Pressão maior levará a pacto climático, avalia Al Gore

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06 Novembro 2014

Al Gore afirma que em dezembro de 2015, em Paris, o mundo estará pronto para assinar um acordo climático global. A consciência crescente quanto à mudança do clima, o aumento no número de eventos climáticos extremos e a pressão maior da população sobre os governos para que enfrentem o problema serão o pano de fundo de um tratado mundial, diz o ex-vice-presidente dos EUA. "É difícil para nós, como seres humanos e cidadãos de nossos respectivos países, imaginar que o mundo poderia agir em conjunto. Mas precisamos. É o único jeito de resolver esta crise".

A entrevista é de Daniela Chiaretti, publicada pelo jornal Valor, 05-11-2014. 

Os EUA preparam uma estratégia para participar do acordo global e, ao mesmo tempo, conseguir driblar os congressistas republicanos que são refratários ao tema e barrariam a ratificação de um acordo do gênero no Congresso. Os negociadores americanos têm falado em um acordo "híbrido". Gore dá pistas: "Um dos acordos mais bem sucedidos foi o assinado no Brasil, em 1992, a Convenção do Clima das Nações Unidas. Todas as outras negociações estão sob aquele guarda-chuva." O Congresso americano ratificou a convenção, ou seja, a tornou lei nos Estados Unidos.

O caminho seria atualizar a convenção com os novos compromissos que surgirem do tratado climático de Paris, sem que seja necessário ter de passar por novo crivo do Congresso americano. O presidente Barack Obama, que já conseguiu o aval da Suprema Corte para limitar as emissões de gases atmosféricos que façam mal à saúde, foi bem-sucedido em enquadrar os gases-estufa neste critério.

Na prática, isso significa que o Executivo americano pode tomar decisões de reduzir emissões sem ter que passar pelo Congresso. Esta pode ser a fórmula para remover um dos principais obstáculos a um acordo climático global.

Já há alguns anos, lembra Gore, o presidente americano "tem o dever e o direito de agir" em casos de "poluição atmosférica perigosa". Ele emenda: "Agora os cientistas estão nos dizendo, de maneira clara, que esta [a emissão de gases estufa] é uma forma perigosa de poluição atmosférica, porque ameaça o futuro da civilização. Então, independentemente dos políticos, o presidente pode agir por conta própria."

Al Gore, de 66 anos, que por oito anos foi vice-presidente de Bill Clinton em um dos períodos mais prósperos da economia americana, está no Brasil esta semana para dar o seu 26º treinamento em mudança do clima, iniciativa que vem promovendo ao redor do mundo nos últimos anos. Trata-se do Projeto Realidade Climática que, no Brasil, é feito em parceria com a ONG Amigos da Terra - Amazônia Brasileira, que comemora 25 anos de existência.

Hoje, no Rio de Janeiro, Gore falará sobre clima o dia todo. Na plateia, mais de 800 inscritos, a maioria do Brasil, mas também de outros 52 países. São profissionais liberais, estudantes, banqueiros e bancários, ambientalistas, religiosos, fotógrafos. Na fila de espera havia mais de mil pessoas.

"A pressão dos cidadãos tem que ser mobilizada para convencer os formuladores de políticas a fazer a coisa certa", diz Gore, que pretende envolver o maior número de pessoas possíveis no enfrentamento da mudança do clima. "Escutar este assunto de um amigo, um vizinho ou um colega de trabalho em quem você confia, frequentemente tem mais impacto do que se a informação vier pela televisão", disse ele, em entrevista ao Valor na segunda-feira, na qual falou sobre clima e preferiu não tratar das eleições de ontem para o Congresso americano.

Al Gore falou também sobre a seca em São Paulo, o desmatamento da Amazônia e como os californianos estão se adaptando à longa seca que enfrentam em seu Estado.

Eis a entrevista.

A síntese do último relatório do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática da ONU, acaba de sair e suas conclusões deveriam soar um alerta. O sr. acha que isso irá acontecer ou as pessoas estão se acostumando com esse tipo de péssima notícia?

Acho que soará um alarme que as pessoas irão escutar porque estão recebendo a mesma mensagem da natureza. Eventos extremos relacionados à mudança do clima tornaram-se uma centena de vezes mais comuns nos últimos 30 anos. Eventos que aconteciam a cada 500 ou mil anos estão ocorrendo com muita frequência. E isso tem chamado a atenção de muita gente que pode ter ignorado o assunto no passado. Então, quando o IPCC divulga um relatório tão poderoso, pessoas que estão buscando explicações prestam atenção. A seca em São Paulo, por exemplo. Cientistas dizem que a Amazônia é a fonte dos chamados "rios voadores" que vêm vindo desde a floresta em direção a São Paulo. Quando as árvores são cortadas ou queimadas a ponto de a Amazônia não ser mais tão saudável como foi isso tem um impacto na transferência de água através do céu para a segurança de São Paulo.

São Paulo vive uma grave seca e escassez de água. As pessoas estão preocupadas, tentam poupar água, mas não sabem bem o que fazer. O sr. tem alguma sugestão? Poderia comparar com o que está acontecendo na Califórnia?

A Califórnia está em uma situação muito similar a São Paulo. 100% da Califórnia está experimentando a seca hoje em dia e cerca de 60% do Estado, de uma forma muito forte. A agricultura está sofrendo impactos, há restrição de água em algumas comunidades e a preocupação de que, se a seca se prolongar, os danos econômicos e na vida das pessoas irão crescer significativamente.

Muito mais gente, como resultado disso, está fazendo conexões com o que os cientistas vêm nos dizendo. Quando a temperatura sobe, o solo fica seco com mais rapidez e as chuvas não têm reposto a água de maneira tão profunda como ocorria no passado. No caso de São Paulo, cientistas relacionam a condição de seca com a destruição de partes da Amazônia.

Nos últimos anos, o Brasil teve êxito em reduzir o desmatamento, mas nos últimos dois anos ele voltou a subir. Com mais gente relacionando o corte e a queimada na Amazônia à redução nos volumes de água em São Paulo, isso resultará em pressão política para parar com o desmatamento e a escassez de água no Estado.

A Califórnia tem um plano para se adaptar à seca?

Tem, sim. A Califórnia vem exercendo a liderança, entre todos os Estados americanos, de encorajar o uso de energia solar e eólica em vez de queimar petróleo, gás e carvão. É o líder do meu país em promover melhoras de eficiência energética. Tem estimulado novos negócios que invistam em casas e prédios mais eficientes, no maior uso de energias renováveis. A Califórnia está fazendo um trabalho excelente.

O que os californianos têm feito contra a seca?

Eles adotaram novas medidas buscando mais eficiência para economizar água em períodos de seca e elaboraram prioridades para o uso de água com critérios de justiça para a sociedade.

É possível ter um acordo climático forte em Paris, em 2015?

Sim, apoio um acordo forte. Tentamos isso no passado e, na verdade, um dos acordos mais bem-sucedidos foi o assinado no Brasil, em 1992, a Convenção do Clima das Nações Unidas. Todas as outras negociações estão sob aquele guarda-chuva.

Algumas pessoas estão desencorajadas sobre as chances do mundo de adotar um novo tratado. Não sou uma delas. Acredito que a demanda do público por ação está crescendo rapidamente e em um ano, em dezembro de 2015, o mundo estará pronto a adotar um acordo forte.

O sr. acha que um acordo global é necessário? Alguns acreditam que o acordo não será forte o suficiente, se ocorrer, e que se deveria percorrer outros caminhos.

Bem, não tenho certeza que há outro caminho. A crise é global e, por definição, exige uma resposta global. Nós colocamos 110 toneladas de poluição de aquecimento global no céu todos os dias e isso está aumentando. Se a China lançar no céu, irá afetar o Brasil e os Estados Unidos; se os EUA jogarem na atmosfera, afetarão todos os outros países. Então, se apenas alguns países decidirem agir, os outros continuarão a deixar o problema se agravar para o mundo inteiro. É difícil para nós, como seres humanos e cidadãos de nossos respectivos países, imaginar que o mundo poderia agir em conjunto. Mas precisamos. É o único jeito de resolver essa crise.

O sr. participou de tentativas de acordo no passado. Acha que o momento agora é diferente de Copenhague, em 2009, quando as negociações fracassaram?

Sim. Desde Copenhague, o número de eventos climáticos extremos cresceu tão dramaticamente que mais pessoas no mundo enxergam a verdade e estão prontas a insistir para que seus líderes políticos ajam. Há um segundo desenvolvimento dramático desde Copenhague: o custo da eletricidade gerada por painéis solares e geradores eólicos caiu continuamente e agora cruzou um umbral. Em 79 países do mundo, a eletricidade de painéis solares é agora igual ou mais barata que a eletricidade produzida pelo carvão e outras fontes.

Se sentimos a necessidade de agir e vemos que podemos ser bem-sucedidos na mudança, então isso altera a disposição das pessoas para mudar. E temos que dizer que precisamos nos mexer, porque há oportunidade e porque, se não mudarmos, as consequências serão dramáticas.

O senhor acha que mesmo dentro dos Estados Unidos há outra disposição para um acordo global?

Aqui está a diferença: a maioria das pessoas agora acredita que é possível adotar mudanças de abordagem no acordo assinado no Rio [a Convenção do Clima], desde que respeitam os compromissos do acordo existente e que já foi ratificado pelo Senado dos EUA. Então o presidente pode agir [negociar e adotar os compromissos do novo acordo do clima] sem que tenha que passar novamente pelo processo de ratificação [no Congresso dos EUA].

Se houver acordo global em 2015, porque seu futuro, dentro dos EUA, seria diferente que Kyoto?

Aqui está a diferença: os advogados falaram agora, de uma maneira bem persuasiva, e a maioria das pessoas agora acredita que o acordo assinado no Rio autoriza que, adotando mudanças em sua abordagem - mas que necessariamente cumprem os compromissos de um acordo existente e que já foi ratificado pelo Senado dos EUA -, então o presidente pode agir sem que tenha que passar novamente pelo processo de ratificação.

O problema com os países ricos, em especial os EUA, não é só que consomem muitos recursos, mas também que se tornam o referencial de consumo para o resto do mundo. Se todo mundo quiser consumir como os americanos, precisaremos de outro planeta. Mas como fazer para que os americanos consumam menos, já que o modelo socioeconômico da nossa sociedade os estimula a consumir mais? A mensagem que a população recebe diariamente é que você só é alguém se consumir bastante.

Isso está mudando com as tecnologias digitais que nos ajudam a acompanhar nosso uso e desperdício de energia. Estamos vendo um novo padrão, com crescimento econômico sendo desconectado do aumento no consumo de energia. Por exemplo, o número de quilômetros que os americanos costumam dirigir está começando a diminuir. Vemos crescimento econômico sem que o consumo de energia cresça. E os países mais pobres e também os emergentes têm a oportunidade de saltar aquelas velhas e poluentes fontes de energia, que os EUA e outros países ricos usavam anos atrás.

Pense em telefones celulares. Quando eles apareceram nos EUA e outros países, já havia telefones fixos ligados a redes e quando alguém queria um celular era algo adicional. Mas em países pobres da África e do sul da Ásia, por exemplo, não havia serviço de telefonia algum. Então eles saltaram direto para os celulares. E hoje, na maioria da África, há mais comércio de celulares do que nos EUA ou no Brasil, porque esse é o único telefone que eles têm.

Outro exemplo de como pode ser o futuro: painéis solares estão disponíveis às pessoas, hoje, em países que não têm rede elétrica. É muito caro para países africanos ou para Bangladesh erguer redes de fios de cobre, mas agora painéis solares podem ser vistos em cabanas em vilarejos africanos. Eles nunca teriam eletricidade em pontos tão remotos se não fosse assim. Eles agora têm a oportunidade de desenvolver e aumentar seu padrão de vida sem a poluição que acompanhou o nosso aumento de padrão de vida.

Mas e o hábito que temos de consumir muito?

Acredito que isso está começando a mudar, principalmente entre as gerações mais jovens. Muitos jovens nos EUA estão decidindo, principalmente se vivem em cidades, a não comprar carros. Eles usam outros modelos, de compartilhamento de carros, por exemplo, que são possíveis de fazer pela internet.

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