O ritual da Terceira Intifada

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18 Março 2013

Alguém falou em "Terceira Intifada"?

Isso aos poucos está se tornando um ritual. A cada incidente que ocorre entre Israel e Palestina, a perspectiva de uma nova revolta é considerada, reconsiderada e temida. Isso diz muito sobre o estado de uma questão sobre a qual o presidente americano, Barack Obama, deverá se debruçar mais uma vez antes de visitar Jerusalém e Ramallah daqui a uma semana, a menos que surja um imprevisto de última hora.

A reportagem é de Gilles Paris, publicada no jornal Le Monde e reproduzida no Portal Uol, 17-03-2013.

Vinte anos atrás, secretamente em encontros clandestinos, israelenses e palestinos concordavam quanto ao que seria a solução dos dois Estados, a criação de uma Palestina independente e soberana ao lado de Israel. Só tendo a crueldade de examinar essa promessa à luz daquilo que foi efetivamente realizado é que se pode ter uma ideia do efeito deletério dessas duas décadas marcadas por uma teleologia do "processo de paz", apontada já em 1996 pelo historiador Jean-François Legrain.

O mínimo que pode se dizer é que em 20 anos os atores certamente se transformaram --pelo menos tanto quanto os territórios. A começar pelos palestinos. A principal corrente política palestina, o Fatah, viga-mestra da OLP (Organização de Libertação da Palestina) que se tornou irreal, entrou nesse mecanismo com a esperança de ver realizado um projeto nacional de contornos flutuantes, mas que foi reduzido à Cisjordânia e a Gaza a partir dos anos 1980, e saiu de lá desgastada.

A nação que o Fatah queria representar se viu fragmentada em três entidades. Primeiro a diáspora, incluindo campos de refugiados dentro dos quais havia eclodido, que logo entendeu que seria a principal perdedora em um possível acordo entre Israel e Palestina. Ele não tinha mais domínio sobre Gaza, capital de um Estado-Hamas isolado do mundo. Quanto à Cisjordânia, ele só administrava uma parte reduzida dela, onde o exército israelense continua a ir e vir como bem entende.

O Fatah antigamente tinha um projeto, que hoje não passam de instruções erráticas que o mantêm vivo. A geração dos fundadores vem desaparecendo aos poucos sem ter garantido sua sucessão. Eleito em 2005, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, em breve octogenário, começa este ano um segundo mandato obtido extraoficialmente, sem ter solicitado a opinião de seus cidadãos, e o Conselho Legislativo palestino não tem mais condições de funcionar há sete anos, com a vitória dos islamitas.

Do lado israelense, o sentimento de impasse é igualmente evidente. A questão palestina era central, com razão, mas acabou se tornando periférica e secundária. Prova disso foram as eleições de 22 de janeiro, onde esteve dramaticamente ausente.

Após a Segunda Intifada, os israelenses decidiram ocultar esses incômodos vizinhos enclausurados nos territórios que lhes haviam sido concedidos, escamoteados fisicamente pelo "muro". Agora eles não queriam mais ouvir falar nisso, ainda que uma semi-esquizofrenia continuasse a empurrar uma proporção considerável de israelenses, com o apoio e a ajuda do Estado, do lado ruim do muro de segurança, a leste, para o coração daquele que deveria constituir um Estado palestino.

As duas figuras que emergiram graças às eleições legislativas israelenses, enfraquecendo e envelhecendo o primeiro-ministro reeleito, Benjamin Netanyahu, carregam a marca dessa ambivalência. O ex-jornalista Yair Lapid encarna as preocupações de uma sociedade que andava desconectada de seu problemático interior e que voltou a focar em si mesma. Já Naftali Bennet, ex-astro da nação das start-ups, está convicto de que a coesão israelense é incompatível com um Estado palestino. E com razão.

Em 20 anos, o número de israelenses residindo nos territórios ocupados a partir da conquista militar de 1967 aumentou praticamente quatro vezes. Aqueles que residiam nas colônias consideradas isoladas, em relação àquelas situadas perto da linha de cessar-fogo de 1949 --a Linha Verde--, são no mínimo dez vezes mais numerosos do que aqueles que foram evacuados de Gaza em 2005.

Por fim, esses 20 anos relativizaram seriamente a importância que poderiam ter atores externos preocupados com a persistência desse ponto focal de conflito e sua capacidade de influenciar no curso das coisas, tanto para os supostos fracos (os europeus) quanto para os fortes (os americanos).

A grande novidade introduzida pela última década na verdade foi a transferência para esses atores do financiamento do impasse, ou seja, o funcionamento da Autoridade Palestina. Mas trata-se de um investimento sem retorno no sentido de que não há nenhuma perspectiva política surgindo, que é o caso desde as últimas negociações, em 2008.

O que se conclui com essa revisão alimenta um pessimismo que pode ser instrutivo. Ele na verdade mostra a urgência que existe em se romper com as práticas em vigor há duas décadas, que mostraram sua ineficácia. Discursos "fundadores", plano de paz, processos, cronogramas impostos de fora, nada que no final tenha conseguido influenciar o que paralisa o lado palestino e aquele atrás do qual se abriga o lado israelense.

Há mais de uma geração, a Primeira Intifada (1987) havia dissipado um sonho. O sonho alimentado pelos dirigentes israelenses, segundo os quais os caprichos nacionalistas dos ocupados não resistiriam ao aumento do nível de vida permitido pela abertura do mercado de trabalho israelense aos palestinos. A Segunda Intifada (2000) posteriormente mostrou aos palestinos o impasse da luta armada.

Uma nova ilusão emergiu sobre as ruínas do processo de paz: que a situação poderia ser suportável a longo prazo. Que ela não necessitaria nenhuma arbitragem política de envergadura, nenhuma decisão dolorosa. Que uma autonomia limitada, de fato concedida a "bolsões" de populações palestinas através de ajudas internacionais, seria um bom substituto para a solução dos dois Estados.

Deve-se esperar que essa ilusão também acabe por se dissipar, mas antes que isso aconteça ela permanecerá mais forte do que qualquer argumentação lógica.

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