O Papa diz à Europa: ponha em ordem a sua casa social e espiritual

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26 Novembro 2014

O primeiro papa não europeu excursionou para o coração da Europa secular nesta terça-feira e proferiu um discurso incisivo, alertando os líderes políticos que o continente corre o risco da irrelevância caso não recuperar os seus valores fundantes, baseando-se, em parte, no legado cristão.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 25-11-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O Papa Francisco proferiu dois discursos, ao Parlamento Europeu e ao Conselho da Europa, que se somaram para formar um duro chamado ao continente no sentido de pôr em ordem tanto o seu lar social quanto o espiritual.

Diante de aproximadamente 750 membros do Parlamento Europeu, Francisco, sem rodeios, disse que o mundo atual está se tornando “cada vez menos eurocêntrico”, que a Europa, muitas vezes, se parece como uma “idosa e empachada”, cada vez menos “protagonista” nas questões globais e que o resto do mundo a vê “com desconfiança e, até mesmo, suspeitas”.

“Onde está o seu vigor?”, Francisco perguntou ao Conselho da Europa, falando deliberadamente a todo o continente através do organismo. “Onde está aquela tensão ideal que animou e fez grande a sua história?”

Apesar de ter permanecido no local por algumas poucas horas, a presença do pontífice foi histórica, já que, em certo sentido, o Novo Mundo estava se encontrando com o Velho Continente.

Falando italiano, Francisco sustentou que muitos dos problemas políticos específicos que a Europa enfrenta, desde a imigração e o extremismo até os altos índices de desemprego entre os jovens, têm um fundamental espiritual. Ele denunciou o que chamou de um “culto à opulência que não mais se sustenta”, com base no individualismo exagerado que alimenta violações da dignidade humana.

Para livrar-se deste mal-estar, disse, a Europa precisa redescobrir um sentido de valor e missão, para o que a convicção religiosa é uma base.

“Uma Europa que já não seja capaz de se abrir à dimensão transcendente da vida”, disse Francisco, “é uma Europa que lentamente corre o risco de perder a sua própria alma”.

A curta viagem desta terça-feira havia sido anunciada como a oportunidade do pontífice de apresentar uma saída para a Europa, e ele não decepcionou, proferindo os dois dos discursos mais substantivos de seu papado num período de menos de quatro horas.

O Parlamento Europeu é a única instituição cujos membros são eleitos diretamente pelos 500 milhões de cidadãos que vivem em 28 países membros da União Europeia, enquanto que o Conselho da Europa reúne 47 países cuja população total soma mais de 800 milhões. A presença do Papa Francisco marcou a segunda vez que um pontífice discursa a estas duas instituições, sendo a primeiro feita por João Paulo II em 1988.

(Nesta ocasião, o falecido Ian Paisley, então líder dos protestantes do norte da Irlanda, precisou ser retirado da câmara parlamentar enquanto denunciava que o papa era o anticristo. Nada desse tipo manchou o discurso de hoje, posto que Francisco recebeu fortes aplausos em vários momentos e uma ovação estendida de pé ao final.)

Nesta ida a Estrasburgo, esperava-se que Francisco levantasse questões polêmicas que a classe política europeia enfrenta: imigração crescente e desemprego entre os jovens, reação contra as medidas de austeridade impostas por muitos governos como parte da crise em curso na eurozona, e outros.

O papa falou sobre alguns destes assuntos. Sobre a fome, por exemplo, o pontífice disse ser “inaceitável que milhões de pessoas ao redor do mundo estejam morrendo (...) enquanto que toneladas de alimentos são descartadas todos os dias de nossas mesas”.

Sobre o trabalho, Francisco disse que “chegou a hora de promover as políticas de emprego” e de “devolver dignidade ao trabalho, garantindo também condições adequadas para a sua realização”.

“Que dignidade poderá encontrar uma pessoa”, perguntou o papa ao parlamento, “que não tem o alimento ou o mínimo essencial para viver e, pior ainda, o trabalho que o unge de dignidade?”

Uma das partes apaixonadas dos discursos veio num chamado às políticas migratórias “justas, corajosas e concretas”, especialmente em nome das ondas de migrantes pobres da África e do Oriente Médio que, geralmente, tentam chegar à Europa fazendo cruzamentos perigosos ao longo do Mar Mediterrâneo.

“Não se pode tolerar que o Mar Mediterrâneo se torne um grande cemitério”, disse o papa, referindo-se à estimativa de que 20 mil pessoas morreram ao longo das últimas duas décadas tentando fazer a travessia.

Como outras vítimas daquilo que certa vez denunciou como a “cultura do desperdício”, Francisco citou “os doentes terminais, os idosos abandonados e sem cuidados, ou as crianças que são mortas antes de nascer”.

Francisco também deixou uma forte mensagem ecológica, dizendo que “nossa terra tem necessidade de cuidados e atenções constantes” e insistiu que ela não deve ser “deturpada, explorada e vilipendiada”.

Francisco fez uma das queixas comuns apresentadas contra as instituições políticas europeias, segundo as quais elas sufocam a diversidade sob uma uniformidade burocrática sem graça. Ressentimentos deste tipo vêm sendo creditados com o aumento de partidos da extrema-direita, incluindo a Frente Nacional (na França) e o movimento “Five Star” do comediante Beppe Grillo, na Itália.

“Unidade não significa uniformidade política, econômica, cultural ou de pensamento”, disse. “Na realidade, toda a unidade autêntica vive da riqueza das diversidades que a compõem”.

Na maioria destes trechos, o papa recebeu fortes aplausos. Os núcleos destes dizeres, no entanto, pareceram ser mais profundos do uma simples lista de preocupações políticas específicas.

Francisco lamentou aquilo que chamou de “o grande vazio de ideais”, incluindo o “esquecimento de Deus”. No lugar de uma visão humanista, disse, o que a Europa alimenta hoje são “sistemas uniformizadores de poder financeiro ao serviço de impérios nunca antes visto”.

Francisco insistiu que redescobrir a história cristã da Europa e estabelecer um diálogo “significativo” e “aberto” com as demais tradições religiosas “não representa uma ameaça, um perigo à laicidade dos Estados ou para a independência das instituições da União Europeia”.

Pelo contrário, acrescentou, trata-se da base para um “humanismo centrado no respeito pela dignidade da pessoa humana”.

A história de dois mil anos que ligam a Europa e o cristianismo, declarou, “não está livre de conflitos e erros, e até mesmo de pecados”, mas, em seus melhores dias, sempre esteve animada pelo desejo de construir o bem de todos”.

O predecessor de Francisco, o Papa Bento XVI, foi, muitas vezes, acusado de ser “eurocêntrico”, no sentido de se focar excessivamente na cultura europeia. Até o momento, Francisco vem encarando a acusação contrária, sendo muitas vezes visto como deixando de lado a Europa em favor de regiões com maior crescimento e dinamismo da Igreja Católica hoje, tais como a Ásia e África.

No entanto, as duas falas do Papa Francisco nesta terça-feira sugeriram que, em termos substantivos, ele está a par da agenda europeia tanto quanto os seus dois predecessores, com ambos os textos citando João Paulo II e Bento XVI.

Na verdade, estes seus discursos em Estrasburgo foram, com razão, os textos mais “ratzingerianos” do  atual papado, com referências e vocabulário frequentemente associados ao Papa Bento: os riscos das “ditaduras do relativismo”, bem como uma tendência filosófica de ver os seres humanos como mônadas radicalmente isoladas, insensíveis umas às outras.

Em outras palavras, este pode ser um papa do Novo Mundo, mas a mensagem para o Velho Continente não mudou: se a Europa quer salvar a sua alma, ela precisa dar lugar a valores inspirados, em parte, no seu passado cristão.

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