O que é o temível Estado Islâmico?

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Por: Jonas | 18 Novembro 2014

“O complicado Oriente sempre volta às suas pegadas. Estados nacionais, interesses das grandes potências, riquezas petrolíferas, alianças e mudança de alianças, divisões étnicas e permanente instabilidade. Esse Oriente onde o fato religioso, às vezes, suplanta ou se sobrepõe aos secularizados conceitos ocidentais de nação, revolução, progresso, classe ou emancipação”, escreve Paco Peña, em artigo publicado por Rebelión, 17-11-2014. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Aproveitando o enfraquecimento estatal sírio e iraquiano e o consecutivo abandono de sua população sunita, nas regiões do norte do Iraque e noroeste da Síria, o inicialmente autoproclamado Estado Islâmico do Iraque e do Levante, hoje Estado Islâmico (1), continua sua progressão.

Como foi possível um avanço tão rápido e como se explica que as forças iraquianas e sírias não tenham conseguido colocar atalho à nova organização, que foi descrita pelas potências mundiais como um “bando de desalmados e assassinos terroristas”? O emprego desta caracterização de ordem moral dificulta a compreensão do que está ocorrendo nessa ampla região do Oriente Médio. O conflito envolve territórios de aproximadamente seis milhões de quilômetros quadrados e de maneira direta ou indireta abarca 268 milhões de pessoas (2). A região abriga grandes reservas de petróleo e, caso acrescentemos antecedentes de índole étnico ou religioso e os interesses das grandes potências, teremos um esboço do polvorinho do planeta, no Próximo e Médio Oriente.

É preciso buscar os antecedentes do Estado Islâmico no Iraque invadido, saqueado e ocupado pelas tropas estadunidenses, a partir de 2003. Sua data de fundação é 2006, quando um grupo de combatentes de diversas organizações ligadas a Al-Qaeda, no Iraque, decidiram formar um conselho de muyaidines (combatentes) que lutava contra a ocupação norte-americana e suas arbitrariedades. Em outubro desse ano, foi proclamado o Estado Islâmico do Iraque, que manifestou representar o verdadeiro Iraque, e desde 2013, ao calor do conflito que se desenvolve nesse país, a Síria. Nesse mesmo ano, o Estado Islâmico do Iraque se separou da Al-Qaeda. Em junho passado, Abú Bakr Al Baghdadí se proclamou califa do Estado Islâmico, com o nome de “Ibrahim”, nos territórios sírios e iraquianos que a organização controla.

Retorno às origens

O Estado Islâmico é um movimento sunita de inspiração salafista, a corrente muçulmana que defende o “retorno às origens”. No jargão islamita designa aos “ancestrais” e faz referência ao círculo íntimo do profeta Maomé. Os salafistas realizam uma leitura literal do Alcorão e vários pregadores islâmicos pertencentes a essa corrente tem exercido uma grande influência até nossos dias. Sem sombra de dúvidas, entre eles se sobressai Mohamed Ben Adbelwahab (século XVIII), que estabeleceu uma estreita aliança com Mohamed Ben Saud (1740-1765), fundador da dinastia Saud, qualificada como wahhabita, que a Arábia Saudita dirige até os nossos dias.

Desde os anos 1980 e com a guerra do Afeganistão, desenvolveu-se a corrente salafista jihadista, que defende a luta armada contra os “infiéis que ousam manchar a terra islâmica”, como também contra os Estados muçulmanos “ímpios”. Pretende-se impor regimes islâmicos pela força. Os jihadistas consideram que muitos grupos e/ou Estados muçulmanos se dedicam muito à pregação e às ações caritativas em detrimento do dever de cada muçulmano em hastear as bandeiras da jihad (guerra santa) por todo o mundo.

O Estado Islâmico é particularmente hostil aos xiitas e seu objetivo declarado continua sendo o restabelecimento da organização unificadora político-religiosa UMA (comunidade muçulmana) como o califado abássida (3). Alguns observadores falam de takfirismo para se referir a uma corrente mais radical, que também teria influência no Estado Islâmico (4).

O marco a partir de onde ocorre este conflito acrescenta outro aspecto. Cada um dos Estados da região, que estão envolvidos direta ou indiretamente, tem seus próprios interesses nacionais, que às vezes se contrapõem ou não se adaptam com as diferenças étnico-religiosas.

Apoio nas sombras

Inicialmente, os combatentes do Estado Islâmico receberam apoio político, econômico e militar, apetrechos e transporte da Turquia e Arábia Saudita. Outros países islâmicos, como Qatar, Emirados e Kuwait, contribuíram economicamente, para depois - devido à contradição patente entre o discurso antiterrorista ocidental e o acionar dos mercenários na região (5) - continuar operando sob a corda.

Com a invasão ao Iraque em 2003, os Estados Unidos colocaram em marcha o plano de remodelação do Próximo e Médio Oriente, com a intenção de garantir seu controle sobre o petróleo e, por sua vez, procedeu na aplicação de um projeto sonhado por Telavive: a divisão étnico-religiosa dos países considerados como “irredutíveis” e que representavam uma ameaça para os interesses norte-americano-sionistas (Irã, Iraque e Síria).

O Iraque já havia sido empregado como ponta de lança contra o primeiro, incitando-se Bagdá a atacar o Irã e acabar com o nascente poder islâmico instaurado pela revolução do aiatolá Khomeini, em 1979.

A guerra entre estes países durou oito anos (1980-1988), causando cerca de um milhão de mortos. Porém, depois o Iraque foi acusado pelos mesmos que o haviam incitado na desastrosa aventura iraniana, de desenvolver armas de destruição massiva. Foi invadido, destruído, saqueado e seu território esquartejado pelas tropas estadunidenses, com aprovação de Israel, que via um de seus anseios cumprido: destruir a ameaça que representava um país laico que fazia parte dos Estados intransigentes, intratável no que diz respeito à questão palestina.

Esse plano também previu a derrubada de regimes de países petroleiros que, assim como a Líbia, por vezes exibiam uma irritante independência. E no entusiasmo criado pela “primavera árabe”, manipulada pelos Estados Unidos e a União Europeia, em seguida, seria a vez da Síria, invadida por dezenas de milhares de mercenários jihadistas que trataram de submeter esse país a sangue e fogo. Nesta última parte da trágica história contemporânea da região, os Estados Unidos contaram, para além de seus aliados regionais (Arábia Saudita, Qatar, Turquia e sob a corda Israel), com o apoio da União Europeia, especialmente com a Grã-Bretanha e a França do social-democrata Hollande, que se destacou em seu apoio político, econômico e militar à agressão contra Síria.

No entanto, a Síria não apenas resistiu com êxito à agressão e provocações franco-turco-israelenses, que procuraram lhe atribuir um suposto ataque com armas químicas em 2013, como também conseguiu reverter uma situação política e militar em um primeiro momento desfavorável. Para isso, contou com o apoio político, diplomático, econômico e militar da Rússia, que voltou a ter um papel de primeiro plano na região.

Uma força de trinta mil homens

Surgiu, então, de maneira aparentemente intempestiva, uma força devidamente armada (trinta mil homens armados dizem fontes próximas aos serviços estadunidenses) que adentrou a partir do noroeste do Iraque e que, em poucas semanas, combateu o exército curdo-iraquiano, que se debandou. O Estado Islâmico se apoderou de um terço da região autônoma curda, instalando sua capital em Mossul, ameaçando a cidade de Erbil, ambas no coração da zona petroleira. Também se fez forte no leste e norte da Síria, em regiões onde o Estado central e suas forças já estavam fragilizados, em consequência da guerra imposta, desde 2002, por milhares de mercenários jihadistas e que, de fato, estavam nas mãos dos peshmergas curdos ligados ao PKK e ao PYD (6).

Diante da investida, tanto os Estados Unidos como os seus sequazes europeus e da região têm dificuldades manifestas para se entender, uma vez que cada um persegue objetivos diferentes, quando não contrários. É por isso que França, Turquia e Israel, que quiseram forçar a mão para Washington, em 2013, e obrigá-lo a bombardear a Síria, não parecem seguir a mesma música que os Estados Unidos.

De sua parte, a Turquia teme, sobretudo, que os curdos e suas expressões políticas e militares, o PKK na Turquia e o PYD curdo na Síria, saiam reforçados deste conflito. Na realidade, os curdos sunitas, com uma população de 35 milhões, têm uma presença real no Iraque, Turquia, Síria e Irã e já existe o precedente de uma república curda em 1946, além da existência das zonas autônomas curdas no norte do Iraque.

Dois de seus principais dirigentes, Massud Barzani e Jalal Talabani, há décadas, vêm flertando com os Estados Unidos, e o primeiro com Israel. A presidência honorária do Iraque foi atribuída a Talabani, que a exerceu durante dois períodos (7). Os curdos sírios, apesar dos insistentes chamados e ameaças de Ancara e Telavive, têm recusado a empunhar as armas contra Damasco. Majoritariamente combatem aos mercenários jihadistas de Al-Nusra e as forças do Estado Islâmico na emblemática cidade fronteiriça de Kobane. Ajudados pelos bombardeios aéreos norte-americanos contra posições do Estado Islâmico, também recebem apetrechos militares por via aérea, provocando a irritação de Ancara. Porém, as diferenças entre Washington e Ancara têm seus limites, tanto um como outro se necessitam, nesta partida de pôquer internacional, uma vez que a Turquia é uma peça importante no dispositivo militar da OTAN.

O Curdistão histórico abrange aproximadamente 520.000 quilômetros quadrados, em quatro Estados nacionais e vizinhos: Turquia, Síria, Iraque e Irã. Desde 1991, devido à invasão estadunidense (que ao final da guerra impôs uma zona de exclusão aérea a partir do paralelo 36), o Curdistão iraquiano gozou de uma independência de fato, e instaurou um governo regional curdo (presidido por Massud Barzani) que chegou a ser o interlocutor imprescindível dos ocidentais na reconstrução das instituições iraquianas. A eleição de Jalal Talabani como presidente do Iraque é nesse sentido significativa.

Manipulação de Washington

Um dos resultados não previstos por Washington, após a invasão, foi a influência decisiva que os xiitas iraquianos adquiriram no Irã (8). Isso não era completamente previsto e é um dos elementos de discórdia entre os Estados Unidos, alguns países europeus e Israel, que não tem exatamente os mesmos pontos de vista a respeito do programa de energia nuclear levado adiante por Teerã. Os Estados Unidos mantiveram sua preferência pelos dirigentes curdos Barzani e Talabani (sunitas) e os colocou na liderança da região autônoma curda, precisando contar com o descontentamento da opinião xiita iraquiana, majoritária, e dos iraquianos árabes (sunitas), que consideram que os curdos levam a parte do leão.

Neste complicado cenário, é o papel de Telavive o que explica as posições e, por vezes, as cambalhotas dos Estados Unidos, da União Europeia e de alguns países da região. Israel vê com bons olhos a fragilização da Síria, a divisão do Iraque e a quarentena do Irã. Porém, no prosseguimento de seus interesses nacionais, às vezes, Telavive contraria os planos de Washington, apesar de continuar sendo seu porta-aviões na região. No entanto, há alguns anos, quando algumas vozes se levantaram no Departamento de Estado para denunciar que os interesses dos simbióticos aliados nem eram sempre idênticos (9), e que deveria existir uma recepção mais acolhedora às repreensões do mundo árabe e muçulmano, que acusam os Estados Unidos e a União Europeia por incondicionalidade diante de Israel, dirigentes sionistas começaram a observar novos ares no horizonte.

Israel efetuou bombardeios contra objetivos militares em território sírio e colabora com os mercenários jihadistas na fronteira com a Síria, provendo-lhes com aparatos militares sofisticados de inteligência, munições e ajuda médica. Por isso, explica-se a aproximação de Telavive com certos países sunitas que apoiam o Estado Islâmico e os mercenários que atacam a Síria. É o que um dirigente governamental israelense chama de “diplomacia do cogumelo, que se desenvolve nas sombras”, fazendo alusão ao “novo horizonte diplomático” anunciado por Netanyahu, que se traduz por tentativas de aproximação não apenas com o Egito e a Jordânia, com também com a Arábia Saudita e os países do Golfo.

O complicado Oriente sempre volta às suas pegadas. Estados nacionais, interesses das grandes potências, riquezas petrolíferas, alianças e mudança de alianças, divisões étnicas e permanente instabilidade. Esse Oriente onde o fato religioso, às vezes, suplanta ou se sobrepõe aos secularizados conceitos ocidentais de nação, revolução, progresso, classe ou emancipação.

Notas

1. Por razões ideológicas, em alguns países europeus e nos Estados Unidos começou a ser chamado de Daech ou Daesh, uma abreviação tomada do árabe, mostrando que não é um Estado reconhecido pela comunidade internacional. Nestas linhas, chamá-lo-emos Estado Islâmico, que é o nome com o qual se autoproclamou.

2. Incluímos a Arábia Saudita, Bahrein, Emirados, Qatar, Omã, Iêmen, Irã, Iraque, Israel, Jordânia, Kuwait, Líbano, Síria e Turquia.

3. O califado abássida (750-1258) sucedeu ao omíada e seria o protótipo do sistema de governo muçulmano propugnado pelos salafistas, uma vez que concentra em suas mãos o poder político e religioso.

4. O takfirismo é um movimento islamita ainda mais sectário e retrógrado, fundado em 1971 por Mustafá Choukri – executado pelas autoridades egípcias, em 1977 –, que qualifica como ímpias as sociedades muçulmanas que não compartilham seus pontos de vista e considera lícitas as exações e assassinatos em nome do Islã.

5. Tratam-se dos britânicos David Hainess (de uma ONG e ex-militar da RAF), Alan Henning e do jornalista israelense-estadunidense Steven Sotloff, assassinados em setembro; outro jornalista norte-americano, James Foley, foi decapitado em agosto.

6. PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) fundado em 1978, marxista, cujo líder Abdullah Oçalán está preso na Turquia, desde 1999, após ser capturado em uma operação conjunta CIA-Mossad e os serviços turcos. O PKK é considerado como uma organização terrorista pelos Estados Unidos e a União Europeia. Firmou cessar-fogo com Ancara, em 2013. O PYD (Partido da União Democrática Curda) é um ramo sírio do PKK. Possui uma potente força militar, a YPG, Unidades de Proteção do Povo, que combate o Estado Islâmico na cidade fronteiriça de Kobane.

7. PDK (Partido Democrático do Curdistão) fundado por Mustafá Barzani, em 1946 - general da República Curda de Mahabad ou do Curdistão - (falecido em 1979), pai e predecessor do atual chefe do PDK, Massud Barzani. A UPK (União Patriótica do Curdistão) é resultado de uma cisão do PDK, dada em 1975, liderada por Jalal Talabani, primeiro-presidente curdo do Iraque por dois períodos (2005-2012).

8. Os xiitas constituem 80% da população iraniana e o xiismo é a religião de Estado. No Iraque são majoritários (51%); no Iêmen 55%; no Bahrein 50% e no Líbano 25%.

9. O livro “El lobby pro israelí y la política extranjera estadounidense” (2007), dos norte-americanos John Mearsheimer e Stephen Walt, critica a orientação da diplomacia de Washington na região, e avança na necessidade de uma política mais equilibrada, tomando em conta o peso que adquiriu o mundo árabe-muçulmano. Israel deixaria de ser ator imprescindível.

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