25 anos depois. Vozes silenciadas: lembrando o assassinato dos seis jesuítas

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17 Novembro 2014

Uma placa memorial inscrita com o nome dos seis padres jesuítas é vista no jardim de rosas que foi criado no lugar onde foram executados em 16 de novembro de 1989, na Universidade da América Central, em Sal Salvador, El Salvador. (Newscom/Reuters/Luis Galdamez)

Hoje, domingo, dia 16 de novembro, marca o 25º aniversário do massacre na Universidade Centro-Americana - UCA, em San Salvador, El Salvador. No dia 16 de novembro de 1989, um esquadrão militar salvadorenho adentrou o campus, onde abriram fogo e mataram os jesuítas Ignacio Ellacuría, Ignacio Martín Baró, Segundo Montes, Joaquín López y López, Amando López e Juan Ramón Moreno, além da uma trabalhadora doméstica, Elba Ramos, e sua filha, Celina.

A reportagem é de Mary Jo McConahay,  autora do livro Ricochet: Two Women War Reporters and a Friendship Under Fire, publica por National Catholic Reporter, 14-11-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eram seis 6h da manhã. Peguei um taxi do hotel com três outros jornalistas e fomos para um bairro de San Salvador chamado Zacamil, onde guerrilhas tomaram o poder. Era o quinto dia da ofensiva encabeçada pela Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional – FFMLN na capital, o maior desafio militar ao governo apoiado pelos EUA em nove anos de guerra civil, e nós esperávamos conseguir entrevistas com os comandantes dos rebeldes.

Poucos minutos depois, no entanto, nos encontramos entre franco-atiradores. Nos escondemos rapidamente entre os carros estacionados na rua em busca de proteção.

Eventualmente, parei, amontoei-me ao chão, lutando com minhas emoções, pensando se deveria ir com os outros ou voltar. Eu precisava superar a ideia de que os meus colegas, todos homens, estavam avançando enquanto que eu, uma mulher, não estava, e o que aquilo poderia significar para os outros e para mim mesma. Decidi seguir minha intuição e voltei. Fui para o escritório, no hotel, para saber dos desdobramentos dos eventos. Um voluntário do Serviço Jesuíta aos Refugiados, um americano que conhecia, me deixou do lado de fora do hotel.

“Eles mataram Ellacuría”, ele disse.

Um colega da BBC e dois outros correspondentes de rádio vieram até nós. Nós jornalistas não aceitávamos que o padre jesuíta Ignacio Ellacuría, teólogo e reitor da Universidade Centro Americana José Simeon Cañas, estivesse morto. O voluntário ouvira a notícia de um alguém qualquer, e os rumores de que Ellacuría havia sido morto circulavam de tempos em tempos, uma artimanha de desinformação ou de pensamento desejante destinado a semear aflição durante a guerra. Ellacuría promovia ativamente uma solução negociada – não militar – para o conflito, e tinha acesso tanto ao presidente de direita Alfredo Cristiani quanto à FFMLN.

“Devemos ir embora”, disse o jornalista da BBC.

Subimos em seu jeep, com o teto todo furado de balas perdidas, e andamos por cerca de 15 minutos até uma localidade estranhamente calma ao lado do campus da universidade. Um soldado do governo se encontrava numa guarita do outro lado da rua, mas não nos desafiou. Sabíamos que a residência dos jesuítas era bem próxima do muro do campus, pelo lado de dentro. Batemos nas portas de metal e nos identificamos.

Do lado de dentro, no gramado há uns poucos metros da residência, jaziam quatro corpos cobertos com lençóis. O que parecia ser sangue tingia alguns destes panos. Nas escadas e numa pequena varanda vários homens, que pareciam padres, permaneciam encarando o gramado, alguns eram idosos e dois bastante jovens. Eles olhavam solenemente. Já passara das 7h. Éramos os primeiros repórteres a chegar. Os meus colegas, com microfones em punho, começaram a entrevistar os religiosos na varanda. O Pe. José María Tojeira, provincial jesuíta para a América Central, conhecido entre nós como Chema, veio até o gramado e pediu– foi assim que eu entendi – que o seguisse para dentro da residência.

Num corredor com portas abertas para os quartos em ambos os lados, havia um corpo de bruços ao chão. Uma faixa do que pareceu ser sangue marcava o piso, como se o corpo tivesse sido arrastado. Chema mandou-me entrar num dos quartos, onde outro homem se encontrava morto. Ele assistia enquanto eu escrevia em meu caderno, mas parecia estar com muita urgência. “Há mais”, disse ele.

Fomos para fora novamente e descemos mais alguns passos para chegar até a porta aberta de um pequeno aposento. Do lado de dentro havia dois corpos, eram de uma mulher e de uma menina, caídos para trás a uns poucos metros da entrada. Era a cozinheira e sua filha, disse Chema. Tive dificuldades para controlar minha mão, rabiscando freneticamente as páginas de meu caderno. “Sangue até o telhado”, escrevi. Registrei como a região pélvica da menina parecia como se o assassino tivesse esvaziado a sua arma aí, e como as pernas da mulher haviam caído por sobre a menina; era como se ela tivesse ficado em frente quando os assassinos entraram e atiraram.

Naquele momento, a jornalista em mim desapareceu. Eu tinha uma filha de 3 anos de idade em casa. Vi diante de mim outra mãe, incapaz de proteger a sua filha. Não conseguia continuar, pensar. Ao mesmo tempo, uma outra voz dentro de mim dizia: “Você está aqui para fazer um trabalho, e se não puder fazer, então não tem o direito de estar aqui”.

Caminhamos até o quintal novamente e vi que dois fotógrafos salvadorenhos que eu conhecia bem tinham chegado. “Padre, o senhor precisa tirar os lençóis de cima dos corpos”, eu disse a Chema.

Ele olhou assustado. Em seguida, seu rosto mudou e, então, disse: “Você precisa me prometer que estas fotos vão chegar aos jesuítas”.

Foi aqui que imaginei que Tojeira, e talvez outros, pensou que não estávamos no rescaldo de um massacre, mas no meio de um maior. Será que os assassinos se empenhariam em eliminar todos os jesuítas locais? Aqueles dias eram caóticos. O exército estava se sentindo pressionado. Tudo poderia acontecer.

“Padre, garanto ao senhor que, em poucos minutos, estas fotos estarão rodando o mundo”, disse.

Tiraram-se os lençóis e eis que aí estavam os sacerdotes que conhecera em vida. A minha primeira reação foi de surpresa. O que estava vendo era inevitável, pensei, pois eu os conhecera pessoalmente. As entrevistas ou encontros que eu tive com eles me mostravam que estes religiosos viam a vida através dos olhos dos empobrecidos e que exigiam justiça neste mundo.

Olhei-os, um por um. Aí estava Ellacuría, com sua voz silenciada, deitado de costas ao chão, como se ele tivesse olhado para os assassinos no momento da morte.

Segundo Montes, quem, para mim, sempre pareceu viver com a ira controlada de que as comunidades originárias de El Salvador estavam sendo destruídas violentamente, que as famílias estavam sendo separadas, que os sobreviventes fugiam para morar distante entre estrangeiros.

Ignacio Martín-Baró, o Nacho, que trabalhou próximo dos pobres mais afetados pela violência; sempre lembro, e aqui lembro novamente, que foi Nacho quem havia primeiramente explicado a mim que os tempos de guerra, o trauma e a aflição não são estados psicológicos anormais, mas uma resposta realista entre as pessoas comuns a um estado inescapável do ser. Que nos tempos de guerra, as pessoas podem parecer mentalmente doentes, mas o que está acontecendo é que elas se encontram em meio a problemas que não podem resolver e agem de uma forma que os outros enxergam como inapropriada. Foi uma tremenda lição que tirei sobre o custo escondido da guerra.

Eu desconhecia o quarto homem, exceto por meio de alguns “Buenos dias”; mais tarde descobri ser o teólogo Amando López, quem certa vez foi o reitor da Universidade Centro-Americana, em Manágua.

Anotei detalhes das feridas visíveis, roupas, da posição dos corpos.

Houve uma batida na porta de metal. Olhando por sobre ela, enxerguei um agente salvadorenho conduzindo vários soldados ao jardim, com armas em punho. Em geral, numa situação como esta o jornalista irá manter um olho no que está acontecendo enquanto mantém o outro na rota de saída, caso for necessário, e eu talvez tenha feito isso, mas não recordo. A imagem que tenho é de um grupo de religiosos e jornalistas parados enquanto Tojeira caminhava em direção ao agente a dizer: “O senhor está vendo o que aconteceu aqui? Vê o que vocês fizeram?”

Não tive condições de saber se esta unidade militar apareceu por contra própria ou se era parte da operação também, sendo sua missão registrar a cena como parte da tentativa oficial de atribuir os assassinatos aos rebeldes. O certo é que a coragem prevaleceu entre as testemunhas no quintal face aos homens armados. O oficial ordenou a um subordinado que tirasse fotos e então se foram.

Nós jornalistas nos apressamos para registrar nossas histórias, mas uma mulher bem-vestida nos abordou antes que pudéssemos entrar no jeep. “Digam a verdade”, falou.

Esta admonição foi arrepiante, um código para uma ameaça da extrema direita contra os jornalistas, considerados como inimigo pelo partido governante – ARENA – e pelo exército. O major Roberto D’Aubuisson, fundador do partido, arquiteto do esquadrão da morte que matou Dom Oscar Romero em 1980, costumava apontar para os repórteres que cobriam os seus comícios e cantar: “Digam a verdade!”

Neste caso, no entanto, tornou-se claro se tratar de algo mais. “Digam a verdade sobre o que as forças armadas estão fazendo aqui”, disse ela, e começou a chorar.

Poucos dias depois, voltei à região onde ficava a residência dos religiosos e encontrei o jardineiro, Obdulio Lozano, esposo da assassinada Elba Ramos e pai menina morta, Celina. Ele estava trabalhando, fazendo uso de uma espátula. Disse que estava plantando oito roseiras, uma para a sua esposa, uma para a sua filha e uma para cada um dos padres que morreram.

Passei pela capela que certa vez Ellacuría havia me mostrado com orgulho, quando sua construção tinha terminado. Era uma capela dedicada a Romero, hoje o lugar de descanso dele próprio, Ellacuría, e dos outros padres mortos. Tojeira deu uma coletiva de imprensa naquele dia a jornalistas sentados diante de uma longa mesa. “Não queremos vingança”, falou. “Queremos justiça”.

Desde 1989 visitei, por várias vezes, a região onde os assassinatos aconteceram. Uma vez foi em 2011 com outros jornalistas que também cobriram a guerra civil. Tojeira juntou-se a nós na sala onde a mulher e a menina foram assassinadas. Ela estava limpa e decorada com um sofá, um lugar onde os visitantes podem se sentar enquanto um estudante voluntário conta a história dos assassinatos.

Uma colega que eu sabia ter estado presente no rescaldo dos assassinatos dizia: “Recorde ao Chema, diga a ele que você estava lá naquele dia”, mas eu não consegui falar. Minha boca estava seca.

Ela acabou lembrando a Chema sobre o caso, e ele olhou para mim com expectativa, mas a única coisa que pude dizer foi: “Por que o senhor limpou isso tudo? Por que o senhor não deixou as coisas como elas estavam?”

Tojeira disse que a mulher assassinada não gostaria que os outros vissem desarrumado o lugar onde ela e sua família viviam. “Você acha que eles gostariam de ver daquele jeito?”, disse.

O que eu acho não importa, mas acredito que não machucaria os visitantes o fato de eles verem a sala da forma que os soldados a deixaram, tal como eu a vi naquele dia.

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