Filha do presidente de Angola é a mulher mais rica da África

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04 Abril 2013

Uma espessa névoa desce sobre Londres enquanto caminho rumo a Mayfair para encontrar-me com a mulher mais rica da África. Parece apropriado. O nome de Isabel dos Santos ficou mais conhecido desde que, no início de março, a revista Forbes publicou que ela é a primeira bilionária do continente, mas em sua Angola natal ela pertence a uma elite que é tão sigilosa que tem sido descrita como uma "criptocracia" (governo secreto). Seu pai, José Eduardo, é o presidente de Angola há 33 anos. Famoso por sua impenetrabilidade, ele mantém seu petro-Estado, potência continental em ascensão e um dos maiores fornecedores de petróleo à China, sob o mais estrito controle. Seu regime, segundo críticos, tornou-se sinônimo de desvio de recursos públicos para bolsos privados.

A reportagem é de Tom Burgis, publicada no jornal Financial Times e reproduzida no jornal Valor, 04-04-2013.

Isabel dos Santos, sua filha mais velha, é considerada um símbolo da confluência de poder e riqueza em Angola. Tentei entrevistá-la por mais de um ano e, apesar das repetidas afirmações de assessores de que ela não a concederia, Isabel concordou em almoçarmos durante uma viagem de negócios ao Reino Unido. Ela escolheu o Scott, um badalado restaurante especializado em peixes frequentado por operadores de fundos de hedge e celebridades como Bill Clinton e Tom Cruise.

Chego dez minutos antes do combinado, mas surpreendo Isabel atravessando as portas à minha frente. Apertamos as mãos e ela inicia uma conversa sussurrada, em português, com seu relações públicas, enquanto permaneço, inquieto, nas proximidades. O assessor é, finalmente, despachado, e somos levados a nossos lugares sob um enorme toldo desenhado por Fiona Rae. Isabel ostenta brincos deslumbrantes cravejados de diamantes. As pedras preciosas são abundantes em solo angolano. Elas ajudaram a financiar a campanha rebelde contra o presidente José Eduardo durante a intermitente guerra civil que estourou quando o país conquistou a independência de Portugal, em 1975.

Bebericamos água mineral e examinamos o menu. Isabel, 39 anos, parece a um só tempo segura de si e pouco à vontade, posicionando e reposicionando seus talheres. Morando na capital, Luanda, onde hotéis cinco estrelas convivem lado a lado com favelas ao longo da costa atlântica, ela conhece bem os frutos do mar. Como muitos dos moradores mais ricos da cidade, ela curte passar uma noite na Ilha, uma faixa de terra pontilhada de bares exclusivos com vista para o oceano.

Se estivesse lá, diz ela, pediria uma garoupa. Aqui, opta por linguado à milanesa, com purê de batata e espinafre cozido no vapor. Centrado em focar nos detalhes dos negócios de minha convidada, minha principal preocupação é pedir algo cujo consumo não exija um conjunto completo de instrumentação cirúrgica. Por isso, evito os mexilhões e elejo o halibute com caranguejo e cebolinha. Tento convencê-la a aderir a um copo de vinho. "Peçamos uma garrafa inteira", diz ela com um sorriso. Peço um chablis e pergunto se os pais dela foram realmente apresentados um ao outro pela KGB.

"Eu duvido", ela ri, disparando um sorriso para me desarmar e desconversar - na primeira de recorrentes vezes.

Isabel nasceu em 1973 em Baku, onde sua mãe, uma campeã de xadrez russa, conheceu seu pai quando ambos estudavam engenharia. O Azerbaijão era, à época, um posto avançado soviético que acolhia jovens quadros promissores de movimentos de libertação africanos alinhados aos comunistas, como o Movimento Popular de Libertação de Angola, do qual o pai de Isabel era membro. "Eles demoraram sete anos para se casar, para obter as autorizações. Eu não acho que foi a KGB, do contrário, teriam conseguido os papéis mais rápido."

No entanto, seu pai estava destinado a ser um cliente crucial dos soviéticos nos conflitos "por procuração" durante a Guerra Fria. Em 1979, morreu Agostinho Neto, presidente fundador de Angola. José Eduardo, que havia retornado a Angola para aderir à luta armada antes da independência, assumiu a Presidência. Ele está no poder desde então.

O conflito terminou em 2002 e o comunismo há muito deu lugar ao que um especialista em Angola denomina "capitalismo de compadrio". As pessoas com vínculos com o Futungo, como é conhecido o círculo presidencial (inspirado na designação "Futungo de Belas", o antigo palácio presidencial), fizeram fortunas. Mas dados da ONU sugerem que Angola não está convertendo o crescente Produto Interno Bruto (PIB) - uma expansão média de 11% entre 2003 e 2011 - em melhores condições de vida, ao mesmo tempo em que as fortunas da elite engordam.

Até mesmo alguns críticos reconhecem o talento pessoal de Isabel dos Santos como empresária. Os interesses dela incluem participações em dois bancos portugueses, BIC e BPI, num conglomerado de comunicações denominado ZON Multimédia e uma participação indireta no Galp, um grupo no setor energético com ativos em diversos países - de Moçambique à Venezuela. Mas, para os indignados angolanos pobres, ela simboliza um sistema que concentra poder e riqueza nas mãos de poucos. Eles a chamam de "a princesa", e não com afeição.

Não é de surpreender que não seja assim que Isabel vê sua vida, que ela raramente perde oportunidades para descrever como comum. Ela mesma dirige seu automóvel em Luanda, enfrentando os engarrafamentos intermináveis, como todos as outras pessoas. Trocamos os suspiros de quem já viu horas de suas vidas esvaírem-se em congestionamentos africanos. Quando declaro a hipótese de que os Estados dependentes da renda extrativa do petróleo têm os piores problemas de tráfego, ela me pergunta por que. Minha teoria diz que o desvio de petrodólares para a compra de muitos veículos 4x4, alivia a pressão sobre as autoridades para que remendem as vias - e assim permitem a multiplicação dos buracos.

Ela tece uma explicação mais otimista. "Em Luanda", diz Isabel, "eu me lembro de quando havia 300 mil carros, depois 600 mil e então um milhão de carros - e agora creio haver dois milhões de carros na cidade. Isso aconteceu realmente associado ao crescimento do mercado consumidor. Simplesmente, cresceu muito mais rapidamente do que a infraestrutura foi capaz de acompanhar".

A visão de Isabel - que supõe uma classe média em crescimento - casa com a narrativa oferecida pelos que dizem que a África está em ascensão. Porém muitos replicam que o velho modelo - no qual classes dominantes autoritárias enriquecem com a renda de petróleo e minerais, deixando os demais em uma economia informal desindustrializada - pouco mudou.

Nosso peixe chegou. Isabel ignora o purê de batatas e ataca sistematicamente seu linguado, coerente com sua formação de engenheira filha de pais engenheiros (ela diplomou-se no King's College London). "Meu pai cozinha", revela ela, ressaltando novamente suas origens simples. "Ele gosta de peixe. Nunca vivemos um clima de grandiosidade. Eu ia a pé para a escola."

Mas, quando seus pais se separaram, ela acompanhou a mãe à Europa, estudando na St. Paul's, uma escola particular em Londres. Mais tarde, no King's, ela compartilhou um quarto num pensionato nas imediações da Edgware Road. Não pela última vez, ela sugere uma vida dominada por trabalho duro. "São cerca de 23 horas de aulas por semana, mais as aulas de laboratório, mais o tempo para elaborar relatórios, de modo que não há tempo para diversão."

Talvez essas horas de laboratório tenham sido gastas na busca de um antídoto para as percepções de nepotismo. "Eu acho que há muitas gente com vínculos familiares, mas que, na verdade, não chegaram a lugar algum. Se você é trabalhador e determinado, no fim das contas, você vai se dar bem. Eu não acredito em maneiras fáceis de ter sucesso."

Mas existem maneiras fáceis de ganhar dinheiro, se você tiver conexões em Angola, especialmente no setor de recursos naturais, onde altas autoridades e generais são conhecidos por suas participações ocultas em empreendimentos comandados por grandes companhias petrolíferas e possuem títulos de propriedade sobre áreas diamantíferas. Há quem afirme que modelos corruptos estão no cerne das estruturas de poder que mantêm a maioria dos africanos pobres e impedidos de cobrar responsabilidade de seus governantes. Não é verdade, pergunto, que em Angola o mundo da política e o dos negócios são completamente interligados?

"Sim", admite ela, a indústria petrolífera é "movida a política". Mas ela insiste em que se mantém bem distante disso. Nos setores em que atua, "não há interferência política", diz ela, apesar de seu grande momento ter acontecido quando ela fez parte de um consórcio que venceu uma concorrência pública para disputar uma segunda licença para operação de redes de telefonia móvel em Angola, no fim dos anos 90.

Antes, na mesma década, ela havia retornado a Angola num momento de falsa esperança. Uma trégua e as eleições em 1992 pareciam oferecer um fim para o conflito. Mas Jonas Savimbi, líder dos rebeldes da Unita, desistiu de participar da disputa, alegando fraude iminente nas eleições. Então, veio mais uma década de brutalidades.

"Esse foi um momento muito ruim", lembra Isabel. Ela voltou a morar com o pai, conseguiu um emprego numa empresa de reciclagem alemã, e então, com o dinheiro da venda de seu carro, montou uma empresa de transporte por caminhões. Nesse ponto, o desenvolvimento de um sistema de walkie-talkies abriu caminho para sua incursão posterior em telecomunicações.

Pesquisas de territórios apropriados à exploração das licenças de telefonia celular a levaram a áreas controladas por rebeldes. Seu pai não se opôs a isso? "Ele não sabia." Ela absteve-se de disputar a concorrência por conta dos vínculos de sua família? Ela deixa transparecer um lampejo de irritação, em meio à sua disposição de modo geral animada. O processo de concorrência que resultou na formação da rede Unitel de telefonia móvel foi, diz ela, "limpo". Ela assumiu uma "opção consciente (...) de manter uma distância [em relação ao governo] que é muito difícil de perceber, mas que na realidade existe". Duas vezes pergunto se um de seus parceiros investidores na Unitel é o general Leopoldino Fragoso do Nascimento, beneficiado por contatos privilegiados no Futungo, com quem ela disse manter relações comerciais. Por duas vezes, ela se esquiva de responder.

Mais tarde eu envio um e-mail para checar outras conexões sobre as quais tenho ouvido comentários. Elas são categoricamente negadas. Como Isabel me afirma durante o almoço, erguendo uma das sobrancelhas: "A maioria dos rumores que você ouviu não são verdadeiros".

Talvez ela não se veja absolutamente como membro do todo-poderoso Futungo? "Eu não estou envolvida em política e nunca tive qualquer papel político. Nunca ocupei um cargo público. Nunca assumi quaisquer cargos na administração pública. Assim, como eu já disse, eu não trabalho no governo".

Pelo contrário, ela se vê como uma força no sentido de diminuir a desigualdade. "Como é possível estreitar a desigualdade? Bem, criando oportunidades e criando mais e mais desenvolvimento. Acordamos de manhã e trabalhamos, fazemos alguma coisa. Vai levar bastante tempo, mas quanto mais coisas acontecem, mais coisas são construídas."

Meu halibute está no fim e o mesmo acontece com o linguado de Isabel, mas eu persisto em meus esforços para esclarecer alguns fatos sobre a estrutura de um dos mais enigmáticos impérios empresariais na África, um leque de ativos que hoje vai muito além das fronteiras de sua terra natal. Os interesses bancários de Isabel a levaram a firmar parcerias com o homem mais rico de Portugal, Américo Amorim, tendo adquirido uma participação em seu grupo Amorim Energia.

Eu peço a ela que esclareça como esses interesses no setor energético vinculam-se à Sonangol, empresa petrolífera estatal angolana com ativos em diversos países - do Iraque ao Brasil - que alguns críticos consideram como um feudo do Futungo. Ela dribla minhas perguntas antes de disparar o olhar que usualmente dispensamos a um garoto de oito anos particularmente irritante. "A companhia é relativamente complexa, porque quando você estrutura um negócio, é preciso examinar diferentes aspectos: de legislação a tributação, a governança, coisas assim."

Embora a "Forbes" tenha estimado sua riqueza em US$ 2 bilhões, Isabel - diferentemente do príncipe saudita que ficou furioso quando a revista estimou sua fortuna em US$ 20 bilhões, em vez dos US$ 29,6 bilhões que ele alega possuir -, empenha-se em dizer-se menos rica. Ela conta que todas as suas transações são alavancadas, menção que aproveita para salientar suas relações com bancos comerciais na Europa, Ásia e África.

Estou prestes a sondar outra história saborosa sobre sua influência, quando um garçom aparece para perguntar se gostaríamos de uma sobremesa. Isabel pede chá de hortelã fresco e uma colher para provar qualquer coisa que eu peça. O garçom sugere um cheesecake Yorkshire de ruibarbo suficiente "para dois". Ele se vai e eu tento de novo: é verdade que Isabel, como me relataram no dia anterior a nosso almoço, liga para o presidente do banco central e diz a ele o que fazer?

"Em que país?", brinca ela. Nós rimos alegremente (nessa altura, a garrafa de vinho já era). Delicadamente, cutuco mais uma vez: você de fato tem uma reputação de poder extraordinário.

"Bem, é muito difícil, eu imagino, distinguir pai e filha. E talvez parte disso seja consequência dos negócios que estou tocando e de meu pai ser uma figura política africana muito forte há tantos anos. Qualquer coisa que ele faça é quase como uma espécie de nuvem que fica pairando", diz ela, escolhendo a metáfora apropriada e movendo a mão sobre a cabeça, como se seu pai fosse um fenômeno celestial. "Então, talvez algumas dessas ideias venham desse efeito de nuvem derivado da posição dele. Mas, não, eu não telefono para o banco central e eu seguramente não dou instruções a eles."

Eu mudo a conversa para preocupações ideológicas. Há uma ironia no fato de a filha de um soldado comunista da Guerra Fria emergir como garota-propaganda do capitalismo africano?

"Compreendo o que você quer dizer, mas, como eu disse, eu não faço política. Sou empresária, e não política. Eu tinha um talento para os negócios desde muito novinha. Eu vendia ovos de galinha quando tinha seis anos."

Os lucros bancaram sua queda por algodão doce, mas seu fraco por açúcar evidentemente diminuiu ao longo dos anos: ela se apropriou de apenas um pedacinho da enorme torta de ruibarbo que chega. Sugiro que poderíamos mandar embrulhar a torta para os três filhos pequenos que ela teve com seu marido, Sindika Dokolo, um empresário e colecionador de arte congolês.

Isabel explica que eles não estão com ela, pois essa viagem é a trabalho. "Eu trabalho o tempo todo. Sete dias por semana." Eu detecto uma pitada de melancolia. Seus pais eram "muito exigentes", diz ela, orientando sua vida acadêmica. Ela não parece particularmente próxima de seus meio-irmãos de outros casamentos do pai, um dos quais, José Filomeno dos Santos, é apontado como herdeiro à Presidência de Angola, mas ela insiste em que seu trabalho é "divertido". "Se você fizer algo que proporcione um emprego a outras pessoas, então elas serão capazes de pagar a escola dos filhos delas, e depois um filho vira médico e então esse médico vai provavelmente ajudar sabe-se lá quantas outras pessoas, de modo que isso é muito estimulante. Bem mais divertido do que ir à praia."

De repente, Isabel pergunta que horas são. São quase quatro. Ela vai reunir-se com alguns consultores sobre um novo projeto de supermercado. Após algumas trocas formais de gentilezas, Isabel desaparece. Peço a conta e parto também, entrando na névoa que se dissipou muito pouco.

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