O Papa prega unidade em meio a recordações de divisão

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27 Mai 2014

Nesta segunda-feira o Papa Francisco deu continuidade à sua viagem ao Oriente Médio, trazendo uma mensagem de “misericórdia, magnanimidade e compaixão” a lugares sagrados tanto para muçulmanos quanto para judeus e visitando o memorial do holocausto Yad Vashem para lamentar o que chamou de “tragédia sem limites”.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por The Boston Globe, 26-05-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

No entanto, houve lembranças aqui e acolá de que as divisões que assediam o pedaço de propriedade mais contestado do mundo podem não ser tão fáceis assim de serem dissipadas.

Na manhã de hoje [segunda-feira], Francisco foi ao Domo da Rocha, onde os muçulmanos acreditam que Maomé ascendeu ao céu, e ao Muro das Lamentações, a última porção que resta do antigo templo israelense. Ele se encontrou com o Grão-Mufti de Jerusalém e com Rabinos Chefe de Israel, principais autoridades de ambas as religiões no país.

Francisco estava acompanhado pelos seus próprios parceiros inter-religiosos: o rabino Abraham Skorka e o líder muçulmano Omar Abboud, convidados para fazerem parte de sua delegação.

Em sua chegada ao Domo da Rocha, Francisco tirou os calçados em conformidade com o costume islâmico e em seguida juntou-se aos anfitriões para um chá. Falando para o Gão-Mufti Muhamad Ahmad Hussein e outros líderes islâmicos, Francisco manifestou a alegria em estar na presença de seus “queridos amigos muçulmanos”, convidando cristãos e muçulmanos para juntos ouvirem os sermões de Deus no intuito de “trabalhar pela paz e justiça”.

O pontífice também expressou uma “súplica sincera” de que “ninguém abuse o nome de Deus através da violência”.

No Muro das Lamentações, Francisco foi recebido por uma pequena delegação judia que o presenteou com uma explicação da história do local usando um modelo em pequena escala. Após, aproximou-se do muro para um momento de oração, e a certa altura alçou suas mãos num sinal de reverência.

O pontífice também colocou um pequeno envelope numa das fendas do muro, repetindo um gesto realizado pelo Papa João Paulo II em 2000 e novamente feito pelo Papa Bento XVI em 2009. O texto manuscrito continha as palavras do “Pai Nosso”, oração cristã tradicional, em espanhol, para enfatizar a unidade de todos os credos.

Ao falar para os rabinos, Francisco disse que estava feliz por se encontrar entre os “irmãos mais velhos” do cristianismo.

O papa lhes recordou que possui muitos amigos judeus na Argentina e os convidou para não só aprofundarem os laços sociais entre as duas religiões como também para aprofundarem a reflexão sobre a “significação espiritual da união existente entre nós”.

Francisco pediu a judeus e cristãos para “se oporem firmemente a toda forma de antissemitismo e a todas as demais formas de discriminação”.

No início da manhã, Francisco se tornou o primeiro papa a lançar uma coroa de flores à tumba de Theodor Herzl, fundador do sionismo e considerado o pai espiritual do moderno Estado de Israel. Embora com uma programação apertada, Francisco teve tempo para fazer uma parada num memorial às vítimas israelenses do terrorismo.

A visita do papa ao memorial Yad Vashem pode representar o momento mais evocativo desta manhã, pois aí ele ouviu relatos de vítimas do holocausto e se encontrou com um pequeno grupo de sobreviventes. Beijou as mãos de vários deles, homens e mulheres, e escutou cuidadosamente suas palavras.

Joseph Gottdenker, judeu nascido na Polônia em 1942 e criado às escondidas por uma família católica, considerou a experiência “muito comovente”.

“Não sabia que isso iria acontecer”, disse ele a respeito de o papa ter beijado sua mão. “Eu pensei que eu é quem estaria beijando sua mão, e não o contrário”.

O pontífice fez uma reflexão quase poética permeada de citações da bíblia judaica, o que os cristãos chamam Antigo Testamento.

Ao considerar o holocausto uma “tragédia sem limites”, Francisco disse que o mal realizado foi tão grande que “talvez nem mesmo o Pai pudesse imaginar uma queda tão grande, um abismo tão profundo”.

Apesar das tentativas do papa em enfatizar a unidade, houve recordações das linhas divisórias que marcam as relações no Oriente Médio e que complicam os esforços de reconciliação.

Por um lado, a presença da segurança em torno do papa nesta manhã era notadamente menor do que tinha sido até então, fato que reflete a sensibilidade dos locais em Jerusalém onde o islamismo, o judaísmo e o cristianismo se cruzam e, às vezes, entram em conflito.

Por outro lado, é óbvio que a política esteve presente na agenda do papa.

Ele fez a parada no memorial às vítimas do terrorismo nesta manhã a pedido do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, depois que um porta-voz do ministro das Relações Exteriores israelense rechaçou a oração não programada ontem na barreira entre Israel e a Cisjordânia como uma “manobra de propaganda política”.

Mais tarde, durante a sessão com os líderes muçulmanos, Francisco sentou-se em silêncio enquanto Hussein, o grão-mufti, pronunciava uma dura denúncia do que chamou de “ocupação” israelense do território palestino e de lugares sagrados islâmicos.

“Exigimos justiça e um fim à ocupação israelense que busca anular a nossa identidade”, disse Hussein, alegando que a política de Israel é uma violação “tanto da lei divina quanto do direito internacional”.

Hussein pediu ao Papa Francisco que faça uso de sua autoridade moral para “pôr um fim às práticas violentas e injustas contra os muçulmanos e cristãos”.

Em seguida, Azzam Khatib, diretor geral da Waqf Islâmica (ou autoridade religiosa) que governa o Domo da Rocha, contou ao papa que um grupo palestinos está, no momento, realizando uma greve de fome em protesto ao tratamento recebido pelas autoridades israelenses.

“Jamais teremos a paz enquanto não houver um fim a todas as formas de ocupação”, disse Khatib, bem como um “um fim à violência contra o nosso povo, a nossa terra e os nossos lugares sagrados”.

Nesse ínterim, a polícia israelense precisou ser chamada durante a noite para comparecer num complexo que contém o Cenáculo, local onde Jesus teria celebrado a sua última ceia, e o que muitos judeus consideram como a tumba bíblica do rei Davi.

No fim do dia o Papa Francisco irá celebrar uma missa no Cenáculo, o que irritou judeus ultraortodoxos. Eles também não gostaram dos rumores de um acordo entre Israel e o Vaticano de passar o controle do complexo aos cristãos, embora os dois lados tenham negado que uma tal transferência esteja em andamento.

A polícia deteve 26 manifestantes ultraortodoxos, depois que mais de 150 ativistas terem tentado arrombar o complexo e, em princípio, atacar a polícia com pedras e garrafas. Alguns tentaram se esconder dentro do local.
Entre os presos encontra-se um soldado simpatizante com as manifestações, o qual teria ameaçado a polícia com o seu rifle.

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