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Por: Cesar Sanson | 06 Outubro 2014

Fragmentada segundo diferentes linhas de pensamento, a nova direita do país se une, porém, em prol do ideal de um Estado mínimo. Articulados em torno de instituições pedagógicas e partidos nascentes, ideólogos acreditam que população deva ser educada a trocar assistencialismo por empreendedorismo.

A reportagem é de Patrícia Campos Mello e publicada pela Folha de S.Paulo, 05-10-2014.

No dia 7 de setembro, o político americano Ron Paul foi recebido por cerca de 400 jovens brasileiros como se fosse um pop star. Na conferência promovida em São Paulo pelo Instituto Ludwig von Mises Brasil, o ex-deputado Paul, 79, ídolo dos libertários, foi ovacionado ao defender o fim do assistencialismo e da intervenção do Estado na economia.

"Assistencialismo ou comunismo não resolveram o problema dos pobres até hoje; nós vamos nos livrar do keynesianismo no mundo", discursou, sob aplausos de moços arrumadinhos, muitos usando gravata-borboleta. "O único papel do governo é proteger nossas liberdades", proclamou.

Paul se surpreendeu com o entusiasmo dos seus fãs brasileiros. "Não tinha ideia de que houvesse tantos libertários no Brasil", declarou à Folha.

Libertários, liberais, conservadores, seguidores da escritora russo-americana Ayn Rand (1905-82), "olavettes": a nova direita brasileira é um corpo diverso, mas que compartilha da crença de que o Estado deve limitar ao mínimo seu papel na economia e na vida das pessoas. Em comum, os grupos que a compõem manifestam, ainda, um sentimento de orfandade nesta eleição presidencial.

"O Brasil de hoje é marxista, o Estado intervém em tudo, controla preço de energia e gasolina e usa o BNDES politicamente, estamos nos transformando na Venezuela", dizia o estudante de economia Marcel Perez, 28, esperando na longa fila para o pegar um autógrafo de Ron Paul, que vendeu 300 livros no evento. "Não temos nenhum candidato presidencial que chegue perto de ser libertário."

Enquanto os principais candidatos passam o horário eleitoral reafirmando que vão manter e ampliar o Bolsa Família, os benefícios para indústria e outras bondades estatais, grandes empresas como Suzano, Gerdau e Localiza patrocinam conferências e grupos que vão até as universidades para evangelizar jovens sobre as virtudes do livre mercado.

Libertários e liberais rejeitam veementemente o rótulo de nova direita. Mas todos são anti-PT.  "Não somos nem de direita nem conservadores", diz o libertário Helio Beltrão, 47. Beltrão é presidente do Instituto Mises Brasil -- batizado em homenagem a um nome fundamental da escola austríaca de economia, em cujos estudos se centra o grupo-- e filho de Helio Beltrão (1916-97), que foi ministro da Desburocratização entre 1979 e 1983.

"Infelizmente, o tipo de conservadorismo mais comum no Brasil é aquele que pretende regular a vida sexual de terceiros e as substâncias que eles ingerem. Nós focamos na liberdade", diz Beltrão, numa fala que, de certa forma, resume o pensamento libertário.

Dentro do amplo espectro das ideologias liberais, os libertários são os mais radicais: suas propostas abarcam desde a legalização integral das drogas até o fim do Banco Central, passando pela privatização da polícia e da saúde.

Porque se colocam de forma mais flexível quanto a questões sociais, como o casamento gay, fazem questão de se diferenciar dos conservadores, como os seguidores do jornalista Olavo de Carvalho --chamados pejorativamente de "olavettes"-- e dos fãs de Reinaldo Azevedo, colunista da Folha.

As muitas vertentes do pensamento de direita se encontram representadas por instituições novas --e crescentes-- no país.

O Instituto Millenium, de cunho mais liberal, existe desde 2005 e tem entre os fundadores ou mantenedores, além de Helio Beltrão, Gustavo Franco, Paulo Guedes, Daniel Feffer, Fábio Barbosa e João Roberto Marinho.

Rodrigo Constantino, colunista da revista "Veja" e nêmesis da esquerda, é o presidente do Instituto Liberal, no Rio. O diretor-executivo, Bernardo Santoro, é o guru econômico do pastor Everaldo, único candidato à Presidência a falar abertamente de privatizações.

O IFL (Instituto de Formação de Líderes) --que começou em Belo Horizonte e é patrocinado por Salim Mattar, dono da maior empresa de aluguel de veículos do país, a Localiza, e David Feffer, do Grupo Suzano -- tem como meta "conscientizar jovens empreendedores sobre a importância do livre mercado, da propriedade privada e da redução do tamanho do Estado".

O Instituto de Estudos Empresariais, no Rio Grande do Sul, foi fundado pelo empresário William Ling, tem a bênção de Jorge Gerdau, do gigante da siderurgia, e costuma reunir até 6.000 pessoas em seus eventos.

Já os Estudantes pela Liberdade formam grupos de estudos em torno da obra de economistas conservadores como Hayek, Mises e Milton Friedman. O slogan de boa parte desses jovens é "menos Marx, mais Mises". O grupo ¬é uma franquia do americano Students for Liberty, ligado ao Cato Institute, que é financiado pelos irmãos Koch, grandes patrocinadores de causas conservadoras nos EUA.

Obscurantismo

"Que Brasil queremos" era o mote do Fórum Liberdade e Democracia, realizado dois dias depois da conferência no Instituto Mises. Abrindo o evento, Ricardo Salles, 39, secretário particular do governador Geraldo Alckmin e fundador do Movimento Endireita Brasil, anunciou: "Aqui se discutem ideias que vão fazer o Brasil voltar para o rumo depois de 12 anos de obscurantismo. O liberalismo está voltando à moda".

Salles agradeceu a Jorge Gerdau, da Gerdau, e David Feffer, do Grupo Suzano, grandes apoiadores do evento, e, especialmente, a Roberto Civita (1936-2013), e à revista "Veja", por ele editada.

Entre os palestrantes, estavam Maria Corina Machado, deputada oposicionista venezuelana cassada, que falou de Caracas por Skype, e Carlos Alberto Montaner, exilado cubano autor de livros anti-Fidel Castro e do "Manual do Perfeito Idiota Latino Americano".

"Somos de uma geração que nasceu depois da abertura da economia, já com a liberdade de expressão garantida e livres da hiperinflação", disse o empresário Tomás Martins, 28, presidente do Instituto de Formação de Líderes, que organizou o evento para 800 pessoas. "Mas será que isso é suficiente? Há 12 anos vejo nossas liberdades sendo tolhidas. Queremos o caminho da Venezuela e da Argentina?", inquire, indignado.

O IFL foi criado há cinco anos pelo empresário Salim Mattar, 66, que diz ter lido "A Riqueza das Nações", de Adam Smith, quando ainda era um rapazola de 16 anos. "Este governo demonizou o liberalismo; tornou-se mais intervencionista, destruiu as agências reguladoras e permitiu que uma plêiade de empresas se pendurasse no BNDES", afirmou à Folha após o fórum. "Hoje, a carga tributária é de 40% do PIB --durante a malfadada revolução [ditadura militar],a cunha fiscal era 22%."

O empresário diz que o objetivo do IFL é trazer as ideias para debate público, porque "a massa não é muito educada e vota em propostas populistas".

Um dos jovens expoentes do libertarianismo brasileiro é Joel Pinheiro da Fonseca, 29 anos, filho do economista Eduardo Giannetti da Fonseca, principal conselheiro econômico da candidata Marina Silva. Joel, formado em economia pelo Insper e com mestrado em filosofia na Universidade de São Paulo, é assíduo articulista do site Spotniks, preferido dos jovens liberais e libertários, e membro do comitê executivo do Libertários, partido que ainda não tem registro no Tribunal Superior Eleitoral.

Em seus artigos, ele ataca o BNDES ("está na hora de abolir esse gigante jurássico que nada contribui para a economia do país"), e defende propostas como a legalização do comércio de órgãos para aumentar a oferta. "O que mais se aproxima do candidato libertário é o pastor Everaldo", disse Fonseca à Folha. "Eu não voto nele, mas fico feliz de alguém ter adotado o nosso discurso". Fonseca esclarece que não tem nenhuma ligação com a campanha de Marina.

"O pastor Everaldo aceitou tudo o que eu sugeri e tem lido muitos livros", diz Bernardo Santoro, do Instituto Liberal. Ele acredita que a maior proliferação da ideias libertárias no Brasil se deu de 2006 para cá, coincidindo com a "radicalização da postura econômica do governo do PT". "O que falta ao movimento liberal, libertário e conservador é uma maneira melhor de vender nossa mensagem para o público."

Na opinião de Santoro, "o pobre brasileiro é um empreendedor nato e a agenda de livre mercado vai ajudá-lo". "Assistencialismo nunca é bom, traz incentivos perversos porque desestimula a produção."

Armário

São poucos os candidatos liberais que saem do armário para defender privatizações e outros palavrões nesta eleição. Paulo Batista (PRP-SP), candidato a deputado estadual que ganhou fama com suas propagandas do "raio privatizador", prega o fim do Bolsa Família, dizendo que "pobre precisa de liberdade, não de esmola", e quer privatizar a USP, a Unicamp, a Unesp e o metrô. "As pessoas não têm informação, por isso usamos o raio privatizador, é bem didático", diz.

Numa sexta de setembro, Batista foi entregar rolos de papel higiênico no consulado da Venezuela em São Paulo. "O objetivo era alertar para os perigos do socialismo bolivariano, que bate à nossa porta através de medidas autoritárias do governo petista", disse.

Evandro Sinotti, 38 anos, candidato a deputado estadual pelo PMDB paulista, usa frases da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher (1925-2013) em sua campanha e propõe redução de ICMS, privatização de estatais deficitárias e vouchers para escolas particulares.

Ele admite que o PMDB não é exatamente um partido antigoverno, mas argumenta que não tinha muita opção de sigla. "Meu pai também: ele é vice-prefeito de Pirassununga pelo PT, mas nem por isso é petista", diz Sinotti.

É fácil entender por que pouquíssimos candidatos estão defendendo ideias liberais nesta campanha: o brasileiro não é particularmente fã do livre mercado. Segundo pesquisa do Datafolha de 3 de setembro, 66% dos brasileiros acham que o governo deve ser o maior responsável por investir para a economia crescer, e 51% acham que é bom que o governo atue com força na economia para evitar abusos nas empresas. Mas nem por isso os liberais e libertários desanimam.

"Tem que se posicionar, participar da política, disputar eleição. Não adianta ficar discutindo filosofia liberal enquanto toma chá da tarde no clube Harmonia", diz Ricardo Salles, que foi candidato a deputado federal por São Paulo pelo PFL em 2006 e a estadual pelo DEM em 2010.

"Daqui a uns dez anos, a sociedade estará pronta para nossas ideias", diz Helio Beltrão. O Partido Novo pretende lançar seus primeiros candidatos em 2016. Já reuniu as 492 mil assinaturas necessárias (e aceitas pelos cartórios) para formalizar o partido; agora, aguarda apenas o TSE conceder o registro.

"Nós queremos mudar o modelo de Estado do Brasil, que é extremamente intervencionista e se propõe a resolver os problemas das pessoas", diz o presidente do partido, João Dionísio Amoedo, 51. Segundo Amoedo, há uma demanda por esse novo tipo de Estado, evidenciada nas manifestações populares do ano passado.

"Todo mundo reclama que pagamos muitos impostos e que os serviços que temos são ruins, isso estava no cerne das manifestações", diz. Segundo Amoedo, essa é uma agenda difícil de abordar no meio de uma campanha eleitoral. "Os candidatos têm medo de dizer que o Estado vai deixar de fazer coisas pelas pessoas."

Já o americano Ron Paul, que concorreu duas vezes à indicação republicana à candidatura presidencial nos EUA, não tem pruridos ao defender ideias pouco populares. Ao menos não no Brasil.

Enquanto o mundo debate maneiras de reduzir a desigualdade, na esteira do best-seller do francês Thomas Picketty, "O Capital no Século 21", Paul é taxativo: "Distribuição de renda é sempre forçada, é como se o governo apontasse uma arma e tirasse dinheiro de um para dar ao outro; isso é autoritarismo", afirmou à Folha.

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