Estão Martha Lamas e Beatriz Preciado além do feminismo?

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Por: André | 21 Agosto 2014

“A reflexão de Beatriz Preciado (foto ao lado) não para naquilo que em determinado tempo se chamou de “libertação feminina” ou nas lutas pelos direitos da mulher, mas na libertação dos seres humanos de todos os mitos e verdades estabelecidas”, escreve o mexicano Pedro Echeverría V.

 
Fonte: http://bit.ly/1AzmclT  

Não conformado com a noção de corpo, Preciado cunhou o termo “somateca”, que “poderia ser descrita como o efeito de uma multiplicidade de técnicas de poder e de representação que mantêm entre si diferentes tipos de relações (tanto conflitivas como simbióticas), propiciando a criação de uma ficção política que possui uma ‘curiosa dupla qualidade’: a de estar viva e a de ser um lugar de subjetivação”, prossegue Pedro.

E conclui: “Preciado pensa que como em quase todas as práticas de oposição política minoritária, o feminismo sofre de um desconhecimento crônico da sua própria genealogia”.

O artigo de Pedro Echeverría V. está publicado no seu blog homônimo, 19-08-2014. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

1. Marta Lamas (foto abaixo) acaba de publicar seu livro Corpo, sexo e política. A revista mexicana Proceso publicou esta semana a introdução desta obra. Martha foi, para mim, desde a revista Fem 1977 de Foppa, García Flores e Poniatowka – junto com outras lutadoras sociais –, durante décadas uma das representantes mais destacadas do feminismo no México que, entre outras colocações, assume a defesa dos direitos da mulher na sociedade capitalista. Entretanto, há dois ou três anos – via internet – conheci outro posicionamento que me pareceu mais radical porque ultrapassa o feminismo, o de Beatriz Preciado: intelectual e ativista espanhola que, como muitas outras, busca mudanças profundas no pensamento e na realidade.

2. Desde os anos 1960 e 1970 tomei consciência de que nenhum movimento revolucionário anticapitalista, socialista ou autogestionário poderia triunfar sem a participação das mulheres, dos homens, dos homossexuais e de todos os seres humanos oprimidos. Entendi a história da opressão da mulher pelo sistema capitalista e pelas sociedades anteriores. Fui compreendendo em meio a batalhas – acompanhando feministas e homossexuais em suas manifestações – que só havia seres humanos oprimidos (a imensa maioria) e um punhado de opressores capitalistas. Assim, entendi – como de seres humanos e classe social – todas as lutas de operários, camponeses, professores, estudantes, de qualquer emprego, do México ou de qualquer país.

3. Surpreende ver que, escreve Martha Lamas, apesar do avanço no conhecimento, da condição humana, na sociedade persiste a dificuldade para reconhecer que nem a identidade das fêmeas e dos machos humanos, nem seus desejos sexuais “derivam da sua anatomia, mas das suas elaborações psíquicas e do significado que estas adquirem em interações sociais concretas”. Nestas frases e em outras encontro coincidências com Beatriz Preciado que insiste em que o biológico não é determinante e parece tudo imposto de fora pelo controle médico, jurídico e estatal. Por isso, Preciado, em conferências e textos, pelo que parece, chega a propor que sexo, gênero, homossexualidade, são valores sociais impostos por mediações políticas (Proceso).

4. Martha Lamas assinala: desde a infância vamos percebendo as representações do “feminino” e do “masculino” mediante a linguagem e a materialidade da cultura (os objetos, as imagens, etc.). Quanto à informação, o gênero antecede a relativa à diferença sexual no desenvolvimento cognoscitivo infantil. Entre os dois e os três anos, meninas e meninos sabem referir-se a si mesmos em feminino ou masculino, embora não tenham uma noção clara de em que consiste a diferença biológica. Muitos nem sequer registram a diferença anatômica, mas são capazes de diferenciar a roupa, os brinquedos e os símbolos mais evidentes do que é próprio dos meninos e do que é próprio das meninas. Será que “a biologia propõe e a identidade dispõe”?

 
Fonte: http://bit.ly/1AzmclT  

5. Mais adiante, Martha reflete e propõe: a contradição entre o papel feminino tradicional – o papel de mãe e ama de casa – e os novos papéis, de cidadã e trabalhadora, não se resolve facilmente. É necessário criar leis de igualdade, mas para conseguir uma verdadeira “incorporação” requer-se o fim da identificação simbólica mulher-família. Não basta ampliar o marco de ação da mulher, que sai do estreito espaço da família para ingressar no mundo do trabalho e da atividade cidadã: é preciso obrigar a participação masculina nas tarefas domésticas e o cuidado humano, e também desenvolver uma ampla infraestrutura de serviços sociais que apóiem a atenção a criaturas, pessoas idosas, enfermas e com necessidades especiais.

6. A reflexão de Beatriz Preciado não para naquilo que em determinado tempo se chamou de “libertação feminina” ou nas lutas pelos direitos da mulher, mas na libertação dos seres humanos de todos os mitos e verdades estabelecidas. Fala em fazer uma “genealogia política do corpo” que permita “conhecer e compreender quais e como foram os processos de construção das ‘ficções políticas’ – a identidade sexual, o gênero, a classe social, a raça... – que nos conformam e constituem. Como se constrói e normaliza a sexualidade! Ficções que são somáticas (ou seja, que “tomam a forma da vida”) e que, em certos casos, podem ser desconstruídas e reconstruídas através de diversas estratégias de resistência e subversão crítica (para que em vez de nos subjugar, nos empoderem).

7. Beatriz Preciado não se convence muito com a noção de corpo; desde a premissa de que quando se necessita de um novo conceito crítico é preciso inventá-lo, ela prefere utilizar a noção de “somateca”. “É preciso levar em conta”, precisou, “que o corpo de que falo não se ajusta à noção ‘moderna’ de corpus, entendido como uma unidade funcional, uma totalidade homogênea que pode ser tanto orgânica como inorgânica (por exemplo, um corpus bibliográfico)”. Segundo Preciado, a somateca poderia ser descrita como o efeito de uma multiplicidade de técnicas de poder e de representação que mantêm entre si diferentes tipos de relações (tanto conflitivas como simbióticas), propiciando a criação de uma ficção política que possui uma “curiosa dupla qualidade”: a de estar viva e a de ser um lugar de subjetivação.

8. Beatriz Preciado ensina que a história política do corpo pode ser dividida, em grandes linhas, em três momentos ou períodos ligados cada um deles a um “regime somatopolítico” diferente: o regime soberano, no qual o corpo ainda está habitado pelo poder teocrático (“é um corpo para a morte”); o regime disciplinar ou biopolítico, no qual há uma proliferação de órgãos e o corpo funciona como uma máquina orgânica de reprodução nacional; e o regime fármaco-pornográfico ou neoliberal, que se caracterizaria, entre outras coisas, pelo aparecimento da noção médico-psquiátrica de “gênero”, a emergência do corpo cyborg, a separação química entre heterossexualidade e reprodução ou a conversão da pornografia em cultura popular.

9. Preciado pensa que como em quase todas as práticas de oposição política minoritária, o feminismo sofre de um desconhecimento crônico da sua própria genealogia. Ignora suas linguagens, esquece suas fontes, apaga suas vozes, perde seus textos e suas chaves. Aponta que Walter Benjamin nos recorda que a história é escrita do ponto de vista dos vencedores. É por isto que o espírito do feminismo é amnésico caso não escrever a história do ponto de vista dos vencidos. É com esta condição, disse, que será possível interromper o tempo da opressão. Cada palavra da nossa linguagem contém, como que enrolada sobre si mesma, um novelo de tempo constituído de operações históricas. Por isso, proponho, além de ler Lamas, revisar detidamente Preciado.

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