O feminismo que não fala às jovens

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11 Agosto 2014

O feminismo fracassou pela simplificação dos discursos, pela divisão das mulheres em boas e más, santas e prostitutas, de camisola e de minissaia, moralistas e livres. Não é verdade, certamente: mas assim foi contado. E hoje é muito difícil romper a dicotomia e explicar que os feminismos libertam os corpos, especialmente em tempos de contração dos discursos a hashtags.

A opinião é da jornalista e escritora italiana Loredana Lipperini, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 06-08-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Era uma vez uma história em quadrinhos sobre a Cicciolina que se chama Amore libero e foi realizado no início dos anos 1990 por Giovanni Romanini e Lucio Filippucci. Nos quadrinhos, havia três feministas que pediam a forca para Cicciolina, sexuada demais; ela, luminosa de juventude e de liberdade; elas, aprisionadas em um tailleur triste e munidas de buços, óculos e uma verruga peluda de costume.

A dicotomia está pronta para ser servida: as feministas, portanto, seriam mulheres que "têm problemas" com o corpo, a beleza, o sexo e que impedem que as outras mulheres vivam felizmente o corpo, a beleza, o sexo.

Assim era e assim é: a feminista censora ainda é o bicho-papão das meninas norte-americanas que brincam com as hashtags, o cavalo de batalha dos comentaristas misóginos e o alvo das chamadas antimoralistas, convencidas de que aqueles que se ocupam com questões de gênero detestam os saltos-agulha, a depilação e a liberdade sexual própria e alheia.

Agora, também se pode argumentar que as meninas do outro lado do oceano estão desinformadas, que os comentaristas misóginos estão de má fé e que, talvez, ao menos algumas das neolibertárias italianas compreenderam bem que a tendência do momento é a que se chama de gender backlash – a ressaca que, ciclicamente, arrasta para trás as conquistas que dizem respeito aos gêneros – e que, portanto, surfam nessa onda para obter em troca alguns retuítes, um programa de televisão ou a venda de algumas cópias do seu próprio livro contra as feministas peludas. É possível e é legítimo fazê-lo. Mas não é o suficiente.

Porque, chegar a considerar como desnecessários ou, melhor, perniciosos os movimentos das mulheres - especialmente em um país como o nosso, onde abortar é quase impossível, a educação de gênero na escola, uma miragem, a disparidade de salários e de posições de topo, um fato - significa que a narrativa do feminismo fracassou novamente.

Ela já fracassou uma vez, depois da temporada dos anos 1970, quando não conseguiu ir ao encontro das filhas, porque muitas mães se fecharam na dourada e seletiva certeza das universidades e da teoria.

Na segunda vez, esta, fracassou pelo motivo oposto: a simplificação dos discursos, a divisão das mulheres em boas e más, santas e prostitutas, de camisola e de minissaia, moralistas e livres. Não é verdade, certamente: mas assim foi contado, em muitos casos, por uma e outra parte, e hoje é muito difícil romper a dicotomia e explicar que os feminismos libertam os corpos e não os mortificam, especialmente em tempos de contração dos discursos a hashtags, justamente.

Porém, apenas encontrando a narrativa justa (na escola, nas mídias, na rede) é que se pode abrir mão daquilo que já se tornou uma disputa: mas não é uma tarefa simples. Há poucos dias, no mural do Facebook de uma boa editora e escritora, desencadeou-se um alvoroço, porque ela havia destacado que, em uma pesquisa sobre a publicação, todos os escritores entrevistados eram homens.

Vocês absolutamente não querem as cotas rosas, disse-se. E vão explicações de que não, não é uma questão de quotas e não se trata de nos colocar à força uma escritora para respeitar o politicamente correto. A questão é que as escritoras ignoradas não foram "vistas": elas não vêm à mente a quem escreve artigos, edita antologias, organiza festivais.

E se isso ocorre no mais avisado dos setores, a literatura, como pode não ocorrer em outros lugares? Como se muda uma narrativa se não se percebe a necessidade, nem mesmo entre os narradores, e mesmo quando o "peso de porta", o grande livro epocal de 2014, foi escrito por uma mulher?

Aliás, quando tivermos também nós o nosso The Goldfinch e a nossa Donna Tartt [escritora norte-americana vencedora do prêmio Pulitzer de 2014], alguém vai se dar conta?

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