Trinta sacerdotes no Chile já foram condenados pela justiça canônica e civil por casos de abusos contra menores

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Por: Jonas | 09 Dezembro 2014

Até abril do ano 2011, dezessete casos de sacerdotes e de um diácono relacionados a crimes graves contra menores de idade figuravam na lista de sentenças que foram ditadas pela justiça penal e canônica. A publicação desta informação foi divulgada, em seu momento, pelo porta-voz da Conferência Episcopal do Chile, Jaime Coiro e nela apareceram mencionados quatro clérigos que serviram em Magallanes. Nomes de sacerdotes como Víctor Carrera Triviño, Jaime Low Cabeza, Marcelo Morales Márquez e Nibaldo Escalante apareceram no registro que os desabilita para o exercício do ministério sacerdotal. Entre eles, também apareceu nomeado o ex-pároco da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Fernando Karadima, cujo caso abalou o Chile todo, gerando um forte impacto tanto no interior da Igreja Católica como fora dela.

Coincidentemente, no ano 2011, quando o Vaticano determina a responsabilidade de Karadima em abusos contra adolescentes, é que se gesta no interior da Conferência Episcopal o chamado “Conselho Nacional para a Prevenção de Abusos contra Menores de Idade e Acompanhamento às Vítimas”. A instituição formada por dez pessoas – nove das quais desempenham trabalhos como voluntários – tem, entre seus objetivos, orientar, supervisionar e avaliar as políticas de prevenção de abusos sexuais contra menores. Duas das integrantes do Conselho para a Prevenção visitaram Punta Arenas, com a finalidade de oferecer oficinas dirigidas principalmente para colégios católicos. A psicóloga Josefina Martínez e a advogada María Celis conversaram com El Magallanes a respeito das motivações que conduzem o trabalho desempenhado na linha preventiva contra o abuso sexual, no interior da Igreja Católica. Também participou Elisabeth Muñoz, coordenadora regional da mesma instituição.

A entrevista é de Andrea Coñuecar Ojeda, publicada por La Prensa Austral, 07-12-2014. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Quais foram as motivações para se criar o Conselho Nacional para a Prevenção de Abusos contra Menores de Idade, dentro da Conferência Episcopal?

Josefina Martínez: Efetivamente, este é um organismo que depende da Conferência Episcopal e que é formado em 2011. É uma equipe interdisciplinar, cuja motivação é “colocar sobre a mesa” a problemática do abuso sexual, reconhecendo que também ocorre na Igreja. Esse é um sinal importante de poder “abrir os olhos” e admitir que o abuso sexual ocorre transversalmente em toda a sociedade. Portanto, há que se tornar responsável por esse problema. No entanto, não nos ajuda somente responder aos casos de abusos que ocorreram dentro da Igreja, mas também nos interessa poder trabalhar na prevenção deles. Ou seja, identificar fatores de risco ou elementos protetores que tornam mais difícil saber que estes casos podem estar ocorrendo em espaços eclesiais.

Quanto o “caso Karadima” influenciou para poder gerar o reconhecimento que dentro da Igreja era necessário começar a abordar a temática sobre abusos sexuais contra menores?

Josefina Martínez: Acredito que o caso Karadima não inicia a abordagem do tema dos abusos no interior da Igreja, uma vez que há antecedentes prévios a essa situação, o que não significa desconhecer a importância do caso que você menciona e a abordagem que os meios de comunicação apresentaram para a opinião pública, quando este fato ficou conhecido...

Se a Igreja contava com antecedentes de situações de abuso sexual contra menores, antes que fosse detonado o caso Karadima, por que apenas em 2011 se cria o referido conselho?

Josefina Martínez: Sem dúvida, há uma demora para reagir sobre o tema, o que em nenhum caso está vinculado à desatenção por uma área como esta, no interior da Igreja. A demora é mais social e não exclusivamente da Igreja. Estamos todos chegando tarde a temáticas como esta e é justamente porque nos colocam frente o horror. Ou seja, o abuso sexual é um tema que a gente demora muito a representá-lo na cabeça e está demonstrado que, diante de temas horrorosos, a sociedade cria mecanismos de negação e a sociedade somos nós todos, incluindo a Igreja. Não podemos pretender que na Igreja teremos uma perfeição maior do que em relação ao restante da sociedade. Ou que como Igreja nós estamos em vantagem, para ver temas que outros não veem.

Você destaca que há outros casos que eram conhecidos antes de Karadima, a quais você se refere?

Josefina Martínez: Nós temos uma lista pública de clérigos denunciados e são casos conhecidos midiaticamente. Por exemplo, o caso do padre John O’Reilly ou de Cristián Precht. No entanto, nossa missão como Conselho não é nos ocuparmos dos casos, não somos um organismo que receba denúncias. Embora, nossa missão é a de esboçar políticas de prevenção e de acompanhamento às vítimas. Nesse sentido, estamos a serviço das dioceses, mas não operamos como escritório de denúncias, pois isso ocorre em nível local.

No ano 2011, três ex-alunos do Liceu Salesiano São José de Punta Arenas denunciaram abusos sexuais que envolveram o falecido sacerdote Rimsky Rojas. A Conferência Episcopal teve antecedentes destas denúncias?

María Celis: Nós não temos nenhum tipo de competência para receber denúncias, nem para nos dedicarmos a casos de abusos sexuais contra menores. Entretanto, o que nos interessa é que, em todos eles, consiga-se chegar à verdade, porque dessa maneira podemos saber melhor como implementar políticas de prevenção. Certamente, as situações de Magallanes, assim como em outras ocorridas em diferentes lugares do país, foram tristes e nosso trabalho nisso é orientar para que se tente acompanhar as vítimas e na eventualidade que estejam ocorrendo abusos poder detectá-los precocemente e atuar sobre isso...

Precisamos que se volte a confiar na Igreja, porque a Igreja é justamente a mais interessada em que os casos de abusos sexuais que ocorreram e que envolveram sacerdotes sejam conhecidos. Sem saber os pormenores de todos os casos específicos que ocorreram, auxilia-nos a confiança de que em todas as regiões onde a Igreja está presente, a verdade seja conhecida.

Há, então, uma coordenação de informação que chega das regiões até vocês, no caso de que haja indícios de possíveis fatos de abusos sexuais que envolvam sacerdotes?

María Celis: Não, não existe. Nós nos inteiramos pela imprensa e nisso é preciso destacar o papel que os meios de comunicação têm realizado sobre este tema, de romper o silêncio e permitir que todos nós saibamos. Nesse sentido, assim como é concebido por Josefina, não há uma competência de nosso conselho em receber denúncias, nem de nos dedicarmos aos casos. Tampouco recebemos informação. Nosso papel é, ao contrário, o de orientar as autoridades eclesiásticas e as comunidades para ver como prevenir melhor e tentar acompanhar as vítimas.

Então, nunca houve conhecimento, no organismo que vocês integram, sobre causas judiciais ocorridas em Magallanes e que envolveram sacerdotes católicos que – no exercício de suas funções – foram denunciados pelos fatos de abuso sexual?

María Celis: Eu sou professora de direito canônico na Faculdade de Direito da Universidade Católica e fazemos pesquisas. A partir da academia, tentamos buscar padrões e aí nos interessa saber quais fatores podem fazer com que um sacerdote se encontre em uma situação na qual eventualmente abuse e nos perguntar o que nós, os demais, fizemos para que isso possa ou não acontecer... e aí nos encontramos com fatores detonantes como encargos pastorais que tenham sido excessivos, solidão da mesma pessoa, uma seleção pouco profunda daqueles que serão sacerdotes, etc. ...

E em relação às causas judiciais e redes de abuso sexual que se acusa que operam no Chile e que envolveram sacerdotes...

María Celis: Pessoalmente, leio todas as sentenças que acontecem no Chile...

Conhece a sentença do sacerdote Luis Melchor Juragari Manaideke, sobre um fato ocorrido em Puerto Williams?

María Celis: Esse foi o caso de uma câmera fotográfica colocada em um banheiro... Entendo que essa sentença não foi qualificada como um caso de abuso sexual pelos tribunais chilenos, portanto não entra nessa categoria. O que não se trata de tomarmos com indiferença o que ali aconteceu...

E os procedimentos judiciais que envolveram os sacerdotes Antonio Larraín Pérez-Cotapos, Víctor Hugo Carrera e o ex-sacerdote Jaime Low Cabeza ficaram conhecidos pelo organismo que vocês integram?

María Celis: Em alguns casos foi ditada a suspensão definitiva e em outros se condenou e, nesse sentido, o que interessa é conhecer o ambiente em que foi gerado estas condutas que, em alguns casos, responde às escassas possibilidades dos sacerdotes viver em comunidade, algo que é quase conatural em algumas regiões como esta...

Então, o que vocês fazem é procurar entender as condições que conduziram a um abuso sexual pelos sacerdotes, mais do que se situar no contexto das famílias que denunciam.

Elisabeth Muñoz: Não, o que nós procuramos é entender qual é o perfil do abusador para poder enfrentá-lo como comunidade e então evitar novos abusos.

Quantos casos foram punidos pela Igreja no Chile, relacionados ao abuso sexual?

Elisabeth Muñoz: No Chile, de 2.300 sacerdotes, de 2002 até agora, houve 30 condenados pela justiça civil e pela canônica. Por um lado, existem 15 clérigos (14 sacerdotes e 1 diácono) condenados pela justiça civil. E também existe cerca de 15 sacerdotes condenados canonicamente. Deles, há alguns em que a condenação é temporal e em outras é perpétua. Essa é a realidade e, sobre ela, para nós o que interessa, como Conselho de Prevenção, é criar estratégias que sejam coerentes com o que ocorre em nosso país, com as diversas realidades que os sacerdotes possuem no exercício da comunidade, em cada região. É importante ter presente que a Igreja não tem ferramentas para privar de liberdade uma pessoa, porque essa privação corresponde ao Estado. Assim como o Estado não tem ferramentas para proibir o exercício dos sacramentos por um sacerdote. Portanto, estamos em uma realidade de simultaneidade de jurisdições que se complementam de alguma maneira e há certos meios de prova que podem ser valorizados de diferente maneira, porque não temos o tempo de prescrição tão curto como o Estado. E, por isso mesmo, houve ao redor de 15 casos que foram condenados apenas canonicamente e que não puderam ser condenados civilmente. Como foi o caso, por exemplo, de Cristián Precht, que foi condenado apenas canonicamente.

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