Em 25 anos, mudaram o papa e também a visão do papa sobre a Europa

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28 Novembro 2014

Enquanto o seu antecessor, João Paulo II, tinha sonhado, em 1988, em Estrasburgo, com uma Europa neocristã e federal, o Papa Francisco quer uma Europa solidária e social, uma Europa do espírito mais do que uma Europa do mercado. Uma sagrada aposta.

A reportagem é de Henri Tincq, publicada no sítio Slate.fr, 25-11-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Vinte e cinco anos depois de João Paulo II, um papa retornou, na terça-feira, 25 de novembro, à tribuna do Parlamento de Estrasburgo e à do Conselho da Europa. Desde a sua eleição, em março de 2013, esperávamos conhecer a "visão" europeia do Papa Francisco, o primeiro não europeu à frente da Igreja Católica, vindo daquela Argentina onde os seus avós piemonteses tinham escolhido para imigrar no início do século passado.

Em 1988, quando o polonês João Paulo II tinha se dirigido aos deputados de Estrasburgo, a Europa contava com apenas 12 Estados membros. O Muro de Berlim ainda era uma fronteira considerada insuperável, ferida no coração de um continente dividido entre dois sistemas ideológicos, políticos, econômicos e militares. Muito poucos podiam imaginar, na época, que esse muro entraria em colapso em poucos dias, no ano seguinte.

Para Karol Wojtyla, esse desenvolvimento, porém, era inevitável, de tão convencido que ele estava de que a Europa, do leste ao oeste, além de uma divisão que ele considerava como artificial e provisória, estava unida por uma mesma cultura e por uma raiz, bíblica e cristã, comum.

Para ele, sem negar a herança judaica, muçulmana, bizantina ou iluminista, era o cristianismo que mais tinha impregnado a Europa, a sua civilização, a sua cultura, a sua moral, o seu ideal de vida. Testemunha disso é o seu notável patrimônio literário, musical, pictórico, arquitetônico.

E aquele papa, que tanto contribuiu para a queda do comunismo no seu país natal, havia dito, em Estrasburgo, em 1988, que a construção europeia não tinha outro sentido senão reconstruir a comunidade de cultura e de destino, em torno das raízes cristãs, que une os povos do Velho Continente.

A "reconciliação" ocorrida depois da Segunda Guerra Mundial já era a intuição dos "pais fundadores" da Europa, aquelas grandes figuras democrático-cristãs que foram os francês Robert Schuman, o italiano Alcide De Gasperi, o alemão Konrad Adenauer. Aquela Europa, então definida como "roxa" (a cor dos bispos), por escárnio, só podia ser cristã, liberal e federal.

Um sonho federal esgotado

Os tempos mudaram. A Europa que o Papa Francisco encontra não é mais a do papa polonês. A União se ampliou para 28 Estados e está dotada de competências mais amplas. O Parlamento de Estrasburgo detém maiores poderes.

Mas o sonho federal se esgotou amplamente. Uma ampliação mal dominada, uma crise econômica devastadora – mais de 10% de desempregados na União –, a complexidade das instituições comunitárias, a incapacidade dos dirigentes de falarem a uma só voz na cena internacional, a gestão caótica dos fluxos migratórios no sul do Mediterrâneo são todos elementos que contribuem para o desencanto e que afastam a Europa da sua base popular.

As últimas eleições da primavera de 2014 confirmaram esse claro deslize para uma direita defensora da soberania nacional e para uma extrema direita populista.

O sonho de João Paulo II de uma Europa reunificada em torno da sua identidade cristã, em grande parte, também fracassou. A queda da Cortina de Ferro, o colapso do regime soviético, o alargamento da União Europeia a leste, em 2005, inauguraram uma era de paz e de liberdade religiosa sem precedentes no Velho Continente. Mas não deram lugar para a Europa cristã sonhada pelos ambientes católicos conservadores.

Um "neoclericalismo" bem que tentou se manifestar nos ex-países do Leste, mas provocou muitas resistências com as infinitas polêmicas sobre o aborto, sobre a restituição dos bens do passado para as Igrejas, sobre a introdução de aulas de religião nas escolas, sobre a assinatura de "concordatas" consideradas favoráveis demais ao Vaticano e à hierarquia católica.

Em toda a Europa, exceto em poucos bolsões de resistência como na Polônia, a "secularização" triunfou, fruto de histórias nacionais e da desintegração da memória e dos valores fundamentados no cristianismo. A sociedade agnóstica e multicultural, que já domina o Velho Continente, onde também avança o Islã sob a onda da emigração, marca o fim de uma época, sempre idealizada por alguns, em que a fé cristã marcava a existência cotidiana, caracterizava as relações sociais, fornecia as referências culturais, simbólicas, morais, indispensáveis para o funcionamento de uma sociedade e inspirava as suas maiores obras artísticas.

A União Europeia tirou as consequências disso. Por iniciativa dos países de tradição laica como a França, ela rejeitou, no início do século XXI, toda menção a Deus ou às raízes cristãs no preâmbulo do seu primeiro tratado constitucional. O Papa Francisco não volta a falar sobre esse assunto polêmico.

Diante das igrejas que se esvaziam e que se torna obrigação fechar ou reconverter – nos Países Baixos, na Inglaterra, na Alemanha –, diante de assembleias de fiéis reduzidas de maneiras alarmante e diante de seminários já desertos, não se pode deixar de constatar o desaparecimento do cristianismo no continente que o viu crescer, se afirmar, governar antigamente as suas leis e a sua moral.

A Europa é um continente que se tornou "apóstata", isto é, rompeu com a sua fé de origem, já deplorava o antecessor de Francisco, o alemão Bento XVI.

Algo mais do que uma província do grande capitalismo mundial

Mas o papa latino-americano, que veio de um continente onde as riquezas mais insolentes se manifestam ao lado das massas rurais e urbanas mais deserdadas, adquiriu a sua notoriedade com a denúncia da economia liberal, do frenesi do consumo material, da globalização financeira. Para ele, estas últimas desempenham hoje o papel de religiões de substituição no Velho Continente.

A Europa está "cansada", "ferida", ficou estéril. Não faz mais filhos, exclui os seus jovens – 75 milhões de europeus com menos de 25 anos, metade dos quais estão desempregados na Espanha, na Itália etc. –, e os seus idosos aos quais, segundo o pontífice, já é oferecida como perspectiva apenas uma "eutanásia dissimulada".

Em Lampedusa, em julho de 2013, o Papa Francisco havia denunciado "a globalização da indiferença", diante da tragédia das viagens de migrantes provenientes de zonas de conflito na África e que naufragavam no Mediterrâneo. Desde então, a cada novo naufrágio, ele repete a sua vergonha e grita o escândalo. Em Estrasburgo, ele repete que o encurvamento nacional, que permite que os partidos extremistas prosperem, é a pior de tentações para a Europa.

Por isso, não é mais com uma Europa neocristã e federal que ele sonha, como faziam os seus antecessores vindos de Roma, da Polônia ou da Alemanha. Mas uma Europa que seja algo mais do que uma província do capitalismo mundial. Uma Europa social e solidária, respeitosa ao ambiente, capaz de acolher os milhares de pessoas que fogem da sua própria pátria e vão buscar em Londres, em Paris ou em Milão trabalho, um pouco de liberdade e uma vida melhor. Uma Europa do espírito contra a Europa do mercado. Uma sagrada aposta.

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