México. O caso dos estudantes golpeia a esquerda

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Por: Jonas | 25 Novembro 2014

Prostrado e esgotado, sem autoridade moral, nem credibilidade, afundado na corrupção, diluído como opção política e a ponto da dissolução, o Partido da Revolução Democrática (PRD) entrou em uma etapa crítica, da qual tem somente duas saídas: a reconstrução ou o seu desaparecimento da face democrática do México.

A reportagem é de Gerardo Albarrán de Alba, publicada por Página/12, 24-11-2014. A tradução é do Cepat.

O diagnóstico é de seu fundador, Cuauhtémoc Cárdenas Solórzano, que por duas vezes, na última semana, exigiu a renúncia da atual diretoria nacional do PRD, que foi eleita e tomou posse no último dia 5 de outubro, quando o ex-guerrilheiro Jesús Zambrano deixou o cargo para que o ex-senador Carlos Navarrete assumisse.

O golpe para o PRD foi a péssima administração da crise que significou para o partido o desaparecimento de 43 estudantes normalistas de Ayotzinapa e o assassinato de outros três, no último dia 26 de setembro, em Iguala, Guerrero, vítimas do prefeito do PRD José Luis Abarca, hoje preso.

Em uma carta aberta, o próprio Cárdenas se queixou de “anos de desvios e claudicações”, em referência aos últimos diretórios partidários. Com Zambrano, o pragmatismo ultrapassou os princípios doutrinários e foram feitas alianças eleitorais com o direitista PAN apenas para ganhar alguns poucos governos estaduais, incluindo Guerrero, com candidatos distantes do que se poderia esperar de um partido de esquerda. Mais ainda, Zambrano levou o PRD a se alinhar nos acordos nacionais sobre reforma política, trabalhista, de telecomunicações e energética, apontadas pelo presidente Enrique Peña Nieto, em uma aproximação jamais vista com o PRI, nos recém-completos 25 anos de história do PRD.

Aquela que até o momento ainda é a principal força política de esquerda surgiu da ruptura do PRI, em 1988, quando a ala progressista desse partido foi avassalada pelo grupo neoliberal de Miguel de la Madrid e de Carlos Salinas de Gortari, presidentes do México entre 1982 e 1994. A saída de Cuauhtémoc Cárdenas Solórzano, filho do general revolucionário Lázaro Cárdenas del Río, que nacionalizou o petróleo meio século atrás, junto com um importante grupo de priistas, entre os quais se destaca Porfirio Muñoz Ledo, foi a confirmação do cisma que só doze anos depois haveria de terminar com as sete décadas de governos hegemônicos do PRI, mas não pela esquerda cardenista aglutinada no PRD, partido que seria fundado em 1989, mas, sim, pelo direitista Partido Ação Nacional, o PAN, e seu candidato, o populista Vicent Fox.

Cárdenas foi candidato à presidência da República em 1988, 1994 e 2000, sendo derrotado as três vezes pelo PRI. Foi o primeiro chefe de governo eleito da Cidade do México, entre 1997 e 1999, a partir do que se inicia a ascensão eleitoral do PRD, que quase leva à presidência Andrés Manuel López Obrador, em 2006. Após isso, a esquerda do PRD foi retrocedendo nas urnas. Neste ano, o próprio López Obrador abandonou o PRD para criar seu próprio partido político: Movimento de Regeneração Nacional (Morena). Com ele, milhares de membros do PRD mudaram de partido.

Atualmente, o PRD é governo no Distrito Federal, Morelos e Tabasco. Também era em Guerrero até que o ex-priista Angel Aguirre Rivero renunciou pela matança e desaparecimento de estudantes em Iguala. Além disso, divide o governo em Oaxaca, Sinaloa e Puebla, por meio da coalizão com o direitista PAN e vários partidos menores. Antes, governou Zacatecas, Baja California Sur, Michoacán, Chiapas e Tlaxcala. Exceto o último, em todos esses estados perdeu nas urnas, entre 2010 e 2012.

Por si só, ou em outras coalizões e alianças, o PRD também lidera 286 dos 2.456 municípios do país, o que significa que governa diretamente pouco mais de 14,6 milhões de mexicanos, ou seja, 13,52% da população total do país, de acordo com as estatísticas on-line desse partido. No total, são 2.708 funcionários municipais eleitos pelos quais deve responder. José Luiz Abarca era um deles, em Iguala.

Após o ataque contra estudantes normalistas de Ayotzinapa, no último dia 26 de setembro, em que a polícia municipal, sob as ordens de Abarca, assassinou seis pessoas (três deles estudantes) e levou outros 43 ao desaparecimento forçado, o olhar nacional se voltou para Guerrero. Por todos os lados afloraram histórias de narcopolítica, entre elas relatórios de inteligência, que foram filtradas pela imprensa, destacando ao menos doze presidentes municipais como “objetos de interesse especial” de agências de investigação do Estado. Eram oito prefeitos do PRD e quatro do PRI.

Os prefeitos do PRD foram vinculados aos cartéis de La Familia michoacana, Guerreros Unidos, Los Rojos e Los Caballeros Templarios. Os priistas investigados teriam nexos semelhantes, também com o cartel dos irmãos Beltrán Leyva.

A crise interna do PRD foi nutrida pelos meios de comunicação alinhados ao governo de Enrique Peña Nieto, que deram um seguimento incomum à responsabilidade dos governos do PRD no caso Ayotzinapa.

O próprio Cuauhtémoc Cárdenas pagou o preço de uma opinião pública voltada contra o PRD. No último dia 8 de outubro, em uma das primeiras marchas pelos desaparecidos de Ayotzinapa, foi objeto de uma agressão, ao receber empurrões e ser alvo de vários objetos que lhe foram lançados, alguns com líquidos que o deixaram ensopado e sujo. Com ele caminhava o historiador e cientista político bonaerense Adolfo Gilly, nacionalizado mexicano desde 1982, que acabou ferido. Cárdenas lamentou que se penalizasse o PRD e pediu para que fosse centrada a responsabilidade naqueles que foram os responsáveis pelas decisões partidaristas, “que possuem nomes e sobrenomes”.

No dia 4 de novembro, o ex-presidente do PRD, Jesús Zambrano, foi acuado em um ato na UNAM, nas redondezas da Unidade de Pós-graduação, onde foi rodeado e seguido por vários jovens que o chamaram de “traidor” e “assassino”, enquanto gritavam em favor da aparição, com vida, dos 43 normalistas desaparecidos. Zambrano dirigiu o PRD de março de 2011 até o último dia 5 de outubro. Em seu período, ascenderam os prefeitos do PRD detidos em Guerrero, José Luis Abarca, em Iguala, e Feliciano Alvarez Mesino, em Cuetzala del Progreso, preso desde o dia 8 de abril. O PRD de Zambrano também apoiou e deu suporte ao priista Angel Aguirre Rivero para ganhar o governo de Guerrero.

Durante sua primeira década de existência, o PRD foi dirigido pelo grupo cardenista aglutinado naquela que foi a Corrente Democrática do PRI, que se opôs à candidatura de Carlos Salinas de Gortari, por fim presidente do México entre 1988 e 1994. O primeiro a presidir o novo partido de esquerda foi o próprio Cuauhtémoc Cárdenas, e manteve sua ascensão durante as presidências dos ex-priistas Porfirio Muñoz Ledo e Andrés Manuel López Obrador. Nos últimos seis anos esteve nas mãos da velha esquerda, que se dissolveu para fundar o PRD. Zambrano fez parte da Liga Comunista 23 de Setembro e foi preso político entre 1974 e 1975.

Apenas após o dia 5 de outubro é que Zambrano entregou a diretoria nacional do PRD para Carlos Navarrete, outro velho militante do desaparecido Partido Socialista dos Trabalhadores, o PST, onde também se formou Jesús Ortega, predecessor de Zambrano.

Esse é o grupo ao qual Cuauhtémoc Cárdenas atribui a ruína do PRD e ao qual exigiu mais de uma vez sua renúncia, acusando-o de tornar o partido uma franquia eleitoral. Praticamente, com uma chamada para reinventar seu partido, distante do sistema de cotas que lhe atomizou.

Nas próximas semanas, poderá ocorrer um debate público entre Cárdenas e Navarrete que defina o futuro desta parte da esquerda.

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