“Novos estilos de sofrimento”. Artigo de Ana María Fernández

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Por: André | 29 Agosto 2014

A autora defende que o trabalho de psicanalistas e psicólogos enfrenta uma “situação de urgência”, já que “os estilos de vida, os modos de vinculação, a moral sexual, as organizações familiares, os valores e as prioridades mudaram tão vertiginosamente que muitos relatos de vida nos deixam perplexos”.

 
Fonte: http://bit.ly/1lktAOn  

O artigo de Ana María Fernández está publicado no jornal argentino Página/12, 28-08-2014. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Se tomarmos como ponto de referência os anos em que se estabelece a psicanálise na Argentina, com a fundação da APA, ou seja, nos anos 1940-50, passaram-se cerca de 70 anos. Nestes anos, os estilos de vida, os costumes, os modos de vinculação, a moral sexual, as modalidades das organizações familiares, os valores e as prioridades de vida, tudo mudou tão vertiginosamente que não seria exagerado dizer que as mudanças das práticas sociais e as práticas de si foram muito mais rápidas que as nossas teorias. Na minha opinião, esta situação nos coloca diante de uma urgência. Urgência clínica, em primeiro lugar, mas também conceitual, epistêmico-filosófica, social, política, ética, de produção de ferramentas o mais rápido possível. Pede-o uma realidade que, como dizia, na vertiginosidade de suas transformações, em mais de uma ocasião nos deixa perplexos na escuta dos relatos de vida de muitos analisantes de hoje.

Se olharmos para os tempos dos primeiros anos da prática da psicanálise em nosso país, analistas e analisantes pertencem a um mundo social muito mais homogêneo. Uns e outros provinham de uma burguesia culta ou de uma classe média alta ilustrada, onde, além das diferenças das singularidades em jogo, geralmente podiam provir e participar de um mesmo mundo social e cultural. Hoje, as práticas hospitalares, por exemplo, nos colocam diante de um exercício da escuta à disposição de sofrimentos específicos de setores sociais de extrema vulnerabilização e pobreza muito distantes das condições de vida nas quais nós fomos criados, educados, etc. (Embora desde a intervenção de Enrique Pichón Riviere – um dos fundadores da APA – no Hospício das Mercedes a psicanálise argentina estivesse presente de muitas maneiras nas práticas hospitalares, podem ser assinalados, na atualidade, dois sinais distintivos. Por um lado, as formas extremas de vulnerabilização da pobreza nos últimos anos. Por outro, a naturalização de certas modalidades de abordagens públicas, onde não se pensam dispositivos específicos para a atenção hospitalar.)

Podemos, neste sentido, transitar diferenças de vida abissais. Isso importa? Incide em nosso trabalho clínico? A neutralidade analítica é suficiente como garantia? Também hoje podemos encontrar grandes diferenças de procedência social-cultural entre nós mesmos. O começo dos anos 1970 marca o ingresso massivo nas universidades, fruto da mobilidade social ascendente dos anos 1950 das classes médias. E dentro desse movimento, o ingresso também massivo de mulheres, particularmente nos recém abertos cursos de Psicologia. Naqueles tempos também aqueles que consultavam podiam dizer com certo orgulho pioneiro “Eu me analiso”, dando a esta questão um valor cultural, já que não era algo muito comum naquela época. Na atualidade, estas diferenças de procedência sociocultural se acentuam. Assim, por exemplo, se nos primeiros anos da carreira de Psicologia se misturavam basicamente alunos procedentes de centros urbanos como Buenos Aires, La Plata e Rosario, com estudantes do interior, hoje constatamos que, por exemplo, na UBA cresce o número de matriculados provenientes da Região Metropolitana de Buenos Aires pertencentes a setores socioculturais bem diferentes daqueles educados na Capital Federal.

Em síntese, nem entre colegas nem em relação às pessoas que se consultam compartilhamos um mundo medianamente homogêneo, mas todo o contrário; são procedências de mundos bem diversos que constituem uma significativa heterogeneidade social não apenas de classe e base cultural, também geracional, de orientação sexual. Qual é a importância de assinalar estas diferenças que para muitos podem ser óbvias e, sobretudo, não significativas na hora de implementar nossos dispositivos de trabalho? Desde já, pode-se dizer que desconsiderar estas e outras diferenças costuma invisibilizar seus efeitos no trabalho clínico, enquanto que distingui-las, em princípio, nos habilita a abrir interrogação a várias de suas dimensões. Em especial, na indagação da nossa implicação. Se olharmos alguns padecimentos de jovens que hoje vêm aos consultórios (Fernández, A. M., Jóvenes de vidas grises. Psicoanálisis y biopolítica, Buenos Aires, Nueva Visión, 2013), em muitos casos nos encontramos com pessoas que costumam não ter o hábito da interrogação de si; que a qualquer pergunta respondem: “tudo bem, tudo tranquilo”, “não sei”, “nada”. Trata-se de modos de subjetivação em mais conformidade que tensionam com outros modos de subjetivação onde predominam as pulsões descontroladas, com experiências de excessos, transbordes, violências, autoagressões, etc. Em ambos os casos, trata-se de pessoas que podem alterar-se diante de qualquer situação cotidiana que implique escolher algo ou confrontar-se com outro, que não se entusiasmam muito, que não parecem necessitados de pensar-se em seu projeto de vida.

Não é por acaso que a maioria destes/as jovens recusa o uso do divã e prefere sessões cara a cara, ou não queira um tratamento de longa duração, mas prefere consultas mais pontuais, opta por pagar sessão por sessão e não mensalmente, etc. Todas estas variações ao dispositivo clássico costumam ser naturalizadas, razão pela qual se fecha a interrogação conceitual e o diálogo entre colegas a este respeito. Não são meras questões “técnicas”, mas que falam, em princípio e além da singularidade do caso a caso, de um sócio-histórico em mutação. Recusar o divã é um detalhe que não deveria ser subestimado. Há algo ali da necessidade do contato cara a cara que possivelmente esteja dizendo, fale, de modalidades atuais dos vínculos, do laço social, dos isolamentos, em que se configuram hoje as subjetividades. Na minha opinião, o espaço da clínica é um dos lugares mais sensíveis às mudanças sócio-históricas.

Se olharmos o trabalho em instituições estatais – hospitais, escolas, aparelhos judiciais, delegacias da mulher, desenvolvimento social etc. –, vemos com beneplácito como ao longo dos anos se ampliaram e se segue ampliando a inserção de psicólogos em organismos públicos. No entanto, quando estes colegas se identificam como psicanalistas costumam ter grandes dificuldades para serem reconhecidos como agentes do Estado. Assim, não costumam utilizar recursos públicos que têm à disposição porque isso significaria “sair de seu lugar de analistas”. Estabelece-se, assim, uma tensão – imaginária, mas de grandes efeitos nocivos nas práticas profissionais – entre duas modalidades indentitárias: psicanalista-agente do Estado. Não seria estritamente psicanalítico levar histórias clínicas, aplicar protocolos de risco, consultar com o estabelecimento escolar no caso de crianças problemáticas, etc. etc. Aquilo que não se instrumenta na prática privada dos consultórios, ficaria desqualificado nas práticas hospitalares, com o que se desmente a inscrição no público, ou seja, se desmente a inscrição material de empregados do Estado e, por conseguinte, não seria preciso ater-se a muitos de seus regulamentos. A dimensão crítica da clínica supõe estar atentos às subjetivações e formas de vinculação próprias de uma época.

Por isso, dizia, nada mais sensível às mudanças sócio-históricas que a clínica. Não se trata de estabelecer outros quadros clínicos, mas de problematizar estilos ou modalidades de sofrimento que tomam alguma especificidade nestes tempos. Reconhecer esta historicidade implica dois movimentos: por um lado, a disposição de pensar a atualidade de alguns padecimentos e, ligado a isso, reconhecer a adequação das modalidades clínicas fundacionais a seu momento histórico e, por consequência, a legitimidade de suas modificações atuais, nos casos em que seja necessário.

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