Papa Francisco, a oração ouvida de tantos cristãos. Artigo de Enzo Bianchi

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08 Abril 2013

A escolha do nome, as primeiras palavras e os primeiros gestos do Papa Francisco, a sua simplicidade evangélica, a sua insistência na "misericórdia que torna o mundo mais justo", como práxis cotidiana da Igreja, começando pelos confessores que acolhem os penitentes, são sinais de uma Igreja que quer ser Mater et Magistra através do remédio da misericórdia, para usar duas expressões de João XXIII.

A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado na revista Jesus, de abril 2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Na coluna do mês passado, concebida como uma espécie de carta aberta, eu havia expressado alguns desejos aos cardeais eleitores. Em particular, eu escrevia que "a Igreja precisa olhar, hoje como sempre, para os pastores que sejam sólidos na fé para governar o povo de Deus, capazes de discernimento para compaginá-lo em unidade como Corpo de Cristo, exercitados na misericórdia para anunciar eficazmente o rosto amoroso de Deus na remissão dos pecados".

Com grande alegria, posso dizer que fui respondido para além de toda expectativa. A escolha do nome, as primeiras palavras e os primeiros gestos do Papa Francisco, a sua simplicidade evangélica, a sua insistência na "misericórdia que torna o mundo mais justo", como práxis cotidiana da Igreja, começando pelos confessores que acolhem os penitentes, são sinais de uma Igreja que quer ser Mater et Magistra através do remédio da misericórdia, para usar duas expressões de João XXIII.

Assim, ainda na primeira missa presidida pelo novo bispo de Roma e celebrada juntamente com os "irmãos cardeais" na Capela Sistina, o evangelho do primado de Pedro foi relido em uma ótica comunitária. O papa não fala de si mesmo e das próprias prerrogativas, mas sim da tarefa que espera por todos os discípulos do Senhor: caminhar, edificar, confessar.

Como na noite anterior, da sacada, o papa não usa o "nós" majestático, não fala nem em primeira ou em terceira pessoa do singular, usa outro "nós", o "nós" da comunhão, o "nós" de quem continua em um caminhar juntos empreendido com determinação.

A exortação do papa se enraíza nos três trechos da Escritura proclamados, busca a sua unidade, a evidencia na temática do "movimento". Movimento que é caminho à presença de Deus, à luz do Senhor, caminho constante e irrepreensível, como o de Abraão, porque, se pararmos, "a coisa não vai", muito simplesmente, não vai.

Movimento que é edificação da Igreja com "pedras vivas, ungidas pelo Espírito Santo" sobre a "pedra angular é o próprio Senhor". Nenhuma menção a Pedro, a Rocha, apesar de que quem está falando é o seu sucessor, apesar de o Evangelho indicar claramente esse papel fundador: não, quem tem o primado é o Senhor, a Igreja pertence a ele, é "a Esposa de Cristo", não "uma ONG devota", talvez liderada por um bom presidente.

Movimento, ainda, que é confissão de fé porque, "se não confessamos Jesus Cristo, a coisa não vai". Novamente, o plural da comunidade, mais uma vez aquela simples, radical, desarmante constatação: a coisa não vai. Mas esse "não ir" tem consequências gravíssimas, porque significa que "confessa-se a mundanidade do diabo".

Certamente, nem todo movimento é funcional ao caminho cristão, há "movimentos que nos puxam para trás", que nos afastam do Senhor, movimentos estranhos ao contínuo processo de conversão, ao qual todo cristão é chamado. São esses os movimentos feitos para buscar evitar a cruz.

É somente nesse ponto que o Papa Francisco cita Pedro, mas parafraseando os versículos posteriores do Evangelho do primado recém-proclamado: "Eu te sigo – diz a Jesus –, mas não falemos de cruz. Isso não tem nada a ver. Eu te sigo com outras possibilidades, sem a cruz". E aqui o sucessor de Pedro chega a uma afirmação extremamente forte: "Quando confessamos um Cristo sem cruz, não somos discípulos do Senhor: somos mundanos, somos bispos, padres, cardeais, papas, mas não discípulos do Senhor".

Novamente, o nós da comunhão, o nós dos pobres discípulos que lutam para permanecer fiéis ao seu Senhor e Mestre, que tentou fugir da cruz, que gostariam, sim, de caminhar, edificar e confessar, mas a um baixo preço, sem riscos, talvez em meio à aclamação de multidões exultantes.

Eu não sei que reação despertam palavras como essas em um leitor externo à Igreja. Ao invés, eu sei quais efeitos afiados e benéficos, benéficos por serem afiados, elas provocam em todo cristão: remetem-nos ao coração da fé e do seu testemunho na companhia das pessoas, dizem-nos novamente com parrésia as exigências do Evangelho, conduzem-nos ao essencial da vivência cristã.

E fazem isso em uma modalidade de comunhão restaurada, de partilha do caminho: as palavras e gestos do Papa Francisco nestes primeiros dias do seu ministério petrino representam uma lufada de frescor evangélico, que mostram como possível o caminho de purificação da Igreja, o "salto à frente" defendido pelo Papa João XXIII na abertura do Concílio.

Mais do que o início de um pontificado, aparecem a continuação de um autêntico syn-odos, de um "caminho juntos", que muitas vezes obstaculizamos com disputas, contraposições, divisões, pretensões de primazia ou de exclusividade. Como cristãos, não devemos nunca nos esquecer de que a seriedade, a autenticidade do nosso anúncio, do nosso viver, esperar e lutar em meio aos nossos irmãos e irmãs em humanidade, do testemunhar que temos uma razão para viver tão grande a ponto de dar sentido também ao nosso morrer depende da qualidade daquele "juntos" com o qual nos colocamos no rastro traçado por Jesus de Nazaré.

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