Deus também se mudou para a cidade: por uma nova pastoral urbana

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05 Novembro 2014

Carlos María Galli é sacerdote e teólogo, professor da Universidade Católica Argentina e ex-presidente da Sociedade Argentina de Teologia. Em 2007, trabalhou ao lado do cardeal Jorge Mario Bergoglio na elaboração do Documento de Aparecida. Agora aparece na Itália, pela Libreria Editrice Vaticana, o seu grande livro Dio vive in città. Verso una nuova pastorale urbana alla luce del Documento di Aparecida e del progetto missionario di Francesco [Deus vive na cidade. Rumo a uma nova pastoral urbana à luz do Documento de Aparecida e do projeto missionário de Francisco] (406 páginas).

O estudo de Galli, muito documentado, apresenta propostas para a pastoral urbana nas megalópoles, as mesmas que, em grande parte, inspiraram a obra do então arcebispo de Buenos Aires: isto é, chega de demonizar a cidade como lugar da ausência de Deus, mas, em vez disso, redescobrir as periferias e as suas contradições como ambientes a partir dos quais partir para um novo modelo de espiritualidade e de evangelização.

Publicamos aqui trechos da apresentação assinada pelo historiador da Igreja italiano Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio. O artigo foi publicado no jornal Avvenire, 04-11-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Deus vive na cidade? Vive ainda na cidade contemporânea, a das mulheres e homens tão diferentes dos cristãos devotos de outras gerações? A cidade contemporânea parece ser a encarnação do crescimento do mundo, da tecnociência e do domínio do homem sobre a vida; mas também é a realidade da aglutinação problemática dos dramas da sociedade.

Nessa cidade, parece não haver espaço para Deus, para a vida de fé, se não em algum canto bem abrigado ou em algum espaço residual. Essa é a opinião atual, com a qual é preciso fazer as contas. A resposta à pergunta se Deus vive na cidade parece ser, à primeira vista, negativa.

Deus teria deixado a Babel humana, aquela cidade construída pelo homem para se fazer grande e se exaltar, mas que também representa o seu drama e o abismo da sua fraqueza. Poder-se-ia dizer que a cidade é um mundo. Grandes cidades contemporâneas, como Istambul, são chamadas de "cidades-mundo", por causa da complexidade dos universos que contêm, unidos, às vezes de modo inextricável, entre si, dentro dos próprios limites urbanos.

A cidade é uma realidade antiquíssima na história humana. Mas falamos de outra cidade, a do século XXI, época da globalização.

Em 2007, pela primeira vez na história humana, a população das cidades superou a do campo, em nível mundial. Durante a primeira década deste século, ocorreu tal transição decisiva, que marcou o fim da prevalência do campo que tinha acompanhado a história humano.

Ainda nos anos 1950, apenas 16% da população viviam nos conglomerados urbanos. Hoje, bem mais da metade. E pode-se dizer que a humanidade vive em cidades também por causa da força atrativa que elas têm sobre as pessoas que vivem fora delas.

Deus saiu das cidades? Isso pode ter acontecido, mesmo que hoje a humanidade habite quase plenamente nelas. Pensar Deus, o Deus da fé cristã, fora das cidades expressa uma coerência de pensamento que vem de longe. É o da afirmação da modernidade laica e secular contra a Igreja e o espaço da fé.

Assim, se constrói a cidade como espaço do desencanto. E a secularização avança com a modernidade, segundo um axioma que subjaz a grande parte do pensamento público do nosso século, quase no modelo de Auguste Comte: onde cresce a modernidade, recua a religião, porque, inevitavelmente, as pessoas se secularizam, ou, melhor, o conjunto da sociedade se torna secular.

Essa leitura não foi apenas típica do mundo laico, mas também foi assumida pelos cristãos e pelas suas Igrejas: deu forma a uma pastoral defensiva em algumas épocas ou impulsionou à missão evangelizadora em outras, enquanto, em alguns momentos, gerou uma leitura pessimista do presente e muito mais. Trata-se de uma leitura predominantemente europeia e ocidental, embora a secularização seja uma realidade que atravessa o mundo inteiro.

Quase 40 anos atrás, em 1966, o teólogo batista norte-americano Harvey Cox escreveu The Secular City, no qual defendia que a cidade, em si mesma, tem uma força de secularização sobre a vida cristã e sobre a existência dos cidadãos. Nas modernas tecnópoles e megalópoles, Deus está morto.

É preciso falar a respeito de uma forma muito diferente do passado da cristandade, quase fazendo um novo êxodo para dentro da secularidade urbana. A realidade, porém, é muito mais articulada. Quando se fala de cidade, evoca-se a realidade do mundo globalizado, que tudo permeia e que marcou profundamente a vida urbana e humana.

Em 2020, nada menos do que nove cidades superarão os 20 milhões de habitantes. É um salto de civilização, que muda profundamente as relações humanas, a cultura, a família, a economia, a vida dos indivíduos, homens e mulheres.

De fato, a globalização, mesmo nos grandes aglomerados urbanos, pulveriza e desarticula as comunidades humanas e afrouxa os laços de proximidade. Muitas vezes, a cidade global perde o seu centro, se "periferiza", torna-se toda periferia.

Nesse horizonte urbano e global, de raízes antigas, mas habitado por processos inédito, é justo propor a pergunta: Deus vive aqui?

Especialmente hoje, é preciso se deter com mais atenção sobre a globalização, que muda radicalmente o cenário da vida e da cultura. E a globalização vive nas cidades, que se alargam para as periferias, muitas vezes tornando-se, também elas, periferias sem centro.

Ignorar o porte antropologicamente transformador da globalização é muitas vezes viver e pensar como se a história passasse em vão. O verdadeiro problema, que acompanha o século das cidades, este nosso Dois Mil, é principalmente a globalização. Essa é a nova dimensão urbana e social com que a Igreja, a vida cristã e a fé em Deus devem fazer as contas.

E não é um fenômeno inapreensível, mas encontra concretude justamente na cidade global. Muitos fenômenos transnacionais, típicos da mundialização, como os financeiros e econômicos, parecem muitas vezes inapreensíveis. Mas a cidade global é uma realidade ou, melhor, a nossa realidade.

Em suma, Deus vive na cidade, nessa cidade global. É preciso redescobrir a sua presença, torná-la eloquente com uma nova pastoral, encontrar as palavras e os gestos para expressá-la.

A cidade global também é um mundo saturado de religiosidade. Muitas vezes, nas cidades, existe um léxico religioso que não é cristão ou que se refere ao cristianismo apenas de modo marginal.

A cidade global também é religiosa. Mas de qual religião? Na Cidade do México, ficamos impressionados com a presença de referências religiosas e de cultos, que se remetem às máfias e aos narcotraficantes, como o da Santa Muerte.

Por outro lado, o homem e a mulher da cidade estão desnorteados e buscam um centro em filiações religiosas, cultos, vínculos. Nesse renovado quadro de convivência humana, fruto do urbanismo e da globalização, não podem ser repropostos modalidades e estruturas de vida da Igreja que pertencem a outros tempos.

Acima de tudo, a Igreja não é chamada a uma "batalha" ideológica contra a secularização, mas a uma conversão pastoral na nova situação do homem e da mulher contemporâneos.

O cardeal Bergoglio, em 2011, defendia que "Deus vive na cidade, e a Igreja vive na cidade. A missão – continuava – não se opõe a tentar aprender com a cidade, com as suas culturas e com as suas mudanças, enquanto saímos para pregar-lhe o Evangelho".

A Igreja tem a missão de evangelizar os homens e as mulheres da cidade, mas também deve entendê-la e colocar-se em atitude de escuta em relação às suas tantas vozes. Porque Deus vive na cidade. Ela não é o lugar da morte de Deus.

Assim, pode-se viver o Deus nos cristãos na cidade plural, e isso se torna um fato de povo, embora convivendo com outros percursos religiosos e humanos. Estamos longe do pessimismo ideológico em relação à secularização, mas também da ideia de que a secularização seja quase uma "providência" que transforma o mundo da fé em direção a modelos mais modernos.

Deve-se tomar consciência da realidade da cidade, para viver, agir, dialogar de modo consistente e realista, aberto à esperança e ao bem comum.

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