A política em uma perspectiva inaciana

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Por: Jonas | 03 Setembro 2014

“A abordagem jesuíta exige que transformemos a realidade política em um ato de esperança, virtude teologal de grande transcendência para os cristãos: esperança de poder contribuir no trabalho da Criação divina para mudar o mundo em prol do bem comum”, afirma Marcial Rubio Correa, reitor da Universidade Católica do Peru, por ocasião de sua exposição no Congresso Latino-Americano de ex-alunos jesuítas. O artigo é publicado pelo Apostolado Social da Conferência dos Provinciais Jesuítas da América LatinaCPAL, 28-08-2014. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Para Inácio de Loyola, em nossa interpretação, a política demandaria uma abordagem complexa das atitudes humanas, assim como ocorre, por sua vez, com outros âmbitos da vida. Trata-se de resumi-las, com o sério risco de ser reducionista. Diria, minimamente, que são as seguintes:

- Buscar o conhecimento verdadeiro da realidade ou o mais próximo possível da verdade;

- Elaborar uma posição humana e cristã frente a essa realidade.

- Com base no conhecimento da realidade e a posição própria, criar alternativas que possam modificar a realidade, orientando-a para o bem comum;

- Intervenção na realidade para modificá-la, com a consciência de que a Salvação tem muito a ver com isso.

Acreditamos que este é um conjunto de elementos que caracteriza uma apreciação inaciana da política, assim também como, em geral, de toda a vida. É preciso não separar as coisas, não tomar uma parte e deixar a outra, e isto é muito importante porque o todo é complexo e diverso: implica em conhecer, criar, atuar e, sobretudo, crer.

Sendo assim, a atitude inaciana pode ser adaptada aos que não compartilham a fé, mas isto retirará um componente essencial de sua concepção integralmente considerada.

Em matéria de atitude, é essencial manter os aspectos de conhecimento, de criação e de intervenção na realidade. Não bastam um ou dois aspectos dela. Trata-se de assumir uma atitude inaciana, portanto, totalizante em relação à realidade.

Vejamos, agora, sucintamente, dentro do que é possível fazer nesta apresentação, cada um desses aspectos.

1. Buscar o conhecimento verdadeiro da realidade

Parece que a busca do conhecimento verdadeiro é um ponto de partida, mas na política é assombroso o número de vezes que perseveramos no erro.

Caímos nele por muitas razões. Uma primeira consiste em que a realidade muda constantemente, mas nós não estamos dispostos a reconhecê-lo, pretendemos que o conhecimento interior seja ainda correto hoje em dia. Quando isto ocorre, há certa falta de humildade, que deve ser advertida quando estamos tratando da posição inaciana frente à política.

Contudo, há também a interferência das ideologias, que são como fundos de garrafa, a partir dos quais olhamos a realidade e, muitas vezes, ficamos convencidos de que esta é da forma como a ideologia diz. As ideologias podem permanecer intactas, na maioria dos detalhes, ao longo de muito tempo.

Estas reflexões anunciam que para conhecer adequadamente a realidade, temos que nos prevenir das escleroses ideológicas e devemos revisar permanentemente nossas concepções, ajustando-as com a realidade e mudanças que nela ocorrem. Também costuma ocorrer que neguemos olhar para a realidade, porque nos incomoda executar tal ação ou porque, de alguma maneira, é melhor não enxergá-la. Por exemplo, é interessante refletir sobre se nos preocupamos em compreender o que está acontecendo no mundo, tanto com o terrorismo demente, como com a coalizão que se prepara contra ele e que chegou a ter nome, que se gostaria de expressar o que dizia, na realidade, era inadmissível: “Justiça infinita”, mas também falível. Felizmente mudou o nome.

Também teríamos que nos perguntar se foi apenas o nome que mudou.

Acreditamos que esta situação é um bom laboratório de experimento sobre nossa atitude a respeito do conhecer na política. Se procuramos entrar nos detalhes que razoavelmente podemos alcançar, se buscamos conhecer os diversos aspectos e componentes desta colossal confabulação do mal, expressa no dia 11 de setembro; se, ao mesmo tempo, temos procurado medir as consequências da iminente reação em mãos humanas, então, tudo está inda na direção certa. Porém, se abandonamos ou atrasamos esta tarefa, acreditamos que existe algo que inacianamente não funciona muito bem, hoje e aqui.

Em qualquer caso, o conhecimento mais preciso possível do que ocorre é o primeiro passo e é profundamente inaciano. Como vemos, não é apenas, nem basicamente, um problema técnico. Pelo contrário, tem raízes nas virtudes e defeitos, na necessidade do triunfo da honestidade intelectual, mas também da perseverança, da humildade e do compromisso.

2. Elaborar uma posição cristã e humana frente a essa realidade

O conhecimento da realidade é como a infraestrutura da política. Sem ele nada poderá ser feito que não se constitua em tocar a flauta do conto. Porém, com esse conhecimento também não conseguimos muito, caso não elaboremos uma posição própria frente a essa realidade.

Em uma concepção inaciana, existem princípios cristãos que devemos necessariamente incorporar. Não é este o espaço no qual devamos pretender, sequer, uma aglomeração parcial de todos os que se aplicariam à política. É uma tarefa que fica para se aprofundar devidamente.

Porém, nem tudo na política será aplicação dos princípios cristãos. Haverá também indeterminações que terão que ser complementadas com a razão natural, que tem menos de imutável e mais de adaptação às circunstâncias.

Por isso, fazemos a diferenciação: tudo o que é cristão será humanista, mas há muitas determinações humanistas que não são necessariamente cristãs, porque as compartilhamos com todos os seres humanos.

Acreditamos que a elaboração desta posição frente à realidade tem uma clara conotação de fermento na massa, ideia evangélica aplicável aos Apóstolos, designados para difundir a Boa Nova à humanidade, ao longo do espaço e do tempo: não pouca coisa para doze que, na realidade, seriam onze, se contamos apenas aos que vieram com Cristo e, depois, saíram pregando.

Há alguns dias, esperava no saguão da casa de Fátima, aqui em Miraflores, e me chamou a atenção um cartaz colado na parede da portaria. Dizia algo como: “se você quer sempre coisas impossíveis, se muitas vezes é considerado louco pelo que aspira”, então, você tem muitos amigos na Companhia de Jesus. Não são as palavras exatas, mas, sim, é a ideia que, no fundo, não deixa de ser a que existe na passagem evangélica “O fermento na Massa”.

Neste mundo tão construído, tão informatizado, parece pouco possível que possamos fazer algo quase próprio. Apenas a tentativa já passa a impressão de ser coisa de loucos. Porém, há ainda algo mais grave quando as facções se polarizam e é preciso adotar uma posição própria: sempre é mais fácil se localizar nos extremos.

É mais fácil, e às vezes quase heroico, pregar o que a salutar razão aconselha.

Gostaria de voltar ao tema do 11 de Setembro, em Nova York, e a sua evolução. Qual deve ser a mensagem cristã e humana frente a estes fatos?

Sem dúvida, é preciso excluir a indulgência com o terrorismo. Porém, também é preciso questionar se a resposta deve ter limites ou não e, em caso da necessidade de haver, é preciso questionar quais devem ser.

O mesmo pode acontecer com muitas outras coisas. Para colocar o exemplo desta terra onde estamos, no nosso entender, é preciso dizer que nós, peruanos, ainda não elaboramos uma posição consistente contra a corrupção e que, ao menos é a nossa impressão, ainda existe muito mais de primitivo do que de civilizado na maneira como compreendemos retornar à essência, após presenciar, provavelmente, o período de corrupção política melhor documentado na história da humanidade.

Dá a impressão de que ainda temos mais revanche do que consistência na busca da honestidade, sem que isto pretenda desmerecer os sinceros esforços que muitos fazem, dentro e fora do aparato do Estado, por eliminar ou, quando menos, reduzir drasticamente a corrupção. Não pode haver aproximação inaciana à realidade, caso se prefira não elaborar a posição cristã e humanista frente a ela.

3. Criar alternativas que possam orientar a realidade para o bem comum

A consciência de ter que atuar na realidade começa por elaborar um plano para mudá-la. Não é ainda o passo para a ação, mas, sim, é a prefiguração inteligente do que e do como fazer. A atitude cristã e humana é um ponto de partida, um meio para repensar a realidade, caso não se parta desta atitude, as coisas não mudarão, não produzirão fruto.

Hoje se fala, por exemplo, de planejamento estratégico, um instrumento que, indubitavelmente, contém técnicas que pessoalmente respeitamos e cujo uso estimulamos. Porém, é assombroso o quanto fora da política se faz o planejamento estratégico. Ao contrário, dentro dela reinam a improvisação e a resposta à conjuntura, quando não a demagogia aos cálculos eleitorais.

Geralmente, a ação política é uma mistura complexa de elementos, entre os quais costumam estar um ou alguns dos apontados no parágrafo anterior. Uma atitude inaciana frente à política nos exige reflexão para orientar a mudança da realidade.

Este é um traço profundamente inaciano que nem todos os seres humanos compartilham e, nem sequer, todos os cristãos, porque existem irmãos na fé que preferem uma atitude contemplativa e de sacrifício, que exclui o atuar diretamente no mundo. É uma forma que a Igreja e também outras confissões reconheceram como válida e não temos crítica contra ela.

Porém, a atitude inaciana é diferente e também é válida: a preocupação com a realidade para fazer um plano de transformação, completando a criação divina entregue à humanidade. O episódio do ganhará o pão com o suor do seu rosto e suas reflexões subsequentes no Gênesis, são um bom sustento para esta atitude de transformação da realidade, porque a intervenção na realidade é justamente o objeto do trabalho humano, mas ordenadamente, como uma colaboração à ação divina.

Em todo caso, planejar o curso das coisas e conduzir a própria ação por causas racionais não é metodologia particular da idade moderna: sempre houve seres humanos e instituições que batalharam para criar metodologia de trabalho reflexivo frente à realidade. Do ponto de vista cristão, além do mais, isto é correto porque a criação tem uma racionalidade que se manifesta ao homem por meio de seu entendimento e o permite assentar as relações humanas e o manejo das coisas em prol do bem-estar de todos, que é exatamente o bem comum.

4. Intervenção na realidade para modificá-la

Este é um aspecto capital da posição inaciana. O anterior é parte de muitas concepções de vida, cristã e não cristã. No entanto, há um momento em que Inácio coloca o macacão, arregaça as mangas e começa a utilizar os alicates e as chaves de fenda. Sem isso, Inácio será um homônimo, não Santo Inácio de Loyola, o dos jesuítas.

É muito importante notar que ao longo de toda a sua vida e depois, por meio da formação que a Companhia oferece, a práxis é um componente essencial, não apenas da atitude frente à vida, mas também da consciência de transcendência do ser humano.

Com efeito, Inácio de Loyola trabalha sobre a vida para modificá-la. São assim todas as suas atividades e, também, as colossais viagens de evangelização e de ação que imbuiu a seus companheiros diretos e, com eles, a todos os jesuítas da história.

Nós, os ex-alunos, fomos sempre estimulados a trabalhar sobre a realidade, de diferentes maneiras, com aproximações ideológicas e culturais distintas que sempre compartilhamos, mas a metodologia de trabalhar no mundo foi parte essencial que se traduziu em acompanhar comunidades camponesas, em construir igrejas em povoados pobres, em repartir mantimentos entre aqueles que necessitam ou, então, em usar parte do tempo livre dos fins de semana para ditar catecismo entre jovens, muitas vezes, muito próximos de nós em idade.

Além disso, do ponto de vista da Fé, esta ação na terra é o caminho de salvação. A solidariedade é um traço típico da formação jesuítica, nem sempre reconhecido em seu verdadeiro valor nas concepções extremamente individualistas que, muitas vezes, são defendidas ao nosso lado, nos tempos atuais.

Por isso, em seu reto sentido, a abordagem jesuíta exige que transformemos a realidade política em um ato de esperança, virtude teologal de grande transcendência para os cristãos: esperança de poder contribuir no trabalho da Criação divina para mudar o mundo em prol do bem comum; mas também esperança de salvação, trabalhando pelo próximo, e solidariedade, duas palavras tão queridas pelo Evangelho.

5. A síntese humanizadora da atitude inaciana para com a política

Acreditamos que a atitude inaciana para com a política é de grande crescimento humano, porque é altamente civilizada: exige esforço no conhecimento da realidade, submetendo nossas próprias limitações para elaborar alternativas morais consistentes, criatividade para traçar os novos cursos do mundo em prol do bem comum, e o trabalho concreto de solidariedade para com o próximo.

Tudo isso na luta contra nossas fraquezas e em constante promoção das virtudes de nosso espírito. Trabalhar desta maneira colaborará para melhorar o mundo e engrandece ao que dedica seu tempo à política.

Um corolário muito importante de todos os outros é questionar, caso esteja em nossa herança como ex-alunos jesuítas, por que não ocupar nosso lugar no exercício da política pelo bem dos demais? Há muitos anos, os bispos peruanos escreveram uma carta aos fiéis intitulada “Política, dever cristão”. Penso que foi um título muito inaciano e que vale a pena recordá-lo, aqui, para que nos ajude a refletir sobre até onde nos dedicarmos à coisa pública. Com a bagagem de Santo Inácio, não é apenas uma opção, mas, ao contrário, um compromisso inescapável.

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