''Abramos a Igreja às mulheres sacerdotes." Entrevista com Pablo d’Ors

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06 Novembro 2014

"O Pontifício Conselho pediu um relatório sobre o papel feminino. Agora, os tempos já estão maduros. Por que o Papa Francisco me escolheu? Um mistério. Talvez ele pode ter perguntado: qual é o padre mais marginal de Madri?" Pablo d'Ors explode em uma risada enquanto sobe para a sua casa do bairro Tetuán, uma espécie de torre de quatro andares que teria agradado a Montaigne.

A reportagem é de Simonetta Fiori, publicada no jornal La Repubblica, 05-11-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É aqui, entre o piso da biblioteca onde d'Ors compõe os seus romances e a capela em cima, onde ele reza a missa, que está amadurecendo outra revolução do pontificado de Bergoglio. Até agora, pouco se falou a respeito ou, melhor, nada. E, para descobri-la, é preciso encontrar esse forasteiro das letras e do sacerdócio que emana uma vitalidade alegre.

O padre d'Ors é realmente inclassificável. "Escritor místico, erótico e cômico", assim ele se apresenta, revelando a sua vocação para o paradoxo. Os seus primeiros contos belíssimos de El Estreno zombavam da literatura mundial, narrando as aventuras de uma senhora eslovena que faz amor com os maiores escritores do século XX. Páginas surpreendentes em que se podem ler reflexões deste tipo: "Pessoa é o escritor que dormiu menos em toda a literatura mundial".

Tendo crescido em uma família culta – o seu avô era Eugenio d'Ors, um monumento da cultura espanhola –, Pablo sempre se alimentou de palavras, para depois chegar à Biografía del silencio, um manifesto da meditação que se tornou uma sensação editorial na Espanha.

Não mais jovem, aos 27 anos, depois de uma vida cheia de amores, leituras, viagens até imprudentes, ele escolheu o sacerdócio: agora, no hospital Ramón y Cajal, ele acompanha os doentes terminais. Este ano, ele foi chamado pelo Pontifício Conselho para a Cultura, presidido pelo cardeal Ravasi, aonde, em fevereiro, ele levará o seu tijolo para a construção de um novo e imenso edifício.

Eis a entrevista.

Que encargo lhe foi confiado?

Eu sou um dos 30 conselheiros nomeados em todo o mundo. Pediram-nos para apresentar um relatório sobre o papel da mulher na Igreja. Agora, os tempos já estão maduros para percorrer novos caminhos.

Vai se falar da abertura do sacerdócio às mulheres?

Não posso dizer apoditicamente que sim, mas acho que, por trás da próxima reunião plenária, há essa intenção.

Você é a favor?

Absolutamente sim, e não estou sozinho. O fato de que a mulher não pode ser padre porque Jesus era homem e que escolheu apenas homens é um argumento muito fraco. É uma razão cultural, não metafísica.

O que as mulheres trariam?

A vida. E muita riqueza. A mudança é necessária, até porque se trata de uma discriminação inaceitável. Para preparar o meu trabalho, falei com muitas mulheres de diferentes estratos sociais e culturais, cristãs e não cristãs: com uma única exceção, todas se mostraram favoráveis.

Ainda há muita resistência?

Sim, não só na Cúria, mas também na base. A novidade sempre dá medo. Em vez disso, um critério importante para medir a vitalidade espiritual de uma pessoa é a sua disponibilidade para a mudança. Resistir à vida é um pecado, porque a vida é desenvolvimento contínuo.

Isso também vale para a Igreja?

Sobretudo para a Igreja.

Que tipo de sacerdote você é?

Sou um padre feliz. Ouvi uma voz interior. E quando você vive a vida como resposta a uma vocação você sente felicidade. Isso não significa que não houve momentos difíceis.

O fato de que ter tido muitas vivências antes de fazer os votos...

... agora também eu vivo intensamente.

Sim, mas o fato de ter tido muitas histórias de amor lhe torna um sacerdote melhor?

Conhecer o amor humano ajuda a conhecer melhor o amor divino. Hoje, posso dizer que isso me ajudou, enquanto, no momento em que eu o vivia, tinha a impressão de que me fizesse mal. É preciso ter o tempo para elaborar a experiência.

As suas relações com a hierarquia vaticana nem sempre foram serenas.

Você se refere a Antonio Maria Rouco Varela, ex-bispo de Madri? Tínhamos dois modos muito diferentes de entender a presença cristã no mundo. Eu poderia sintetizar em duas palavras: alternativa ou diálogo. A alternativa leva você a uma visão fechada do cristianismo, separado de um mundo visto como sentinela de todos os vícios. O diálogo significa reconhecer no mundo também a beleza e o bem. Portanto, não imponho a você a minha verdade absoluta, mas o convido a entrar em diálogo comigo para encontrarmos juntos a verdade. Francisco é um verdadeiro pontífice porque cria pontes ao seu redor.

Hoje, você trabalha no hospital de Ramón y Cajal. Como se acompanha uma pessoa a morrer?

Ouvindo verdadeiramente o que ela diz, sem julgar intelectualmente ou sobrecarregar emotivamente. Ouvir, e ponto final, esquecendo de si mesmo, que é mais difícil.

Você disse que morrer como cristão não envolve menos angústias do que morrer como laico.

Um momento. Se você realmente é fiel, isso lhe ajuda. Não lhe ajuda quando você é cristão de nome, mas não de coração.

Mas é possível viver uma boa vida sem Deus?

Certamente pode-se viver sem um Deus. Não se vive bem sem contato com a fonte da plenitude, chame-se de Deus, de ser ou de vida. Pessoas como Einstein e Rousseau não eram crentes, mas capazes de experiências espirituais muito profundas.

Por que você escreve romances? Pensava em si mesmo quando fez Pessoa dizer: "Eu não escrevo o que penso, mas escrevo para pensar"?

Ingenuamente, consideramos que a escrita serve para comunicar, mas isso significaria que eu já sei o que devo dizer. Na realidade, a escrita é revelação, no sentido de que revela a você mesmo aquilo que você deve escrever. Não é só um fato intelectual, mas mais profundo, eu diria visceral.

Mas por que, depois, você chegou ao elogio do silêncio? Não há um aspecto paradoxal em biografar o silêncio?

Só aparentemente. Palavra e silêncio são os dois lados de uma mesma moeda. As palavras verdadeiras, aquelas que têm a possibilidade de tocar o outro, nascem do silêncio, ou seja, da intimidade com si mesmo. E chegam ao silêncio porque o mais belo, quando você lê um livro, é a necessidade de recriar, você mesmo, aquilo que você leu. No fundo, a literatura é um convite a se calar.

O silêncio como única ética possível: você faz Thomas Bernhard dizer isso.

Sim, para mim foi fundamental. É Bernhard quem teoriza que tudo é citação. A literatura nasce da literatura. Os meus romances também nascem às margens dos livros alheios.

Você se define como um escritor erótico, místico e cômico. Mas o que mantém unidas coisas tão diferentes?

A ironia é o estilo, misticismo e erotismo são os conteúdos. Tanto a mística quanto o eros buscam a unidade: recompõem a separação na união do espírito e dos corpos. Quanto à leveza, é aquela que gera a alegria do leitor.

A propósito da leveza, em El Estreno, você despedaça Kundera e muitos outros. Grandes escritores, mas pequenos homens.

A ironia também tem uma função libertadora. Quase uma declaração de princípio: eis os meus mestres, mas não quero ficar esmagado debaixo destas feras da literatura.

Mas por que introduzir o tema corporal: a organizadora eslovena que se deixa possuir por todos os grandes intelectuais?

Quis mostrar um engano. Nós nos iludimos de possuir livros e pessoas. Mas, a partir do momento em que não é mais possível dominar toda a literatura, o fácil é ter acesso ao corpo dos escritores.

A sua crítica recorrente em relação aos escritores é de preferirem a escrita à vida.

Para muitos, a literatura é um modo vicário de viver a realidade. Mas eu acredito que cada um deveria fazer uma obra de arte não só da escrita, mas também da própria vida. Thomas Mann entendeu isso muito bem. Proust e Kafka, ao contrário, sacrificaram as suas existências à literatura.

Primum vivere. Mas os sacerdotes viveriam melhor com uma mulher ao seu lado?

Os tempos estão maduros também para essa reviravolta, mas é apenas uma opinião pessoal minha. E, no Pontifício Conselho, não, não se falará disso.

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