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04 Março 2013

O anúncio da renúncia de Bento XVI muda a perspectiva do papado e torna possíveis novos desdobramentos.

A opinião é do teólogo alemão Johannes Röser, redator-chefe da revista Christ in der Gegenwart. O artigo foi publicado no blog da Editora Queriniana, 01-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Faz parte do curso natural da vida que as pessoas envelheçam, enfraqueçam e se tornem frágeis. E é a coisa mais natural do mundo que aqueles que ocupam as altas esferas da sociedade abandonem os seus postos de serviço, se as forças físicas e as faculdades mentais diminuem consideravelmente. É só ao ministério petrino do bispo de Roma que isso não se aplica?

O anúncio da renúncia do Papa Bento XVI, que havia sido eleito a "vigário de Cristo na terra" em idade muito avançada, foi uma surpresa. E realmente não podia surpreender. Ainda em 2010, o papa chegou a dizer no livro-entrevista Luz do Mundo: "Quando um papa chega à clara consciência de já não se encontrar em condições físicas, mentais e espirituais de exercer o encargo que lhe foi confiado, então tem o direito – e, em algumas circunstâncias, também o dever – de renunciar". E já à época ele avisou: "Mas também me dou conta de que as forças vão diminuindo".

Permanece incerto se esse passo insólito, até agora o primeiro dado na história da Igreja – pelo que saibamos –, introduzirá uma "revolução" do papado. Certamente, o gesto atual significa um fragmento de desmitologização, de dessacralização da mais alta autoridade do magistério, que em casos individuais pretende deter até a plena autoridade da infalibilidade para prescrever "a verdade" de Deus em certo sentido em nome da Igreja.

Com efeito, a desmitologização – até agora esquecida ou até reprimida – se impôs com o sucessor histórico de Pedro. Cuja grandeza se manifesta, embora na possibilidade de se equivocar e na falibilidade, no fato de que ele, dentre todos, que negou o seu Mestre no momento decisivo, foi capaz de fortalecer os irmãos e irmãs na fé.

O seu sucessor, o supremo chefe da Igreja Católica, também é humano e não super-humano.

[...]

Poder e impotência

Aparentemente, a pressão de reforma que se constituiu na Igreja em nível mundial depois da letargia da fase final do pontificado do antecessor reforçou no fim um certo cansaço no ministério. Com efeito, Bento XVI viu que a crise da Igreja está associada de modo interagente a uma substancial crise de fé, a uma secularização acelerada, que, enquanto isso, tornou-se dominante também no Terceiro Mundo.

Isso promove uma cultura do debate e do processo decisional que requer mais energias, muito mais do que aquelas que um pontificado, em todo caso, ainda poderia ter em poucos anos. Em muitos aspectos, não se trata de modo algum apenas de interesses particulares de alemães, franceses, suíços, holandeses, brasileiros, nigerianos etc., mas sim questões que devem ser abordadas apenas em nível de Igreja mundial, mas, no fim, mesmo assim devem ser tratadas.

Bento XVI compreende a complexidade de tais temas e procedimentos de acordo que um papa não tem em mãos. "Em uma questão como a fé e o pertencimento à Igreja Católica, o dentro e o fora estão entrelaçados misteriosamente. Stalin realmente tinha razão quando dizia que o papa não tem divisões militares e não pode intimar ou impor nada. [...] Nesse sentido, de um lado, o papa é uma pessoa absolutamente impotente. De outro, tem uma grande responsabilidade. Ele é, em certo sentido, o chefe, o representante e, ao mesmo tempo, tem a responsabilidade de fazer com que a fé que mantém as pessoas unidas tenha credibilidade, permaneça viva e continue íntegra em sua identidade. Entretanto, somente o Senhor tem o poder de conservar as pessoas na fé" (Luz do Mundo).

Fazer ou não fazer?

O papa nunca se viu – provavelmente de um modo um pouco diferente de João Paulo II – como um "homem de ação". Muitas vezes, ele disse que a fé não pode ser "feita", assim como a espiritualidade ou a liturgia. Ele confiou no longo respiro da tradição e não confiou na inspiração. Em certo sentido, ele também foi um papa marcadamente "evangélico", semelhante a Lutero, que não acreditou na justiça das performances religiosas, segundo a qual o ser humano produz com suas próprias forças os verdadeiros princípios religiosos. Ao contrário, para Bento XVI, a fé é essencialmente graça, um dom entregue à pessoa por Deus.

Portanto, Bento XVI via a si mesmo e o serviço petrino mais "passivamente" como uma espécie de instância "modesta" de transmissão, enfatizando mais a figura do porta-voz do que a de um anunciador: "Cristo confiou a sua Palavra à Igreja. Esta palavra vive na Igreja. E, se em meu íntimo acolho e vivo a fé desta Igreja, se eu falo e penso a partir desta fé, então, quando anuncio Jesus, falo por ele, mesmo sendo evidente que, no detalhe, sempre pode haver insuficiências, fraquezas. O que importa é que eu não exponha ideias minhas, mas tente pensar e viver a fé da Igreja, agir sob o seu mandato de modo obediente" (Luz do Mundo).

Quanta subjetividade é tolerada pela objetividade do ofício, e quão objetivo é aquilo que quem detém o cargo faz subjetivamente? Bento XVI se moveu nisso como sobre uma linha sutil. Porque a pretensão de não pregar as próprias ideias, na realidade, está próxima do perigo de carregar o divino com a mentalidade quase infalível própria, e de declará-lo como "dado", e não como "fato". Além disso, quando o indivíduo, o papa, fala efetivamente, e quando Cristo fala?

O Papa Bento XVI não teve medo de promover vigorosamente preferências pessoais, como por exemplo na liturgia – até à concessão, universalmente muito contestada também por altos prelados, da liturgia tridentina. Ele voltou a escolher algumas insígnias e vestes que haviam se perdido no tesouro da Igreja para deixar claro também externamente, através dos acessórios, que nada se perde na vida da fé, apesar de algumas mudanças, que não pode haver nenhuma ruptura verdadeira, e que tudo permanece vinculado a uma continuidade de 2.000 anos.

Não há justamente nenhuma mudança fundamental de paradigma? Foi doloroso para Bento XVI, sem sombra de dúvida, que a sua tentativa de se reconciliar com o tradicionalismo do povo dos lefebvrianos e, portanto, de curar uma ruptura não tenha tido êxito. A Fraternidade São Pio X lhe mostrou uma "frieza" geral, mesmo que, com a revogação sem nenhuma condição preliminar da excomunhão dos seus bispos, havia-se chegado ao ponto de que uma parte significativa da Igreja mundial se insurgisse contra ele.

Mas a dialética da história e do agir histórico não acompanha quem estava bem intencionado, mas também não funciona segundo o que foi feito bem ou não bem. Além disso, os fiéis do povo de Deus se sentiram e se sentem abandonados, não levados a sério em muitas coisas que, há décadas, são discutidas e foram apresentados em Roma quase com urgência, com o pedido de uma aprovação.

Bento XVI não pode fugir do fato de que, há algum tempo, não existem mais os "progressistas" do passado que exigem reformas decisivas na fé e na vida da Igreja, mas o centro do catolicismo é constituído, ao contrário, pelos fiéis "conservadores". O papa alemão, que não é apenas um papa para os alemães, teve que se dar conta de que, também nesse sentido, o mundo da Igreja da sua infância, uma vez aparentemente bem-ordenado, mudou drasticamente.

Só as gerações futuras poderão avaliar se o pontificado de Bento XVI foi uma das oportunidades perdidas, se irremediavelmente se fechou uma janela do tempo para a renovação da fé. No entanto, é triste ou, melhor, simplesmente trágico que um papa da terra da Reforma, cinco séculos depois da separação, durante a sua visita oficial à sua terra natal tenha provocado escândalo por causa de uma palavra mais de rejeição do que de convite.

No mosteiro agostiniano de Erfurt, onde foi homenageado o monge Lutero, católico e em busca de Deus, e não justamente o reformador posterior, ressoou a infeliz afirmação do papa que não pôde levar nenhum "dom ecumênico do hóspede" (Celebração Ecumênica na Igreja do Convento dos Agostinianos em Erfurt): tal esperança seria "um equívoco político da fé e do ecumenismo".

Com Bento XVI, ao contrário, foram estabelecidos novos e promissores contatos com a Igreja Ortodoxa, sobretudo com o Patriarcado de Moscou, o que em outros lugares, no entanto, levantou alguns "ciúmes" em torno da "revogação do amor". Continua sendo uma questão em aberto se e como poderão amadurecer os frutos entre as Igrejas irmãs, que fundamentalmente concordam sobre a compreensão dos sacramentos.

Nem na comunidade das nações

A ressonância midiática ao anúncio da renúncia deixou claro o quanto mudou entre as pessoas a atenção ao papado e como ainda desempenha um pequeno papel o aspecto religioso efetivo na cultura do entretenimento que se alimenta de sensações. No lugar da honra anterior, às vezes até mesmo papalista, ao homem de Deus por parte do povo da Igreja, entrou agora em amplas camadas, particularmente no ambiente dos mais jovens, a atração do que ainda é o exótico no catolicismo.

Nas mentes de muitos, "Roma" é a última e única monarquia que é levada em consideração em nível mundial, porque reúne em todo o mundo os seus "súditos", de todas as nações, em quase todos os países. Isso nunca foi e não é comparável à história humana, nem na comunidade das nações. Mas como a Igreja Católica utiliza o seu poder de antigamente, em grande parte do passado? Que ensinamentos ela tira dos pontificados dos últimos 50 anos? Business as usual – seguir em frente como sempre ou ao menos iniciar as reformas estruturais?

Vigário temporário

Muitas propostas estão sobre a mesa, como por exemplo o fato de que o papado poderia se transformar em uma espécie de ministério petrino moderno. Assim como o episcopado nos primeiros tempos da Igreja foi modelado à imagem dos altos administradores da província secular romana, se poderia aprender com os leigos que hoje detêm as presidências: como uma escolha temporária, eventualmente por seis anos, com a possibilidade de uma única reeleição.

Isso daria ou poderia dar uma chance também aos candidatos mais jovens, sem o temor de que estejam com a sua competência diretiva à frente da Igreja e promovam a sua própria visão por tempo demais – até o fim da vida. Não se deveria ignorar o problema de que o número mais estrito de pessoas de governo da Igreja Católica que decidem ou, mais frequentemente, que não decidem é constituído por homens célibes, a maioria idosos, que às vezes, nos seus melhores anos, se afastaram muito também dos sentimentos e do mundo da vida das gerações – em particular, se alienaram das experiências das mulheres.

As dinâmicas da modernidade social e cultural podem ser sondadas rotineiramente nos conselhos vaticanos e nas instituições científicas, também regularmente, mas tudo isso parece ter pouca influência sobre o desenvolvimento da fé e da Igreja, e sobre as declarações do magistério.

Diz-se que o Papa Bento XVI, pessoalmente, tem uma boa relação com as ciências. Mas é inegável o seu profundo ceticismo com relação às inovações e os resultados espetaculares da pesquisa, como demonstram as suas frequentes advertências contra um pensamento progressista, que "obscureceria" o humano, segundo uma das suas expressões favoritas. Será possível, antes ou depois, organizar também a eleição de um papa com uma base mais ampla de eleitores e eleitoras além do número tradicional dos cardeais, também com representantes da ciência, da arte, do mundo do trabalho, de diferentes proveniências da sociedade mundial?

Esses "sonhos", por enquanto, parecem absurdos. Porém, na crise global do cristianismo, a revitalização do princípio sinodal, como ocorreu no início do seguimento de Cristo, poderia ser útil, ou ao menos ser um primeiro passo para indicar que algo está se movendo. Isso certamente não resolve os grandes problemas de fé das pessoas. Portanto, o tempo leva a um concílio verdadeiramente global da fé, que deveria ser precedido por um processo conciliar mais longo, como por exemplo sobre a questão religiosa, sobre a compreensão de Deus em um horizonte de mudança da experiência do mundo e sobre outras coisas.

Bento XVI teve "sonhos sobre a Igreja". Ele quis e quer estimular a comunidade de fé a não ser igual ao mundo, mas a se lembrar qual é o seu sentido original: reatualizar a obra salvífica de Cristo sobre a terra, trazer o amor de Cristo às pessoas, a alegria e a esperança da ressurreição, que dissolve em uma luz diferente do mundo, a luz de Deus, todas as trevas da vida – por último, a da morte de cada indivíduo.

Joseph Ratzinger/Bento XVI buscou, às vezes com ansiedade, às vezes confiantemente, uma "Igreja santa", para além das acomodações. Mais precisamente, ele quis encorajar a Igreja dos santos, uma Igreja que, "desmundanizada", redescubra e traga de novo à vida de todos os dias o mistério do Deus desconhecido e o ícone do Deus invisível – colocando Cristo no centro.

Com Cristo na transição

O fato de fazer referência a Cristo, o impulso em direção a Cristo move Bento XVI na força assim como na fraqueza. Por isso, ele escreveu, como "obra da velhice", os seus livros sobre Jesus, como livros espirituais, como uma espécie de testamento espiritual. Foram concebidos menos como produtos de erudição histórico-crítica, e mais como leitura para todos aqueles que querem permanecer mental e espiritualmente inquietos, e assim jovens, que querem tirar da leitura das Sagradas Escrituras a força vital do evangelho como um grande tesouro. Jesus era jovem. Cristo permanece jovem – mesmo que Pedro fique velho e, com ele, a Igreja.

Bento XVI foi definido, ainda com a sua eleição, de um "papa de transição". Estritamente falando, todo papa é um papa de transição, e toda a história da fé é uma transição, em que muitas coisas – por bons motivos – são entregues ao esquecimento, e outras coisas são descobertas como novas e, de certa forma, como verdadeiras.

Na história do papado também, a cada nova geração, muitas coisa afunda na escuridão. O que as pessoas de 50 anos hoje sabem sobre João XXIII e Paulo VI? Quanto realmente permaneceu da memória de João Paulo II, uma vez saudado como o amigo das pessoas e politicamente audaz? O Papa Bento XVI, a esse respeito, é bastante realista. Nenhuma realidade terrena duram eternamente. Com relação a si mesma, a Igreja deveria permanecer modesta. Essa é a sua herança.

Não é Pedro que lava os pés de Cristo, mas é Cristo que lava os pés de Pedro. Bento XVI, como sacerdote, teólogo, depois como bispo de Roma, na força assim como na fraqueza, deu expressão à experiência que o servidor de Pedro como "vigário de Cristo" não é, primeiramente, aquele que leva Cristo, mas sim aquele que o recebe.

Para além de uma idealização sacral, o papado, nessa consciência, poderia ganhar credibilidade. O Papa Bento XVI, que tem uma consideração muito alta pela tradição, através da sua renúncia, paradoxalmente, rompeu com a tradição, a fim de esclarecer o que é importante: abrir, como servo de Pedro, com toda a força da razão e da fé, os caminhos para o verdadeiro Servo de todos os seres humanos, Cristo, o Redentor e o Libertador – ontem, hoje e sempre. Até mesmo a grande história dos papas é muito pequena diante dessa história.

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