Ellacuría e Companheiros: quem apertou o gatilho?

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17 Novembro 2014

"O mesmo monstro intolerante que executou a comunidade jesuíta em 1989 continua vivo e matando sem piedade. E ele não foi gestado em nenhum regime ditatorial moderno, mas na própria visão humana que enxerga a realidade pelo paradigma do poder, da competição e da conquista." A afirmação é de Renato Ferreira Machado, doutor em Teologia, autor de O desencantamento da experiência religiosa em House: "creia no que quiser, mas não seja idiota".

 

No dia 16 de novembro de 1989 as forças armadas de El Salvador falharam miseravelmente em sua missão: ao tentarem silenciar o grupo de Jesuítas que atuava na Universidad Centro Americana, conferiram-lhes uma voz que nunca se cala, a voz dos mártires. Ignacio Ellacuría, Ignacio Martín-Baró, Segundo Montes, Joaquin Lopez y Lopez, Amando Lopez, Juan Ramón Moreno, Elba Ramos e sua filha Celina foram brutalmente assassinados na residência dos jesuítas em San Salvador, em um ato planejado para desmoralizar as forças guerrilheiras que se opunham ao governo durante a guerra civil salvadorenha, que se estendeu de 1980 a 1992.

Logo, porém, ficaria claro que tal era a presença de postos avançados das forças armadas na região da residência que teria sido impossível um esquadrão rebelde fortemente armado ter furado este cerco e chegado até a casa. A culpa era, sim, dos militares a serviço do governo. Mais tarde, através de um documento chamado “O Coronel Montano e a ordem de matar”, fica-se sabendo que, ao longo de dois dias aconteceram exaustivas reuniões entre oficiais do Estado Maior das Forças Armadas, primeiramente decidindo se deviam ou não eliminar a comunidade de Ellacuría e, depois, decidindo como fazê-lo. Os sacerdotes, considerados “delinquentes terroristas” pelo exército, deveriam ser eliminados sem vestígios. Aquele grupo de homens em idades avançadas, apesar de não aparentarem, eram perigosíssimos: poderiam não conseguir pegar em armas, mas traziam planos perigosos em seus cérebros. Elba e Celina foram testemunhas do martírio e mártires também se tornaram.

O mesmo monstro intolerante que executou a comunidade jesuíta em 1989 continua vivo e matando sem piedade. E ele não foi gestado em nenhum regime ditatorial moderno, mas na própria visão humana que enxerga a realidade pelo paradigma do poder, da competição e da conquista. Desde seu alvorecer, o ser humano busca afirmar-se tanto pelo egocentrismo quanto pela solidariedade: através do primeiro, ele constrói uma identidade pessoal e independente. Através da segunda, ele se integra socialmente e, inserido em um grupo, resignifica seu ser. Ao longo da história, porém, estas duas potências identitárias sempre tenderam ao desequilíbrio, com maior tendência a uma postura egocêntrica. Isto cria uma identidade social que deságua em uma cultura de exclusão. Esta cultura foi se erguendo nas divisões e expansões de território, no elogio aos heróis de guerra, na celebração das batalhas mais sangrentas, na violência com disfarce lúdico, na naturalização da desigualdade e acabou apertando os gatilhos das armas que executaram Ellacuría e sua comunidade. Da mesma forma, porém, a cultura da solidariedade e da paz veio também trilhando seu rastro histórico no seio da humanidade.

Sem impor-se e aceitando as perseguições que sempre lhe foram impostas, este paradigma de identidade foi tomando forma na hospitalidade aos perseguidos, na escuta aos silenciados, nas perguntas sem resposta, nas flores colocadas nos canos dos fuzis, na arte que inspira a mudança, nas músicas que cantam a verdade, sem medo da censura e nas teologias que compreendem o Reino a partir dos excluídos. A cultura da paz estava naquela casa, na madrugada de 16 de novembro de 1989, sendo invadida e violentada pela cultura da guerra. A cultura da paz abraçou seu destino com generosidade, pois sabe cultivar a esperança para além do imediatismo.

Apesar das balas, do sangue e da morte, ela não morreu, mas metamorfoseou-se na justa indignação pela morte dos inocentes, nas lutas que a comunidade de Ellacuría passou a inspirar e nas lágrimas de um dos soldados executores, que reconheceu seu antigo reitor dos tempos de estudante no Padre Segundo Montes.

A morte de Ignácio Ellacuria e sua comunidade religiosa, incluindo-se aí Elba e Celina, não pode ser vista como simples fato histórico: mártires são guardiões de novas memórias, revelando na própria carne o preço que se paga pela transformação da realidade. O 16 de novembro, por isso, precisa ser vivido na mística do memorial de libertação do Povo de Deus e como perene discurso profético, que atravessa os tempos rumo à eternidade.

De Ellacuría e seus companheiros e companheiras vem o alerta sobre nossa ecologia da ação cotidiana, sobre as alianças que firmamos e o mal que podemos estar abraçando, mesmo sem saber. Em tempos nos quais grupos de pessoas reivindicam a volta de um regime militar em plena democracia, podemos estar invadindo novamente a comunidade de Ellacuría para despejar nossa fúria reacionária sobre os que ousam pensar diferente.

É bom que saibamos, porém: mártires nunca se calam!

No dia 18 de novembro próximo, as 11h15min, acontecerá a Celebração Eucarística em memória dos 25 anos do Martírio de Ignácio Ellacuría, Companheiros e Companheiras, na sala de mesmo nome, junto ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU. A celebração será presidida pelo Pe. Dr. Prof. Marcelo Fernandes de Aquino, SJ, reitor da Unisinos.

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