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Por: André | 25 Abril 2013

O programa Lectura Mundi (Unsam) lança uma nova página na internet com material audiovisual inédito e de livre acesso. Como antecipação, publica-se aqui parte de uma entrevista de Alain Badiou, que reconstrói sua passagem pela universidade e a origem das suas ideias.

A entrevista é de Verónica Gago e publicada no jornal Página/12, 22-04-2013. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Gostaria que começasse por uma espécie de relato de seus anos de formação na universidade, reconstruísse o clima, os debates dessa época e a influência de seus mestres Sartre e Althusser.

Terminei meus estudos secundaristas em Provence. Nasci no Marrocos e depois a minha infância transcorreu em Toulouse, no sul da França. Quando estava terminando meus estudos houve dois acontecimentos importantes na minha vida. O primeiro, efetivamente, foi ler Sartre desde muito jovem, e o segundo foi o começo da guerra da Argélia. Creio que há algo como o destino, pois desde o princípio houve uma relação entre o problema político, muito grave, entre a luta anticolonialista e a filosofia. Esta relação entre política e filosofia constituiu-se na minha vida quando ainda era jovem. Depois fui para Paris, à Escola Normal Superior, onde Althusser era professor de filosofia. Ele reforçou esta relação natural entre a filosofia e a política, já que se propunha, primeiro, a transformar o marxismo de maneira filosófica, para depois influir na política do Partido Comunista Francês. Então, para as primeiras influências, está Sartre e depois Althusser; as duas se dirigiram para um compromisso, mas estreitamente vinculado com a filosofia.

Como irrompeu o acontecimento de 1968?

É preciso considerar também o período dos anos intermediários, pois durante todo o tempo que estive na Escola Normal Superior acontecia a guerra da Argélia. Esta guerra foi algo terrível, esquecemos isso um pouco. Foi de uma violência extrema, centenas de milhares de jovens franceses participaram. Houve torturas e violência nas próprias comissárias parisienses. (...) Foi um período em que participei da política na sua forma violenta. Me comprometi a agir contra tudo isso, ocupou muito do meu tempo. Nesses anos me tornei uma espécie de rebelde, de militante. (...) Quando termino os estudos, me nomeiam professor em uma cidade da Provence, e é quando acontece o Maio de 68. E será uma mudança radical da minha vida, das minhas concepções e da minha filosofia. Por duas razões: a primeira é que participava pela primeira vez de um acontecimento positivo. Havia um vínculo que se estabelecia entre os militantes populares e os militantes operários; e havia ideias de libertação, de emancipação, que se discutiam em toda a França. Não era como a luta contra a guerra da Argélia que era uma resistência difícil e negativa. Ao contrário, neste caso, era como um nascimento, como algo que surgia, era um pouco como uma primavera da vida e da ação. A guerra da Argélia era como um inverno. Esta é então a primeira razão, e me deu a convicção de que o que realmente muda a vida das pessoas é quando se produz algo que é afirmativo, aquilo que propõe realmente algo novo. Mais tarde chamarei a isso de acontecimento. Nessa época o vivia, ainda não o havia nomeado. A segunda razão é que me dei conta de que tudo isto tinha também uma ressonância mundial. (...) Então tentei, filosoficamente, pensar a relação entre a ação local, Maio de 68, parisiense e francês, e os grande processos históricos, o cenário mundial. Me dei conta de que a filosofia é também um meio para pensar ao mesmo tempo o que está à vista, o que se experimenta. Isto me deu uma nova ideia da relação entre filosofia e política.

Então foi também uma experiência de internacionalismo.

Foi uma experiência concreta de duas coisas fundamentais. A primeira, como você disse, a do internacionalismo, a necessidade de pensar as coisas na maior escala possível; e a segunda, foi a relação muito estreita entre pessoas de origem social muito diferente. Ou seja, a barreira que existe entre os intelectuais e os trabalhadores manuais, entre os operários e os empregados, os funcionários e o resto da população. Tudo isso se apagou um pouco, se demoliu. (...)

Nesse mesmo período você começa também a discutir as ideias de Lacan?

Sim. Tudo isso começou no mesmo momento. Lacan é muito importante por uma razão que segue sendo hoje fundamental. Filosoficamente, tudo isso acontece no momento em que existe o que se chama estruturalismo. O estruturalismo é uma visão do pensamento e da filosofia muito vinculada com a ciência. É a afirmação de que é possível analisar objetivamente a situação, descobrir as estruturas; e também é a ideia de que nós somos o resultado de estruturas; que a vida humana está estruturada, muitas vezes de maneira inconsciente, mas são as estruturas que lhe dão seu senso de estabilidade. Lacan intervém, no âmbito da psicanálise, desde esse ponto de vista, mas mantém a categoria de sujeito. E isso é decisivo. Tenta fazer uma espécie de síntese entre o pensamento das estruturas e a vida do sujeito. Vai dizer: evidentemente, há estruturas, mas o sujeito não se reduz às estruturas, há uma margem de liberdade, de desejo, que faz com que não se possa reduzir tudo às estruturas. E me apaixonei por Lacan porque tinha o mesmo problema em política. Acaso a economia, as relações sociais, de classe, são estruturas que determinam a ação ou é possível ser um sujeito ativo, prático, que não se reduz às estruturas sociais e econômicas? Lacan nos dava ferramentas para lutar contra o economicismo na política, ou seja, a ideia de que a economia decide tudo.

Imagino que essa discussão era especialmente dramática nos anos 1980, no período da reação e da polêmica com os novos filósofos.

Evidentemente, eram os belos anos vermelhos, como os chamávamos. Depois veio a grande reação dos anos 1980, e nessa reação o problema foi organizar uma espécie de resistência, que era também intelectual, filosófica, contra as ideias reacionárias que voltam com força. E esse é um período de resistência, um período difícil, também de isolamento porque muitos jovens intelectuais que se haviam comprometido com o movimento posterior a Maio de 68 se retiraram com posições totalmente reacionárias. (...) Foi necessário trabalhar muito para mostrar que uma filosofia da emancipação, da criação da liberdade humana era possível, inclusive no meio do surto reacionário.

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