Dia da Consciência Negra: Família de 'novo Amarildo', sumido na Bahia, faz apelo

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Por: Cesar Sanson | 21 Novembro 2014

"Faço o apelo para que a verdade venha à tona. Por favor. A gente sabe o que aconteceu com meu irmão. Uma coisa é encontrar seu parente morto e sepultar seu ente querido de forma digna. Outra é o que está acontecendo. Esse silêncio. Dói na gente." A voz embargada é da universitária Camila Fiúza, de 25 anos, irmã do adolescente Davi Fiuza (foto), de 16, visto pela última vez há 26 dias. "Encapuzado, com os pés e as mãos amarrados, dentro de uma viatura da PM", diz a família.

A reportagem é de e publicada por BBC Brasil, 20-11-2014.

A mesma descrição foi dada à polícia por testemunhas que estavam no bairro Estrada Velha do Aeroporto, periferia de Salvador, onde fica a casa do pai de Davi. O caso foi registrado às 7h30 do dia 24 de outubro, durante uma operação policial na região, conhecida na cidade por registros de violência e tráfico de drogas.

O jovem negro, que nunca teve passagem pela polícia, estaria conversando na calçada com uma vizinha quando, segundo relatos, foi abordado e teve o rosto coberto pelas próprias fardas dos policiais.

"Não temos indícios consistentes da participação de policiais neste desaparecimento", disseram à reportagem, por telefone, porta-vozes da Secretaria de Segurança Pública (SSP), de Salvador. "Se aparecer qualquer fato que vincule PMs ao caso, a corregedoria adotará providências", informou a corporação.

Se confirmado, o episódio não será um caso isolado. Dos 30 mil jovens entre 15 e 29 anos assassinados todos os anos no país, 77% são negros. Segundo a Anistia Internacional, se nos últimos 10 anos os homicídios contra jovens brancos diminuíram 32,3%, o total entre jovens negros cresceu 32,4%.

Comemorado nesta quinta-feira (20 de novembro), o Dia da Consciência Negra, que coincide com a data da morte de "Zumbi dos Palmares", em 1695, foi criado justamente para chamar atenção e mobilizar a sociedade para reverter este quadro.

#cadedavi

A hashtag #cadedavi surgiu nas redes sociais poucos dias depois do sumiço. A associação com a prima mais conhecida, #cadeamarildo, é imediata.

No caso do pedreiro carioca, desaparecido na favela da Rocinha em junho do ano passado, a mobilização online conseguiu chamar atenção da mídia e das autoridades, que então aprofundaram as investigações.

Após inicialmente negarem participação no desaparecimento, 25 policiais militares respondem até hoje por crimes de tortura, ocultação de cadáver, fraude processual, omissão imprópria e formação de quadrilha. A morte de Amarildo foi confirmada. O julgamento ainda não foi concluído.

Em entrevista ao #salasocial, a polícia preferiu não detalhar a abordagem e nem a operação que era realizada no bairro de Davi. "A investigação ainda está em curso. Os policiais que estavam lá já foram identificados, mas isso não significa que recorra qualquer culpa sobre eles", afirmou a SSP.

Na última semana, a hashtag #cadedavi foi compartilhada mais de 2 mil vezes no Twitter. Outros termos associados à busca são #somostodosdavi e #davifiuza.

Frente ao que considera como "omissão do poder público", a família do jovem diz se sentir "amparada" pela mobilização de estudantes e professores de universidades baianas e pelos "companheiros anônimos" das redes sociais.

O amparo, entretanto, não significa otimismo.

Realismo

"Preciso ser realista, né? Não tenho mais esperança de encontrar meu irmão vivo. Já passaram tantos dias...", diz Camila. "Se estiver com vida, com certeza bem ele não está. Se encapuzaram e amarraram, não dá pra esperar que vão dar comida e água direitinho", diz a irmã.

"Ele era o caçulinha. Lembro quando nasceu e chegou em casa com os olhos puxadinhos, meio japonezinho. Era eu que cuidava dele porque sou a mais velha e ele era o único menino da casa."

Episódios de violência contra jovens não são novidade, diz Camila. "Essa não é a primeira história que conheço, mas a gente nunca espera que aconteça dentro da nossa família. Já saiu reportagem sobre isso: no Brasil, a polícia mata pretos e pobres na periferia. Por isso eu quero falar. Não quero que fique impune de novo, não."

Segundo o capítulo "A Cor dos Homícidios" do Mapa da Violência, estudo promovido pelo Governo Federal, para para cada jovem branco que morre assassinado, morrem 2,7 jovens negros. A maioria dar mortes acontece por tiros disparados por armas de fogo - menos de 8% dos casos são julgados.

No Brasil, o total de homicídios contra negros entre 2002 e 2012 saltou 38,7% (de 29.656 para 41.127). Na Bahia, onde vive Davi, as mortes de negros no mesmo período cresceram de 1.564 para 5.487 - um aumento de 250,8%.

Em todo o país, o Estado só perde neste quesito para o Rio Grande do Norte, onde o aumento registrado foi de 294,6%.

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