A glória no mundo e o vazio da política em Agamben

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Por: Jonas | 23 Setembro 2014

Na manhã do último sábado, dia 20 de setembro, nas dependências da PUCPR, ocorreu mais uma etapa de estudo sobre as principais obras de Giorgio Agamben, em um ciclo de estudos organizado pelo CJCIAS/CEPAT, em parceria com a Pastoral desta universidade e com o IHU. A temática foi a obra O Reino e a Glória. Por uma genealogia teológica da economia e do governo. Com muita propriedade e de forma didática, o professor Castor Bartolomé Ruiz (Unisinos), convidado para a ocasião, problematizou aspectos fundamentais da vida contemporânea, a partir de sua leitura da obra de Agamben.

O relato é de Jonas Jorge da Silva, da equipe do CJCIAS/CEPAT.

Primeiramente, Ruiz frisou que nessa obra Agamben procura fazer uma genealogia da economia política. Isso é de capital importância, uma vez que esse esforço joga luzes sobre a vida contemporânea, que tem todos os seus espaços invadidos pela economia política. A origem dessa economia política remete à teologia cristã, nesse sentido, a obra de Agamben exige um conhecimento teológico.  

Conforme artigo de Ruiz, já publicado pela revista IHU On-line, “as teorias da soberania modernas derivam de uma teologia política que secularizou o poder soberano de Deus e o transferiu para a figura do Estado, mantendo intacto o paradigma da transcendência, o que torna a soberania moderna uma teologia política”.

Com essa compreensão, em sua exposição Ruiz destacou que a partir dos arcanos do poder, tais como soberania: reino, decisão, “glória”, “liturgia”, “aclamação”; e governo: economia, providência, administração, procedimentos, consenso, articula-se uma maquinaria biopolítica. Sendo assim, por trás de toda essa articulação e conceituação do poder moderno há um substrato teológico. Será no dispositivo da oikonomia trinitária que Agamben encontrará as bases de funcionamento da máquina governamental.

Em seu uso teológico, o termo oikonomia, que para os gregos tinha o sentido de governo da casa (administração inteligente das vontades), passa a ser utilizado para explicar o modo como as três pessoas da Santíssima Trindade se relacionam e governam o mundo (providência). Nessa linha, teologia cristã é economia e providência: governo e cuidado do mundo. É a partir dessa articulação e administração da vida divina e governo das criaturas que os economistas modernos buscarão estratégias para administrar e organizar a economia.

No campo da providência, questões fundamentais emergiram na teologia: como governar o mundo respeitando a natureza? A natureza é governada por leis inexoráveis, contudo, como proceder quando se trata da dimensão da liberdade humana? Ou seja, como Deus governa o mundo respeitando a liberdade humana?

Se essas eram questões que instigavam o estudo teológico, na economia política essas questões se voltarão, essencialmente, para a produção de formas de governar o desejo dos outros, de capturar vidas em favor do modo de produção estabelecido. A vida humana é capturada por essa engenharia do poder. Portanto, a economia política busca meios de governar as pessoas a partir de sua natureza.

Entre os aspectos primordiais para o funcionamento dessa maquinaria, está a dimensão da glória, com suas formas de ritualização do poder e formação de consensos. Fora disso, a lógica presente nas chamadas democracias ocidentais é vazia da dimensão política, no sentido grego de homem da pólis (iguais), ou seja, da ideia de cidadão como sujeito atuante na esfera pública. O que realmente funciona são os dispositivos de aclamação, tendo na produção midiática o principal mecanismo de fabricação do soberano.  

Desse desdobramento do governo de Deus sobre o mundo à economia política decorre a sacralização do mercado, das leis, dos aspectos procedimentais da vida econômica contemporânea. Desse modo, a economia se torna assunto para especialistas, distanciando-se da vida do cidadão, que não opina, apenas acata as determinações. Nas eleições, por exemplo, cabe aos cidadãos apenas votar, sem mexer nas regras do jogo, pois existem temas e procedimentos que lhes são intocáveis. Neste ângulo da questão, qualquer exercício de questionamento dessa ordem ou de tentativa de retomada dos espaços e instituições que são vitais para a cidadania é considerado um ato de profanação. Seria primordial que fosse devolvido ao uso comum aquilo que está nas mãos dos especialistas (sacerdotes da economia política).

Infelizmente, nessa conjuntura, como mencionou o professor Castor Bartolomé Ruiz, são as decisões corporativas que governam o mundo e não as decisões da soberania popular. Citou como exemplo o caso dos Estados Unidos, país que se considera modelo de democracia para o mundo, mas que conta com o mínimo de democracia. Nesse país, as pesquisas nas universidades, em grande parte, atendem aos interesses das grandes corporações. O Estado é cooptado e os parlamentares são financiados pelas mesmas. Não só nos Estados Unidos, mas no mundo todo há um avanço das corporações sobre os espaços públicos. Isso é preocupante e talvez seja uma das grandes questões a ser enfrentada nesse início do século XXI, conforme sustentou Ruiz.

Como resistir a essa forma de administração e captura da vida pela economia política? Em consonância com o pensamento de Agamben, Ruiz afirmou que esse é o momento em que é necessário criar formas de vida (uma cultura da forma de vida), fugindo daquilo que já está posto, que é dado como padrão de vida para todos. Trata-se, portanto, de uma questão ética.

Comentando a respeito da metáfora apocalíptica do trono vazio, trabalhada por Agamben, ressaltou que a lógica dessa maquinaria governamental em escala global não existe por si, mas foi plantada, não obedecendo a uma lei natural e que, portanto, trata-se de uma construção humana. O fundamento do poder é vazio. É sempre bom se lembrar disso. Talvez esteja aí uma saída desse labirinto, pois, a partir do conceito de inoperosidade, em Agamben, conclui-se que sempre há uma possibilidade da vida humana dizer não, já que o ser humano é o único vivente que pode escolher.

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