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17 Outubro 2014

Com o Sínodo aberto, não mudou a dinâmica do debate na fase pré-sinodal: às propostas de Kasper e de outros de reagir diante das emergências pastorais do nosso tempo com algumas mudanças na práxis, a frente oposta simplesmente opôs alguns "non possumus", acusando-os de mudar uma doutrina imutável.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minnesota, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio TheHuffingtonPost.it, 16-10-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O relatório da metade do Sínodo resiste

Apesar da impressão dada pela reação do cardeal sul-africano Napier na terça-feira contra o relatório da metade do Sínodo lido pelo cardeal Erdö no dia anterior, e apesar das reações cada vez mais descompostas dos opositores, as aparições públicas da quarta-feira dos maiores protagonistas do Sínodo deram a impressão de uma linha que vai se solidificando.

Na coletiva de imprensa, Dom Fisichella (com credenciais de teólogo fiel à linha e certamente não próximo da esquerda nem eclesial nem política) falou do valor das uniões caracterizadas por fidelidade e estabilidade, retomou o termo "semina verbi" e ilustrou o papel das coabitações pré-matrimoniais na cultura africana, diferente na Europa.

O presidente dos bispos norte-americanos, Kurtz, falou do relatório da metade do Sínodo em termos cautelosos, mas não negativos. O cardeal espanhol Sistach definiu o relatório de Erdö como "suficientemente objetivo".

Em suma, nenhuma marcha à ré: também graças à maciça presença dos jornalistas-ativistas de que falávamos ontem, os membros do Sínodo convidados para a coletiva de imprensa tiveram muitas oportunidades para tomar distância do relacionamento e da direção tomada pela assembleia, mas não o fizeram.

Nas entrevistas publicadas na quarta-feira, o cardeal Tagle se disse muito contente com o relatório, e, em termos semelhantes, expressou-se o cardeal de Guadalajara, Ortega. No geral, o cardeal Napier aparece como uma exceção, próxima dos cardeais Burke e Müller, mas não representativo do sentir da Aula e nem sequer de uma parte numericamente relevante dela.

"A minha África" dos neoconservadores

A intervenção de Napier na Sala de Imprensa na terça-feira abriu a questão dos africanos no Sínodo: de um lado, não está claro o quanto foi considerada a sua presença na eleição dos relatores e dos moderadores do Sínodo (a África está sub-representada em relação aos outros continentes) e quais são as suas posições no debate.

Mas, por outro lado, está claro que a sua oposição às aberturas da Igreja sobre a questão homossexual se casa (é preciso dizer dizer) com a frente dos neoconservadores norte-americanos. Isso ficou evidente na quarta-feira à tarde (fuso horário norte-americano), quando, no site da revista mais importante dos neocon norte-americanos, First Things, apareceu um artigo que acusava o cardeal Kasper de racismo.

Kasper dissera, em uma entrevista publicada poucas horas antes pela agência católica Zenit, que a Igreja global não pode deixar a última palavra sobre a questão homossexual às Igrejas africanas, porque na África a questão ainda é tabu e porque, em geral, há questões que devem ser decididas e adaptadas pelas Igrejas locais.

O triste – para além da campanha difamatória contra um dos maiores teólogos católicos do último século – é que os próprios neoconservadores que nestas horas zombam de Kasper com "Heil Kasper" seguramente não apreciaram as acusações de nazismo movidas contra o Papa Bento XVI apenas alguns anos atrás.

A intransigência vazia

Com o Sínodo aberto, não mudou a dinâmica do debate na fase pré-sinodal: às propostas de Kasper e de outros de reagir diante das emergências pastorais do nosso tempo com algumas mudanças na práxis, a frente oposta simplesmente opôs alguns "non possumus", acusando-os de mudar uma doutrina imutável.

Mas, quando se chega a acusar de extremismo liberal figuras como Walter Kasper (relator do Sínodo sobre o Concílio de 1985, convocado por João Paulo II), Christoph Schönborn (fino teólogo dominicano e aluno de Ratzinger), Péter Erdö (um dos maiores juristas da Igreja Católica hoje) e Bruno Forte (um dos redatores das encíclicas de João Paulo II), isso significa que a oposição ao Papa Francisco alimenta em si mesma uma oposição radical a toda a teologia católica dos últimos 50 anos – uma oposição não apenas ao pós-Concílio, mas também ao próprio Concílio Vaticano II.

Nessa quarta-feira, o diretor  Gianfranco Brunelli e Maria Elisabetta Gandolfi falaram de "intransigência vazia" no blog dedicado ao Sínodo pela renomada revista bolonhesa Il Regno: "É incrível como, 50 anos depois do Concílio, há novas cotas relevantes de bispos pré ou anticonciliares. Em que doutrina se formaram? Em que seminários? Que critérios seletivos foram seguidos nos últimos 30 anos para nomeá-los?".

Nesse sentido, é claro que o Sínodo de 2014-2015 também servirá como balanço de um cinquentenário de vida eclesial, muito além da mensagem sobre matrimônio e família.

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