Migrantes deportados dos Estados Unidos, sem proteção na fronteira mexicana

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Por: André | 27 Agosto 2014

Os vãos sob as pontes do canal do rio Tijuana, na esquina mais ao norte do México, converteram-se em enormes latrinas. Centenas de pessoas dormem em casinhas de papelão e pano, covas feitas na terra, bueiros, pontes e ladeiras do canal, ao longo dos dois quilômetros entre o leste da cidade e a vala fronteiriça com os Estados Unidos.

 
Fonte: http://bit.ly/1qgGR9P  

A reportagem é de Daniela Pastrana e publicada no sítio da agência IPS Noticias, 22-08-2014. A tradução é de André Langer.

O cheiro incomoda. Às 7h, os consumidores de heroína, que aqui se consegue por dois dólares a dose, agradecem pelo açúcar de alguns chocolates. “Esta é a cidade de El Bordo”, diz um deles à IPS, com as mãos estendidas e um sorriso torcido.

É a cidade dos sem nada. O lar sob a ponte fronteiriça de dezenas de indigentes e migrantes deportados, que decidiram esperar tempos melhores para cruzar esta fronteira selada, e que sobrevivem da limpeza de automóveis, do carregamento de volumes no mercado, de trabalhos na construção civil, da reciclagem de lixo ou de serem pedintes nas ruas da cidade fronteiriça de Tijuana.

“A população que mora em El Bordo é uma amostra das condições extremas que os deportados mais vulneráveis do México podem enfrentar”, diz o estudo “Estimativa e caracterização da população residente em El Bordo do canal do rio Tijuana”.

Nos últimos cinco anos aumentou a separação familiar em consequência das deportações. Um dado dimensiona o fenômeno: enquanto que em 2007 apenas 20% dos repatriados foram deportados sem seus familiares, em 2012 esta porcentagem subiu para 77%.

Elaborado pelo Colégio da Fronteira Norte (Colef), o estudo contabilizou entre 700 e mil pessoas vivendo neste lugar durante agosto e setembro de 2013.

Acrescenta que os moradores de El Bordo são majoritariamente homens, de cerca de 40 anos, deportados nos últimos quatro anos, viciados (alguns começaram a consumir drogas neste lugar) e sem documento algum de identidade.

Detalha que mais da metade fala inglês, e inclusive têm níveis de escolaridade similares aos moradores de Tijuana, e apenas 6% pensam em voltar ao seu lugar de origem, embora a maioria tenha filhos.

“Estes resultados refletem que as deportações dos Estados Unidos ao México estão provocando separações familiares e, especificamente, a separação dos pais do âmbito doméstico, o que provoca a ruptura de projetos individuais e familiares, e põe fim à possibilidade de integração ao país de residência dos demais membros da família”, diz o estudo, coordenado pela Laura Velasco, pesquisadora do Departamento de Estudos Culturais do Colef.

A 2.780 quilômetros da Cidade do México, Tijuana é a última ponta ao norte do país. Pertence à península do Estado da Baixa Califórnia e faz fronteira com San Diego, nos Estados Unidos. Em 2012, esta cidade recebeu 59.845 das 409.849 pessoas deportadas pelo governo de Barack Obama. Ou seja, cerca de sete deportados por hora.

Desde que começou, em 2009, o governo de Obama já superou os dois milhões de deportações e converteu-se na Administração que realizou mais expulsões de pessoas indocumentadas.

Com 1,7 milhão de habitantes, Tijuana ocupa o primeiro lugar em porcentagem de narcodependentes de todo o país. É sede de cartéis do narcotráfico, agora fragilizados, e é considerada uma das cidades mais violentas do México.

Durante décadas foi a principal porta de entrada de migrantes nos Estados Unidos.

Mas os atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova York, deram um giro na política migratória e a fronteira mexicana foi selada, forçando os migrantes indocumentados a buscar rotas cada vez mais perigosas, enquanto que a segurança passou a contar com 3.500 agentes da estadunidense Patrulha Fronteiriça em 2005 e 21.000 em 2013.

O México compartilha com os Estados Unidos 3.500 quilômetros de fronteira. A Baixa Califórnia, que faz fronteira com San Diego e o Arizona, recebe um terço dos deportados e é o Estado com maior número de residentes estrangeiros.

A 177 quilômetros a leste de Tijuana está a capital do Estado, Mexicali, na qual o calor de agosto pode matar qualquer um – chega a 50 graus centígrados – e onde as pessoas que não têm ar condicionado dormem nos terraços.

Mexicali tem seu “mini El Bordo”: os edifícios Montealbán, destruídos por um terremoto em 2010, na margem oriental do agora inexistente rio Nuevo, a alguns metros do centro histórico de Mexicali. Aqui vivem 80 pessoas, entre indigentes locais e migrantes deportados que têm algum vício.

Entre as ruínas dos edifícios foram encontrados cadáveres no último dia 15 de abril, e continuamente há incêndios e operações policiais.

“Vivo aqui porque não há outro lugar. No albergue me “engento” (angustio), há muita gente”, diz à IPS um guatemalteco de 33 anos chamado Josué, que foi deportado no dia 01 de agosto de 2013 e que só tem uma coisa em mente: retornar aos Estados Unidos.

Já o tentou por Nogales, no Estado de Sonora, mas não conseguiu passar. Disseram-lhe que por aqui é mais fácil e só espera “o calor passar” para fazer nova tentativa. “Cheguei à Califórnia aos 10 anos, na Guatemala já não tenho nada”, insiste.

Outro estudo do Colef sobre a caracterização das pessoas deportadas, que só faz referência aos mexicanos, alerta sobre seu estado de saúde.

“Existe uma alarmante diferença de sintomas emocionais entre os deportados, quase 20 vezes mais que entre os de retorno voluntário”, diz o estudo, com base em pesquisas sobre a saúde dos deportados, realizado por Letza Bojórquez, pesquisadora do Departamento de Estudos sobre População do Colef.

Com dados da Pesquisa sobre Migração da Fronteira Norte, a pesquisadora detectou que 40% da população migrante que sobrevive na rua informa ter problemas emocionais e 12% responde afirmativamente à pergunta de se pensou em tirar a vida alguma vez.

Além disso, nos últimos cinco anos aumentou a separação familiar em consequência das deportações. Um dado dimensiona o fenômeno: enquanto que em 2007 apenas 20% dos repatriados foram deportados sem seus familiares, em 2012 esta porcentagem subiu para 77%.

“O problema aqui é que não há nenhuma política de atenção aos deportados. Começaram a chegar centenas de deportados e não havia nenhuma instituição preparada para recebê-los”, disse à IPS o ativista Sergio Tamai, diretor do Albergue Hotel Migrante, em Mexicali, e líder da organização Anjos sem Fronteiras.

Entre agosto e novembro de 2013, Tamai liderou um acampamento de 800 pessoas na Praça Constituição de Tijuana, para exigir programas de atenção a migrantes, deportados e em situação de rua.

O trabalho das organizações da sociedade civil e grupos religiosos para pressionar as autoridades deu alguns frutos.

No dia 07 de agosto, o Legislativo de Baixa Califórnia aprovou a Lei para a Proteção dos Direitos e Apoio aos Migrantes do Estado, que estabelece a obrigação do Sistema Estatal para o Desenvolvimento Integral da Família proporcionar assistência social a menores e adolescentes migrantes não acompanhados, assim como a criação do Registro Estatal de Migrantes.

É o primeiro Estado a fazê-lo, depois que, em 2011, o Congresso Nacional mexicano aprovou a criação de uma nova Lei de Migração, que substituiu aquela de 1947 e que ampara juridicamente as pessoas em trânsito pelo México.

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