''Eu, teólogo católico, quero decidir sozinho quando e como morrer'': a escolha de Hans Küng

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09 Setembro 2014

Se a vida é um dom de Deus, por que não aceitar a possibilidade de restituir gentilmente o dom? Há muito tempo, esse é o assunto-chave das pessoas que pedem que se legalize a ajuda àqueles que querem morrer, hoje possível quase apenas na Suíça e na Holanda. Mas agora um dos maiores teólogos católicos do nosso tempo, o grande rebelde (mas exegeta do Papa Francisco) Hans Küng, à sua maneira, assume como próprio, em um livro publicado recentemente na Alemanha.

A reportagem é de Andrea Tarquini, publicada no jornal La Repubblica, 03-09-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Glücklich sterben? ("Morrer feliz?") é o título do volume de 160 páginas, da editora Piper Verlag, ao qual o jornal Süddeutsche Zeitung do dia 2 de setembro dedicou uma enorme resenha com chamada na capa. Uma tomada de posição destinada a agitar as águas no grande debate – entre cristãos e não só – sobre o tema sofrido da liceidade ou não de escolher sozinho quando passar da vida para a morte.

"Faz parte do meu modo de conceber a vida e está ligada à minha fé na Vida Eterna a escolha de não prolongar a minha vida terrena por tempo indeterminado", escreve Hans Küng no livro resenhado por Matthias Drobinski, talvez o mais influente vaticanista alemão.

É a primeira vez que um grande teólogo católico se expressar em favor da "doce morte". Continua Küng: "Se e quando chegar a hora, eu gostaria de ter o direito, se ainda puder fazê-lo, de decidir com a minha responsabilidade sobre o momento e o modo da minha morte". E depois: "É consequência do princípio da dignidade humana o princípio do direito à autodeterminação, também para a última etapa, a morte. Do direito à vida, não deriva, em qualquer caso, o dever da vida ou o dever de continuar vivendo em todas as circunstâncias. A ajuda a morrer deve ser entendida como ajuda extrema a viver. Também nesse tema não deveria reinar qualquer heteronomia, mas sim a autonomia da pessoa, que, para os fiéis, tem o seu fundamento na Teonomia" (a decisão de Deus ou inspirada por ditames divinos).

Hans Küng, lembra o artigo, sofre do mal de Parkinson. Ele está internado na Suíça, já deixou claro que quer pôr fim à sua vida quando foram perceptíveis os sintomas de degradação espiritual e física grave. Há muito tempo, ele é um membro da "Exit", a associação suíça, talvez a mais conhecida organização no mundo que ajuda aqueles que, por serem doentes incuráveis expostos à degradação e declínio de todas as faculdades físicas e mentais e a sofrimentos insuportáveis, desejam ser ajudados a morrer em paz.

Já em 1994, o teólogo havia enunciado o conceito de "morrer com dignidade". Duas trágicas experiências, lembra o artigo republicado por sites e agências de notícias do mundo global, marcaram a sua vida. Primeiro, a morte do seu irmão, que, aos 23 anos, em 1955, foi morto por um tumor cerebral: mês após mês, o atlético rapaz sofreu com a rápida deterioração de todas as faculdades mentais e físicas, passando pela crise funcional terminal de todos os órgãos vitais, até morrer sufocado pela água que lhe subia dos pulmões.

Cinquenta anos depois, o seu amigo, o grande intelectual Walter Jens, morreu de um processo de demência. Experiências que marcam e fazem refletir, ainda mais se você acredita em Deus e passou a sua vida pedindo que o mundo refletisse sobre o papel da Igreja, da vida, do Todo-Poderoso.

Nem sempre, lembra Hans Küng no seu livro recém-lançado, os cristãos condenaram a escolha de morrer. Em primeiro lugar, foi Santo Agostinho que condenou o suicídio, mas, durante a perseguição dos cristãos por obra do pagão e decadente Império Romano, quem acreditava em Cristo preferia morrer a trair outros fiéis falando sob tortura. Por que, então, ver no suicídio o caminho para o Inferno? Por que não aceitar a ajuda a quem quer morrer?

Bom seria liberalizar, sugere o livro, a atividade das associações que ajudam a morrer, mesmo aceitando que o façam sob pagamento, assim como párocos, igrejas e autoridades cobram pelos funerais. Bom seria aceitar que as pessoas decididas a não suportar mais dores tremendas e a não continuar vivendo, possam decidir de modo soberano.

Tese provocante. "Eu não quero exaltar o suicídio", especifica Küng. Mas, pela primeira vez, quem é a favor da ajuda à doce morte por livre escolha tem um teólogo católico do seu lado.

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