A escola mais bela do mundo. E de Gaza

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06 Agosto 2014

Era a escola mais bela do mundo, porque era três vezes neutra. Em primeiro lugar, porque não há arquitetura mais bela do que uma escola, também por ser beduína e, finalmente, porque era uma escola italiana. Quando este texto foi escrito, não havia fotografias dos destroços, mas, segundo o arquiteto Mario Cucinella e Massimo Annibale Rossi, presidente da ONG Vento di Terra, o centro para a infância de Um al Nasser foi demolido alguns dias depois da invasão de terra pelo exército israelense no âmbito da operação Margem de Proteção.

A reportagem é de Manuel Orazi, publicada no jornal Pagina 99, 26-07-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na noite do dia 17 de junho passado, os militares intimaram os moradores do vilarejo, cerca de 5.000 pessoas, para se deslocar imediatamente ao sul, e, no dia seguinte, as escavadeiras fizeram o resto.

O fato é que o centro Terra dei Bambini, que inclui uma escola para mais de 100 alunos, mais um ambulatório pediátrico, um refeitório e outros espaços comunitários, construído segundo um projeto do estúdio milanês ArCò e o bolonhês de Cucinella, MCA, tinha-se tornado o principal de agregação de todo o vilarejo beduíno, que se encontra a apenas uma milha de distância do muro da fronteira, perto de Erez.

Trata-se de uma minoria dentro da minoria, não integrada, porque os beduínos são de origem nômade, embora agora estabilizados em pequenos assentamentos muito pobres na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e também dentro de Israel, por exemplo, nos arredores de Be'er Sheva. O Ministério das Relações Exteriores e a cooperação internacional, através da ONG de Rossi, forneceram um financiamento de cerca de 170 mil euros – alguns tostões, se pensarmos no custo de construção de uma escola semelhante na Itália – produzindo um edifício feito com materiais locais, como sacos de areia, acabamentos em barro, já que em Gaza é escasso até mesmo o concreto armado, e sem vidros para melhor resistir a eventuais bombardeios, como aconteceu, por exemplo, no ano passado.

As tecnologias usadas eram simples como as usadas para a coleta da água da chuva e os painéis fotovoltaicos que já são mais do que comuns, tudo realizado entre 2012 e 2013, com a ajuda dos pais das crianças que, em muitos casos, trabalharam como operários.

"A Terra dei Bambini era um projeto amplo, no sentido de que desenvolvemos junto com os arquitetos todas as três fases de pesquisa de campo, planejamento participativo e implementação, construindo um oásis de paz para as crianças", explica Rossi, antes de partir para Israel, onde espera retomar os contatos com a sua equipe local, que felizmente não sofreu baixas.

Segundo Cucinella, ao contrário, essa demolição é dura de suportar, principalmente porque "é através de um projeto atento como neste caso que não só se realiza uma escola, mas se dá um valor de responsabilidade à nossa atividade. Hoje, eu tenho um sentimento de profunda impotência. O que me atormenta não são tanto as crianças que vivem em condições de extrema pobreza, mas que são iguais às minhas, mas sim o fato de que todas as escolas aqui se tornam necessariamente um centro de agregação social. Porque, onde tudo falta como em Gaza, as escolas se tornam muitas vezes os únicos lugares de civilização. Não por acaso todas as crianças deslocadas estão agora amontoadas nas escolas que restaram, especialmente naquelas construídas sob a égide das Nações Unidas, que não podem ser atacadas".

Cucinella, que está construindo outra escola perto de Rafah, destaca que, além da arquitetura, os arquitetos e ativistas italianos trouxeram para a Palestina principalmente conhecimento. O arquiteto – que se formou com Giancarlo De Carlo (principal teórico do planejamento participativo) e trabalhou extensivamente com Renzo Piano, em Paris – há anos ele leva adiante uma linha de pesquisa ligada à filosofia da arquitetura sustentável, isto é, que busca construir não contra, mas com a natureza, por exemplo aumentando as formas de defesa do sol e de ventilação natural dos edifícios ou de reciclagem das águas pluviais e residuais, princípios que muitas vezes custam a ser aplicados pelos escritórios técnicos de Gaza e Ramallah, mas também em Jerusalém e em outros lugares, porque muitas vezes os técnicos estão ligados a esquemas mentais do passado.

"No fundo, toda a cultura material da área do Oriente Médio e da Mesopotâmia desenvolveu uma arquitetura ligada à necessidade de ter que se adaptar a um dos climas mais difíceis. Tanto os árabes quanto os israelenses têm em comum essa especialidade", explica Cucinelli.

"Basta pensar em como os árabes, apenas para dar um exemplo, criaram o sistema de poços e da rede hídrica na Sicília, ainda existente, ou como os israelenses, para dar outro exemplo, conseguiram tornar fértil até mesmo o deserto – também em nível ideológico, se é verdade que a fazenda do fundador Ben Gurion se encontrava precisamente no deserto de Negev, a poucos quilômetros de Gaza".

Nessa paisagem árida e povoada por mortos e ruínas, se não podemos fazer previsões, podemos pensar não em uma solução, mas ao menos em uma saída? "Há dois anos, fui convidado por uma fundação cultural em Jerusalém para dar uma palestra sobre a arquitetura sustentável, no Instituto Van Leer. Eu respondi que queria falar sobre a escola de Um al Nasser, caso contrário, recusaria o convite. Não só a fundação, de marca humanística, aceitou, mas, na plateia muito lotada, e para a minha grande surpresa, encontrei, além de intelectuais e professores, também outras personalidades, todas muito interessadas no diálogo com os palestinos, se não pacifistas propriamente ditos. Depois da conferência, pude falar com um ex-ministro, Shlomo Ben-Ami, que me impressionou ao notar que a política, apesar dos acordos de Oslo e das várias negociações de paz subsequentes, não conseguiu encontrar uma solução, porque já está deslegitimada. E que, então, talvez, o único modo é o de construir escolas, que não são notadas, mas que vivem graças a uma ação cotidiana e, por isso, podem, talvez, ser os únicos baluartes silenciosos de uma convivência futura e pacífica."

Pelo menos até quando são abatidas como se abatem os inimigos.

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