''A guerra jamais será um instrumento de justiça''. Entrevista com Bartolomeo Sorge

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14 Abril 2013

A 50 anos da “Pacem in Terris” mudam-se os equilíbrios internacionais e os problemas, mas os fermentos da encíclica são sempre atuais.

O quinquagésimo aniversário da encíclica é, portanto, a melhor ocasião para repropor a mensagem de João XXIII: a paz é possível e um mundo diverso, mais fraterno e mais justo é possível.

A entrevista com Bartolomeo Sorge, jesuíta, ex-diretor da revista Civiltà Cattolica, é de Luca Rolandi e publicada pelo jornal La Stampa, 11-04-2013. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis a entrevista.

Pacem in Terris cinquenta anos após. A última pérola de João XXIII à Igreja do Concílio. Quão atual ainda é a encíclica?

A encíclica Pacem in Terris, escrita por João XXIII pouco antes da sua morte em 1963, contém sua acurada e forte mensagem em favor da paz no mundo. É encantador que seu 50º aniversário seja hoje celebrado por todos, já que foi a primeira vez na história que uma encíclica papal é endereçada não só aos bispos e fiéis da Igreja, mas – como o Papa Rocanlli acrescentou de seu próprio punho no título – também “a todos os homens de boa vontade”.

E é justo que seja assim. Não só pelo tema abordado, que diz respeito a todos, mas também porque o Papa teve a força profética de convencer todos  (crentes e não crentes) a crerem na possibilidade da paz num momento dramático: depois que, dois anos antes, em 1961, tinha sido erguido o “muro de Berlim” que rachava o mundo ao meio; depois que, seis meses antes, em novembro de 1962, a humanidade se encontrara à beira da guerra no Vietnã estava se emaranhando sempre mais perigosamente. Não obstante tudo isso, João XXIII, lendo com fé “os sinais dos tempos”, conseguiu colher alguns fermentos novos que vinha amadurecendo na consciência do nosso tempo e que incutiam esperança. Soube interpretá-los e conseguiu assim impostar um discurso sobre a paz com a ova mentalidade.

De fato, João XXIII, homem de fé profunda, estava convicto que a guerra não é jamais uma fatalidade; propõe-se, por isso, reforçar positivamente a paz, fundada na carência que a humanidade, em via de globalização, tem hoje de um humanismo novo e integral: “Se difunde sempre mais entre os seres humanos a persuasão – escreve – que as eventuais controvérsia entre os povos não devam ser resolvidas com o recurso às armas; mas, ao invés, através da negociação”; e conclui: “neste nosso tempo, que se vangloria de possuir a força atômica, é irracional [alienum est a ratione, diz o texto latino original, muito mais forte que a tradução: “acaba sendo quase impossível!] pensar que a guerra ainda possa ser um instrumento apto para reparar os direitos violados” (Enchiridion Vaticvanum, 2, n.43)”.

A paz como ausência de guerra é um conceito superado. O documento de João XXIII ainda é atual e em que aspectos?

Em 50 anos o mundo mudou e também mudaram as ameaças de guerra”. A humanidade hoje não é mais dividida em duas pelo muro de Berlim, mas, outros muros divisórios se consolidaram, como aqueles da pobreza e da fome, do egoísmo e do racismo; a ameaça da guerra atômica cedeu seu lugar ao terrorismo internacional. Outros desafios ameaçam a paz: os fluxos migratórios em contínuo aumento e irrefreáveis; as crescentes desigualdades de um crescimento econômico, cultural e tecnológico, injusto e discriminante, “que oferece a poucos afortunados grandes possibilidades, deixando milhões e milhões de pessoas não só as margens do progresso, mas submetidas as condições de vida bem abaixo do mínimo devido à dignidade humana” (João Paulo II, novo milênio ineunte [2001], n.50).

Estas são tantas outras tantas ameaças para a paz, embora seja verdade que nestes 50 anos, se reforçaram alguns “sinais dos tempos” mais positivos (se pense, por exemplo, nos milhões de jovens voluntários que se dedicam ao serviço dos mais necessitados ou na atenção crescente pela salvaguarda do criador), que anunciam um amanhã melhor, antecipam maior compreensão entre os povos, promovem um desenvolvimento mais equânime. Também na Igreja mudou mais vezes o clima de 1963, quando foi escrita a Pacem in Terris. Há meio século da abertura do Concílio Vaticano II, a Igreja passou através de provas e humilhações que lhe deram novo entusiasmo, até fazê-la parecer fatigada, a ponto de Bento XVI, num ato extraordinário de coragem e humildade, renunciar ao Pontificado.

Então, o otimismo do Papa João e da Pacem in Terris, era ilusório? Seria talvez errôneo o acento que a encíclica coloca sobre a necessidade da contribuição da consciência religiosa à obtenção da paz?

Contrariamente, imprevista e imprevisível, deu-se a eleição do Papa Francisco. Ela trouxe consigo um vendaval de otimismo, restituindo novo vigor a atualidade, simultaneamente, tanto à mensagem da Pacem in Terris, como à herança do Concílio. Uma vez mais, a história confirmou as intuições proféticas da encíclica, muito além das previsões mais pessimistas. É importante realçar, o retorno de um clima espiritual e de esperança, análogo àquele que se respirava em 1963, nos inicios do Concílio, capaz, sim, de infundir esperança na opinião pública mundial e no próprio interior da Igreja.

Paz interior, entre os homens e como dom. A dimensão religiosa da Pacem in Terris.

Se agora nos perguntamos quais são os fermentos vitais que demonstraram mais fecundos e ainda tornam atual a Pacem in Terris, agrada-nos realçar três.

O primeiro fermento é a afirmação que a paz se funda essencialmente na consciência na dignidade da pessoa e dos direitos humanos, e não sobre o Estado, não sobre a etnia, não sobre a ideologia. O Papa certamente não nega a importância dos ordenamentos jurídicos aos fins da paz e retorna mesmo com força sobre a necessidade de se rever o papel das instituições internacionais, a começar pela ONU.

Sublinha, no entanto, o fato de que as instituições por si sós não bastam. Numa humanidade globalizada exige-se Que a paz seja compreendida e garantida em termos de consciência universal. Sem uma visão planetária, e até mesmo transcendente, do homem e da história, a paz não rege. Pega fogo um canto da Terra, pega fogo o mundo. A paz é um todo indivisível. Embora não houver paz em Jerusalém e no Oriente Médio, não haverá paz no mundo inteiro. Sem a paz interior, entre os homens, e sem a consciência que ela é dom de Deus a acolher e custodiar responsavelmente, jamais haverá verdadeira paz.

Segundo fermento, ainda vital, é a total condenação da guerra, dando superada definitivamente a própria concepção de “guerra justa.” A preocupação da encíclica Pacem in terris não é mais aquela do tradicional ensinamento da Igreja, tendente a determinar as condições da guerra justa e a limitar os efeitos desumanos de eventos bélicos considerados inevitáveis. Para Papa João XXIII, a guerra jamais poderá se instrumento de justiça. Não tem sentido, portanto, continuar na corrida aos armamentos: “se reduzam, simultaneamente e reciprocamente, os armamentos já existentes: se ponham de lado as armas nucleares; e se chegue finalmente ao desarmamento integrado por controles eficazes”. Faz certo efeito que estas palavras tenham sido ditas há 50 anos!

O terceiro fermento, que se revelou particularmente fecundo, é a afirmação de um princípio que, em 1963, pareceu “revolucionário”: Não se deverá jamais confundir o erro com o errante – afirma a encíclica –, também quando se trata de erro ou de consciência inadequada da verdade em campo moral e religioso”, ao invés – prossegue – “os encontros e os acordos, nos vários setores da ordem temporal, entre os que creem  e os que não creem ou creem de modo inadequado, porque aderem a erros, que podem ser ocasião para descobrir a verdade de prestar-lhe homenagem”.

De fato – explica João XXIII –, as doutrinas e as ideologias falsas sempre permanecerão tais: mas, os movimentos históricos por ela originados e inspirados estão sujeitos  a mudanças igualmente profundas, em seguimento ao mudar das situações históricas. “Além disso – nos solicita a encíclica– quem pode negar que nestes movimentos, na medida em que são conformes aos ditames da reta razão e se fazem intérpretes das justas aspirações da pessoa humana, haja elementos positivos e merecedores de aprovação?” A partir disso a conclusão que a muitos pareceu explosiva: Pode, portanto, verificar-se que ima aproximação ou um encontro de ordem prática, ontem considerada inoportuna ou infecunda, hoje, ao invés, seja tal ou possa tornar-se tal amanhã”.

Em virtude deste princípio, a Pacem in terris abria a possibilidade de um carinho comum e compartilhado por todos em direção à paz, situado além das rígidas barreiras ideológicas. Ao mesmo tempo, a encíclica colocava as bases do reconhecimento, que depois advirá formalmente com o Concílio Vaticano II, da plena responsabilidade e da legítima autonomia dos fiéis leigos no plano do empenho social e político, fundadas sobre uma nova concepção positiva de laicidade. A laicidade é valor cristão! O quinquagésimo aniversário da encíclica é a melhor ocasião para repropor suma mensagem sempre viva.

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