, reações, reprodução, surgimento ou fim das espécies, etc. É preciso reconhecer que não há na biologia, física, filosofia ou sociologia elementos que sejam suficientes para trazer uma explicação satisfatória, com um ponto final sobre o mistério da vida. Ao longo da história humana diversas explicações sobre a origem, a essência e a finalidade da vida foram concebidas, mas nada foi capaz de parar essa busca insaciável do ser humano em responder o que é a vida.

Na atualidade, se existe alguém que não fugiu desse questionamento sobre a vida, é Edgar Morin. Em “O Método II: A vida da Vida”, o pensador francês faz um gigantesco esforço para sistematizar e refletir acerca das contribuições das ciências, especialmente da biologia, na interface com a filosofia, para um melhor entendimento da vida, de uma maneira mais ampla. Algumas destas reflexões foram expostas pela professora Izabel Petraglia (FMU) (foto), no terceiro encontro do Ciclo de Estudos sobre “O Método” de Edgar Morin, realizado pelo Cepat/CJ-Cias, em parceria com a Pastoral da PUCPR, ocorrido no último sábado, 8 de junho, em Curitiba.

Para Edgar Morin, “a vida é um oceano à deriva” e as reflexões que dela se retira não são encerradas em verdades eternas, muito menos, produzem caminhos seguros, com descobertas consoladoras. As falsas certezas excluem o erro e a ilusão e não parece conveniente buscar construir o conhecimento sobre “uma rocha de certeza”. Portanto, a contribuição de Morin, em “A vida da Vida”, não visa abarcar a vida e nem fazer uma síntese dela, mas alcançar um princípio do conhecimento que possa abarcar a vida e o conhecimento do conhecimento da vida. Em outras palavras, adeus aos velhos esquemas prontos, com fundamentos indissolúveis, como ponto de partida irrefletido, uma vez que na complexidade não há plenitude, assim, resiste-se à tentação de almejar encarcerar o real em algum sistema de pensamento e de classificação.

A vida, o modo de organização de ser, de existência, precisa ser pensada dialogicamente. Para isto, Morin concebe como fundamental a religação dos saberes. Para isto, é impossível desconsiderar as contribuições diversas da ciência (biologia, física, química), como também da filosofia, da sociologia, etc., contudo, estas devem ser pensadas em conjunto, e não separadamente. Neste sentido, a professora Petraglia destacou o próprio sentido da palavra “complexus”, um termo latino que significa “o que é tecido junto”. Assim, a vida é pensada a partir do pensamento complexo, que não separa, mas une e integra as relações necessárias e interdependentes de todos os seus aspectos. O pensamento complexo busca respeitar a riqueza, o mistério e o caráter multidimensional do real.

"O Método II: A vida da Vida" é organizado em cinco partes. Cabe, aqui, uma breve pincelada sobre cada uma delas:

1. A ecologia generalizada. “Oikos”. Morin destaca que a ecologia, uma ciência nova, rompe com os princípios do paradigma científico clássico, que isola os objetos. Conceitos chaves como ecossistema e eco-organização são destacados. Evidencia-se a trilogia ordem, desordem, organização, na forma como a vida se organiza, desorganiza-se, reorganiza-se, sem necessariamente ser pensada nesta ordem, evitando-se o pensamento estático. Nesta dimensão, Morin enfatiza os operadores da complexidade:

a) o dialógico, em que considera a união de termos opostos e contraditórios como complementares (por exemplo, a vida e a morte);

b) o recursivo ou recorrente, com processos em circuitos: causa/efeito/causa;

c) o hologramático, que apresenta o aparente paradoxo dos sistemas. A parte está no todo, assim como o todo está na parte. A figura do caleidoscópio ilustra bem esta forma de conceber o real.

Nesta parte, a professora Petraglia também destacou alguns conceitos chaves no pensamento de Morin, como ecologia da ação, ressaltando que por vezes a ação humana foge da sua vontade e entendimento, adquirindo um sentido diferente do que tinha inicialmente. Assim como, também, a ecologia das ideias, enfatizando que o ser humano possui ideias, mas que também as ideias possuem o ser humano (teorias, ideologias, mitos, deuses, etc.). Também quando se escreve uma obra, esta é passível de muitas interpretações, de ganhar sentidos diferentes daquele que o autor pensou inicialmente, o que pode ser chamado ecologia das obras.

2. A autonomia fundamental. “Autos”. O ser vivo possui o instinto de salvaguardar a sua própria vida. O ser humano é parte da natureza, mas também é produtor de cultura. Assim, é 100% natureza e 100% cultura. Ninguém se produz sem o meio, mas também não é totalmente dependente deste meio, assim, só é possível a autonomia porque também existe a dependência. Para conceber o indivíduo vivo é necessário juntar termos antagônicos. Sem perceber as relações mútuas e as influências recíprocas e complementares entre as partes e o todo complexo, a vida se torna ainda mais indecifrável.

É na relação de alteridade que o sujeito se percebe como tal, ou seja, quando é capaz de enxergar e reconhecer o outro. O eu só existe na relação com o tu. É quando surge o nós. Neste ponto, a professora Petraglia destacou que aquilo que diferencia o ser humano de um animal não é a inteligência, mas a consciência. Somente o ser humano, em sua subjetividade, pode pensar a si próprio, bem como suas ações e o modo como existe e é no mundo. Dentre as muitas polaridades do ser humano, o Homo Complexus, pode-se evidenciar que ele é racional e irracional, capaz de medida e de desmedida, de violência e de ternura, etc.

3. A organização das atividades vivas. Nesta parte, Morin faz uma crítica ao pensamento hegemônico da sociedade moderna, ao mesmo tempo, apresenta uma visão dialógica do desenvolvimento social e do progresso global. Entre as polaridades presentes neste cenário de desenvolvimento e progresso, é possível destacar pontos positivos como uma maior distribuição de renda, ampliação do consumo, conforto, direitos humanos, da mulher, cura de doenças, geração de empregos, intercâmbios internacionais, etc. Como também os negativos: armas nucleares, diversos problemas ambientais, individualismo, conflitos étnico-religiosos, disjunção entre ciência e humanidades, fragmentação do conhecimento, etc.

4. “Re”: do prefixo ao paradigma. Aqui, Morin evidencia a capacidade do ser vivo de regeneração, de religação. Assim destaca-se também a reforma do pensamento, da religação do pensamento racional-lógico-dedutivo, mítico-mágico-imaginário, numa concepção transdisciplinar. Neste sentido, para Morin: “Tudo o que é novo deve incessantemente recomeçar-se, reconstruir-se, regenerar-se, e só pode fazê-lo inscrevendo-se no antigo, sem, no entanto, ser reabsorvido pela repetição do antigo” (“A vida da Vida”, Publicações Europa-América, 1999).   

5. Para compreender o vivo. “Bios”. Nesta última parte, Morin recapitula a complexidade física da vida, inscrita na versatilidade de sua existência. Nada melhor do que o próprio esclarecimento de Morin: “A vida apresenta-se sob caracteres tão diversos que nenhuma definição consegue abarcá-los e articulá-los em conjunto. Logo que queremos aprender a sua unidade, faz surgir noções que deveriam excluir-se umas às outras. É unidade física, e é diferente de todos os outros fenômenos físicos. É espécie e é indivíduo. É descontinuidade (nascimentos/existências/mortes) e é continuidade (ciclos, anéis, processos). É reprodução e é trocas” (“A vida da Vida”, Publicações Europa-América, 1999).

Ao final do debate, a professora Petraglia salientou que a parte conclusiva de “A vida da Vida” é apontada por Morin como uma inconclusão, algo muito próprio de um pensador com o espírito tão aberto e livre do cientificismo. Além disso, no final do livro, Morin também escreveu uma reintrodução da obra, apontando limites e considerações importantes acerca de suas reflexões anteriores.

Com uma forma de exposição dinâmica, utilizando-se de vídeos curtos, relacionados com o tema, a professora Izabel Cristina Petraglia encerrou suas contribuições destacando dois princípios éticos fundamentais nas reflexões de Morin sobre a vida: a responsabilidade e a solidariedade. Em seguida, após um rico debate com os participantes do ciclo de estudos, Petraglia encerrou o debate com a força poética da composição de GonzaguinhaO que É, o que É?”, uma bela canção que demonstra os vários sentidos que se pode dar à vida.

O texto é de Jonas Jorge da Silva, membro da equipe do Cepat/CJ-Cias, e as fotos de Sidney Lemes, da Pastoral da PUCPR

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