Contra a interpretação da imagem e a "aura antropológica"

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23 Junho 2014

O artigo a seguir, escrito por Caio Fernando Flores Coelho, integra a edição 49 dos Cadernos IHU. Trata-se de uma proposta epistêmica a partir da análise do conceito de aura da obra de arte de Walter Benjamin, da urgência de Susan Sontag contra a interpretação acadêmica e sobre a realização de imagens em pesquisas de campo.

Eis o artigo.

Seria possível apreender as propostas que Sontag postula em seu “Contra a interpretação" para o exercício visual etnográfico? É especialmente instigante sua conclusão, de onde deriva toda sua argumentação: "Em vez de uma hermenêutica, precisamos de uma erótica da arte" (1987, p. 23). Sempre procurei seguir esta máxima em minhas pesquisas, mas tenho de admitir que é muito fácil cometer erros nesta intenção. Vias de fato, acabo muitas vezes por realizar uma interpretação em seu sentido mais árido, ou seja, uma vivissecção do objeto de estudo.

Entendo, pois, que este princípio não é somente aplicável ao campo dos estudos culturais ou da história da arte, mas a todo e qualquer assunto em que busquemos o “espírito das coisas”. Inclusive em nossos fazeres antropológicos. E qual outro papel o antropólogo possui, além de poder enamorar-se da humanidade e buscar nela conhecimento, por mais universalista que isso pareça?

O conselho de Sontag se volta especialmente para os estudos acadêmicos sobre a arte produzida por outrem (no caso, um artista), seja no cinema ou na pintura. Porém, no escopo da etnografia visual, esta relação se inverte, pois temos o pesquisador produzindo imagens. Neste momento, em que o antropólogo se coloca como produtor de “sentido” através da imagem, não passa ele a ser um artista?

Acredito que não somente é possível uma erótica da arte, como a autora propõe, mas também é possível uma erótica da humanidade – e não um 'humanismo erotizado'. A busca por um conhecimento fértil que apresente a humanidade em seu conteúdo não distanciado em instâncias “científicas”, engavetadas e lobotomizadas pela teoria.

Uma antropologia visual engajada não deveria realizar um trabalho cujo produto de alguma forma denegrisse a imagem de seus interlocutores. A antropologia visual deve mostrar a condição humana, mas em seu lado belo, em sua faceta digna.

Ao mesmo tempo, ela não deve mascarar a realidade em um belo conto de fadas. Existe disputa social, existe tensionamento em todas as dimensões sociais, mas o que cabe ao antropólogo visual é segurar uma balança (ou uma câmera fotográfica) e estabelecer uma poética através do que é visto e do que ele decide relatar, e aqui está a grande questão: o que o antropólogo decide relatar. É neste ponto que as questões da conduta ética se mostram necessárias.

Assim como a presença do antropólogo em pesquisa de campo sempre “incomoda” e altera as interações que antes ocorriam de determinada maneira, o ato de realizar imagens, a partir destas pessoas, também causará estranhamento, já que o mito do antropólogo como “nativo” nunca foi fielmente bem-sucedido.
Segundo Barthes (1984, p. 22): "Ora, a partir do momento que me sinto olhado pela objetiva, tudo muda: ponho-me a “posar”, fabrico-me instantaneamente um outro corpo, metamorfoseio-me antecipadamente em imagem. Essa transformação é ativa: sinto que a Fotografia cria meu corpo ou o mortifica, a seu bel-prazer (...)."

049capaPor outro lado, uma verdadeira 'erótica do fenômeno humano' demonstra efeitos positivos quando da retribuição da obra realizada. Nosso objetivo, ao mostrar o lado belo e digno das pessoas, mostra sua valia ao nos ajudar a estabelecer maior vínculo com elas e aumentar a interação durante a realização da pesquisa de campo. Elas ainda vão se metamorfosear diante da câmera, mas caso se chegue ao ponto em que a câmera vai mortificar alguém, está na hora de repensar certas condutas do pesquisador.

Enquanto a aura da obra de arte, para Benjamin, perde a sua essência na “era da reprodutibilidade técnica” devido à reprodução em larga escala, para o antropólogo, a capacidade de reprodução faz com que sua obra ganhe essência, pois a aura do objeto antropológico é, na verdade, constituída pelo sujeito do qual fala, e a facilidade de sua reprodução apenas auxilia a propagação de um relato, ou a propagação do conhecimento antropológico realizado. E assim, talvez a reprodução não gere aura, mas certamente gera hau.

É necessário encontrar a dimensão do humano que pretendemos mostrar. E a única forma que isto me parece possível é através desta lente (mental) que devemos criar para poder enxergar uma 'erótica do humano'. Assim como é necessário enamorar-se do nosso fazer antropológico, é necessário enamorar-se do ser humano em si mesmo.

Referências:

 

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.

SONTAG, Susan. Contra a Interpretação. Porto Alegre: P&PM, 1987.

 

 

 

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