As estreitas relações entre máfia e religião. Entrevista com Alessandra Dino

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24 Junho 2014

"Nenhuma ruptura." As palavras do Papa Francisco proferidas em Síbaris são uma evolução da frase "Arrependei-vos, virá o juízo de Deus", dirigida aos mafiosos pelo Papa Wojtyla em 1993, no Valle dei Templi. A explicação é de Alessandra Dino, professora de sociologia da Universidade de Palermo e autora do livro La Mafia devota. Chiesa, religione, Cosa Nostra [A máfia devota. Igreja, religião, Cosa Nostra], que analisa a relação entre a Igreja e a máfia, com pesquisas de campo e entrevistas com os párocos da província de Palermo entre 2004 e 2005.

A reportagem é de Mario Marcis, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 22-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Que uso a máfia fez da religião ao longo do tempo?

Para a máfia, ela sempre foi um instrumento. Sempre foi importante ter a religião por trás. Depois, ela serviu para tornar mais sólido o vínculo associativo em seu interior, porque ela cria formas de ritualidade entre os membros dos clãs, que se sentem assim legitimados de cometer crimes sem nenhum senso de culpa. Mas acima de tudo dá à máfia uma legitimação das suas ações criminosas. Mas também a Igreja usou a máfia. Basta pensar nas declarações de Francesco Marino Mannoia, que contou sobre os investimentos de Michele Sindona no IOR.

Qual é a sensibilidade dos párocos em relação à máfia? No seu livro, você escreve que 65% dos seus entrevistados manifestaram muita ambiguidade.

Veio à tona a partir da pesquisa que a consciência do fenômeno mafioso era percebida em uma porcentagem muito reduzida. Pedi que os párocos me dessem uma definição de "mafioso". Muitas vezes, a resposta era a que os mafiosos dariam de si mesmos, "homens de honra". Mas o aspecto mais chocante foi a resposta que muitos deles davam à pergunta "Quem são os colaboradores da justiça". O juízo era mais negativo do que o dado pelos mafiosos. Surgia a ideia da traição. Para eles, o único arrependimento possível é o diante de Deus.

Mas, então, a Igreja é contra ou a favor da máfia?

Existem muitas Igrejas. Há inúmeros testemunhos de padres que se rebelaram contra o crime organizado e, por isso, foram mortos. Depois, é preciso dizer que a Igreja, como instituição, enfrentou o problema muito tarde. O primeiro documento oficial sobre a máfia é o do cardeal Ruffini, que, em 1963, falava a respeito como de "uma invenção dos comunistas para prejudicar a Democracia Cristã". Isso logo depois do massacre de Ciaculli. Tiveram que passar 30 anos para que a Igreja tomasse uma posição mais clara, com o discurso do Papa Wojtyla. Poucos meses depois, no dia 15 de setembro de 1993, era assassinado o padre Pino Puglisi. A morte, que ocorreu depois do discurso do papa, demonstra os efeitos que podem produzir os posicionamentos claros da Igreja e dos papas, em particular. Foi uma vingança, uma resposta direta a João Paulo II.

O Papa Francisco foi o primeiro a pronunciar a palavra "excomunhão"?

Houve, na Igreja, quem se pronunciou em favor da excomunhão contra os mafiosos. Mas se referia aos homicídios realizados, não ao simples fato de fazer parte do crime organizado. As palavras do Papa Francisco podem ser lidas como um 416-bis [artigo do Código Penal italiano que penaliza a "associação para delinquir"] da Igreja. Desta vez, há o agravante. É muito importante que a Igreja se pronuncie contra sem ambiguidade, porque a força dessa conivência sempre foi justamente a ambiguidade. A máfia também a usava para dar de si uma imagem "divina" para fora. Prova disso são os pizzini [folhetos da máfia] de Provenzano, em que se retomavam as passagens da Bíblia ou o fato de que Nino Mangano se fizesse chamar por "U Signuri".

Qual é a diferença entre as palavras de Wojtyla e as do Papa Francisco?

Não há nenhuma diferença, mas continuidade. A Igreja, antes, pediu o arrependimento terreno e depois de 21 anos introduziu um segundo nível. Você tem a oportunidade de se arrepender; se não o fizer, está fora. Foi isso que Bergoglio disse hoje.

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